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Do que falamos quando falamos da Covid-19? 

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Do que falamos quando falamos da Covid-19?  Por Felipe Schroeder Franke* Existe uma abordagem jornalística chamada Jornalismo de Soluções. Tendo como princípio uma “cobertura rigorosa e baseada nas evidências das respostas a problemas sociais”, seu objetivo é fazer do jornalismo uma instituição com potencial para a transformação social. Isso envolve, de modo importante, a compreensão acerca do papel das próprias pessoas neste processo: municiar leitora ou leitor com conhecimentos concretos e reais, amparados nos seus contextos reais de vida. A cobertura da Covid-19 é um terreno farto de desafios e de possibilidades para o Jornalismo de Soluções. Por um lado, a pandemia gerou um noticiário notavelmente marcado pela discussão de soluções práticas para a vida cotidiana de todos nós. Preciso usar máscaras? Que medidas de segurança devo adotar se precisar sair de casa? Que tipo de ajuda eu posso oferecer para minha vizinhança? Essas e inúmeras outras questões vêm sendo amplamente abordadas pelos meios de comunicação, com impacto real na vida de todos nós. Por outro lado, a persistência da pandemia também fez do noticiário uma overdose de informações pesadas, tristes, confusas e não raro contraditórias. Todo dia, somos confrontados com novos números, recomendações, hipóteses, estudos e interpretações. Um dos maiores exemplos disso são as atualizações diárias com casos confirmados e mortes pela Covid-19. Por estarmos, ainda, em uma curva ascendente, é normal que toda semana tenhamos algum tipo de novo recorde triste, o que gradualmente parece nos amortecer ainda mais perante o mundo. A questão jornalística que se impõe, portanto, é a seguinte: como seguir noticiando a pandemia? Muitas das notícias são tristes, o que gera impacto psicológico, sobretudo a longo prazo. Por outro lado, não parece adequado simplesmente parar de noticiar a pandemia, ou, pior, deturpar a realidade com supostas notícias boas, como defende o governo brasileiro. Como, portanto, manter o interesse do público? Como seguir fornecendo informações úteis para a realidade de cada leitora e leitor? “Limitar-se a jogar informações para as pessoas é uma forma poderosa de frustrá-las e aliená-las”, escreveu Liz Neeley, ainda em março, no excelente artigo intitulado Como falar sobre o coronavírus. “Eu jamais saberei de que maneira minha divulgação científica pode ser a melhor possível se eu não souber em que minha audiência está pensando ou com o que está preocupada”. Essa observação ganha especial sentido quando pensamos na cobertura da Covid-19 no Brasil. Além da evidente diversidade de contextos de leitores (qual é o sentido de dizer que “é importante ficar em casa” para tantos cidadãos que nem tem uma casa?), de que modo é possível estabelecer um canal de comunicação horizontal com o público? Quem é, afinal, o público, e no que ele acredita? A cobertura da pandemia explicita uma crise social do próprio conhecimento Se há um ponto de conforto para jornalistas imersos no desafio de divulgar dados científicos acerca de uma pandemia é o fato de que este desafio se origina em um problema cujas raízes ultrapassam o próprio terreno do jornalismo. Além das dificuldades em encontrar o tom e a maneira adequadas de comunicar […]

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Por Felipe Schroeder Franke* Existe uma abordagem jornalística chamada Jornalismo de Soluções. Tendo como princípio uma “cobertura rigorosa e baseada nas evidências das respostas a problemas sociais”, seu objetivo é fazer do jornalismo uma instituição com potencial para a transformação social. Isso envolve, de modo importante, a compreensão acerca do papel das próprias pessoas neste processo: municiar leitora ou leitor com conhecimentos concretos e reais, amparados nos seus contextos reais de vida. A cobertura da Covid-19 é um terreno farto de desafios e de possibilidades para o Jornalismo de Soluções. Por um lado, a pandemia gerou um noticiário notavelmente marcado pela discussão de soluções práticas para a vida cotidiana de todos nós. Preciso usar máscaras? Que medidas de segurança devo adotar se precisar sair de casa? Que tipo de ajuda eu posso oferecer para minha vizinhança? Essas e inúmeras outras questões vêm sendo amplamente abordadas pelos meios de comunicação, com impacto real na vida de todos nós. Por outro lado, a persistência da pandemia também fez do noticiário uma overdose de informações pesadas, tristes, confusas e não raro contraditórias. Todo dia, somos confrontados com novos números, recomendações, hipóteses, estudos e interpretações. Um dos maiores exemplos disso são as atualizações diárias com casos confirmados e mortes pela Covid-19. Por estarmos, ainda, em uma curva ascendente, é normal que toda semana tenhamos algum tipo de novo recorde triste, o que gradualmente parece nos amortecer ainda mais perante o mundo. A questão jornalística que se impõe, portanto, é a seguinte: como seguir noticiando a pandemia? Muitas das notícias são tristes, o que gera impacto psicológico, sobretudo a longo prazo. Por outro lado, não parece adequado simplesmente parar de noticiar a pandemia, ou, pior, deturpar a realidade com supostas notícias boas, como defende o governo brasileiro. Como, portanto, manter o interesse do público? Como seguir fornecendo informações úteis para a realidade de cada leitora e leitor? “Limitar-se a jogar informações para as pessoas é uma forma poderosa de frustrá-las e aliená-las”, escreveu Liz Neeley, ainda em março, no excelente artigo intitulado Como falar sobre o coronavírus. “Eu jamais saberei de que maneira minha divulgação científica pode ser a melhor possível se eu não souber em que minha audiência está pensando ou com o que está preocupada”. Essa observação ganha especial sentido quando pensamos na cobertura da Covid-19 no Brasil. Além da evidente diversidade de contextos de leitores (qual é o sentido de dizer que “é importante ficar em casa” para tantos cidadãos que nem tem uma casa?), de que modo é possível estabelecer um canal de comunicação horizontal com o público? Quem é, afinal, o público, e no que ele acredita? A cobertura da pandemia explicita uma crise social do próprio conhecimento Se há um ponto de conforto para jornalistas imersos no desafio de divulgar dados científicos acerca de uma pandemia é o fato de que este desafio se origina em um problema cujas raízes ultrapassam o próprio terreno do jornalismo. Além das dificuldades em encontrar o tom e a maneira adequadas de comunicar […]

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