Eleições 2022 | Reportagem

Especialistas veem cenário estável, mas com desfecho incerto na eleição presidencial

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Especialistas veem cenário estável, mas com desfecho incerto na eleição presidencial Imagem: Reprodução / Band

Cientistas políticos ouvidos pelo Matinal acreditam que apenas imprevistos têm potencial de gerar guinada em resultados e que voto em candidatos com menos chances deve ser entendido como “recado” a favoritos

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Um cenário estável e – por ora – sem indícios de grandes reviravoltas. É assim que quatro cientistas políticos ouvidos pelo Matinal avaliam a disputa eleitoral a menos de 20 dias do 1º turno de uma das eleições presidenciais mais polarizadas da história. Eles afirmam que o contexto atípico de enfrentamento entre Lula (PT) e Bolsonaro (PL), dois nomes muito conhecidos e com base forte, dá aos eleitores dos outros candidatos um papel relevante. Entender o movimento desses votos na reta final, no entanto, é complexo, o que dificulta as projeções de resultado das urnas. 

A reportagem do Matinal conversou com Benedito Tadeu César, professor aposentado de Ciência Política da UFRGS e diretor da Rede Estação Democracia; Céli Pinto, professora emérita da UFRGS e doutora em Ciência Política; Rodrigo Gonzalez, professor do departamento de Ciência Política da UFRGS; e Augusto Neftali de Oliveira, professor da Escola de Humanidades da PUCRS.

Em cenário estável, só imprevistos alteram o voto 

“Estamos com a eleição completamente aberta. Aquilo que parecia ser um passeio do Lula sobre o Bolsonaro, não está assim”, analisou César, que vê um 2º turno mais complicado para Lula do que para Bolsonaro. “O que pode virar o voto são essas benesses (econômicas). O Bolsonaro também fala muita mentira e efetivamente ninguém contesta ele. Ele alimenta o seu eleitorado, mas ninguém desconstrói isso. O eleitorado do Bolsonaro não vai mudar, assim como o do Lula também não deve mudar.”

Para ele, o voto de eleitores indecisos ainda deixa a eleição em aberto. E, nisso, entram a possibilidade do voto útil, a influência das fake news e da rejeição aos candidatos como fatores determinantes que podem alterar votos ainda antes do 1º turno. “O Bolsonaro está com 51% de rejeição. Isso mostra o teto dele. Quem o rejeita teoricamente não vai votar nele. Mas aí teria de ver o que é mais forte para uma parcela do eleitorado, se é a rejeição ao Bolsonaro ou ao Lula”, afirmou.

Céli Pinto adicionou um ponto a mais que considera possível para alterar o voto: um acontecimento excepcional. “Ninguém pode prever uma queda de avião com um candidato”, disse ela, fazendo menção ao acidente que vitimou o então candidato Eduardo Campos (PSB), em 2014. Fora algo assim, as possibilidades de alteração do voto parecem esgotadas. “Não acho que um grande escândalo possa mudar algo. Todos já apareceram. Acho que ninguém tem carta na manga para o último dia. Tenho a sensação que as eleições já estão muito encaminhadas.”

Ela não crê na migração de votos de Ciro Gomes e Simone Tebet em tamanho capaz de concluir a eleição em 1º turno em favor de Lula: “Acredito que não há possibilidade (de migração), até pela atuação política do Ciro”, pontuou, salientando as fortes críticas do pedetista ao ex-presidente. Na avaliação dela, os eleitores que se dispõem a votar na emedebista tendem a ser mais despolitizados, o que igualmente indicaria uma dificuldade de alteração do voto. “Quem está votando na Tebet está votando numa novidade. Deve ser um eleitor menos politizado, que está vendo uma pessoa que fala bem, que teve uma boa participação na CPI (da covid). São pessoas mais distantes da política”, avaliou.

Voto em candidatos sem chance é um “recado” do eleitor

Igualmente, o professor Oliveira vê pouca margem para mudanças de voto nas últimas semanas, por conta da disputa peculiar de um presidente contra um ex-presidente, o que reduz a influência da campanha eleitoral no voto. Ele admitiu surpresa o fato de Bolsonaro estar brigando para chegar ao 2º turno, o que foge à regra de outras eleições em que os chefes do Executivo tentaram um segundo mandato. “Embora tenha havido avanços dele ao longo da campanha, a verdade é que é um desastre que o presidente com mandato esteja brigando para ir ao 2º turno. Seria considerado normal um presidente ter uma segurança para ir ao 2º turno.”

Oliveira também não crê na possibilidade de muitos votos de Ciro e Tebet migrarem para outros candidatos no 1º turno. A manutenção da opção em candidaturas com escassas chances de lograr sucesso, segundo ele, é um recado para quem avançar na disputa: “O voto em alguém que se sabe que não vai conseguir ir ao 2º turno é, a rigor, desperdiçado, a não ser que você queira mandar uma mensagem. Então, ele acaba optando por um candidato mais radical ou de uma pauta ideológica muito precisa, como no caso do candidato do Novo ou dos pequenos de esquerda. O eleitor diz que quer mandar uma mensagem”, explicou. “Diria que é menos provável que acabe no 1º turno, a não ser diante de um eventual efeito, mais próximo às eleições, para terminar ali. Tendo em vista a estabilidade registrada, parece pouco provável. Acho que teremos suspense até o dia da eleição.”

O professor Gonzalez tem visão parecida. “O voto federal tem um alto grau de consolidação, porque estamos num cenário menos usual”, embasou ele, citando a disputa entre dois nomes com experiência no Palácio do Planalto. Ele também concorda com a professora Céli de que apenas um elemento novo e inesperado teria o potencial de alterar votos. Mesmo eventuais denúncias já perdem força agora, citando a exploração de pautas dos imóveis comprados pela família Bolsonaro em dinheiro vivo e o julgamento de Lula. “A mudança é pouco provável.”

Gonzalez disse ainda que debates podem gerar empatia com algum candidato, mas não vê chances concretas deles alterarem o cenário geral. Um fator que, na opinião dele, chama a atenção é o número de indecisos na pergunta espontânea, quando o nome dos candidatos não são apresentados – na pesquisa Ipec do início desta semana eram 12%. “Ainda tem um percentual muito grande de indecisos”, destacou. A situação pode gerar tanto crescimento dos candidatos da terceira via, como fazer crescer a reflexão por um “voto estratégico”. Para ele, no entanto, há maior probabilidade desses eleitores não votarem em Lula e Bolsonaro no 1º turno por desejo de enviar uma “mensagem” aos presidenciáveis. A estratégia para captar esses votos fica para a segunda rodada da disputa.

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