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Entrevista: A doutora Barbosa pode, sim, servir o cafezinho

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Entrevista: A doutora Barbosa pode, sim, servir o cafezinho
Parêntese estreia sua seção de entrevistas com Márcia Barbosa, professora titular de Física na UFRGS, doutora pela Universidade de Maryland, nos EUA, ex-diretora de sua faculdade, que se destacou mundialmente como ganhadora, em 2013, do importantíssimo prêmio L’Oréal (sim, a líder mundial na fabricação de cosméticos, empresa de mais de cem anos que promove um prêmio para pesquisa básica e aplicada em áreas de seu interesse), conferido a cada ano apenas a uma pesquisadora de todo o continente americano. Quando perguntada sobre o assunto que pesquisa, ela diz, com singeleza e uma pitada de provocação: “Eu mexo com água”. Mas é isso mesmo. Física teórica, ela tem estudado o tema, formulado hipóteses de grande alcance e descoberto coisas sobre o comportamento da água, essa mesma, a de todos os dias, um elemento tão central na vida que às vezes, como o ar, não é vista, nem prestigiada. Por enquanto. Nos últimos tempos, Márcia tem se destacado pela militância no tema da mulher na ciência. São poucas? Por quê? Sempre foi assim? O que pode ser feito para mudar? O que é que agora e aqui a gente pode começar a fazer? Numa sexta-feira, dia 25 de outubro de 2019, num café da Osvaldo Aranha, Katia Suman e eu sentamos com a Márcia, que saía de uma reunião do Conselho Universitário da UFRGS, para essa conversa. Falante, destravada, propositiva, Márcia Barbosa é uma figura que vale a pena conhecer mais de perto – mesmo para quem passou a vida com medo da Física, ou quem sabe especialmente para gente assim. – Luis Augusto Fischer, editor da Parêntese Parêntese: Vamos começar? Márcia Barbosa: [Mal senta, já começa a falar para explicar a agenda cheia] … meus pais têm idade – vocês devem viver a mesma situação –, eu tenho que monitorar, então tem um calendário na mesa do pai onde ele anota onde eu e meu irmão estamos, e ele contabiliza. Ano passado ele me disse: “Márcia, tu passaste metade do segundo semestre viajando”. Normalmente eu viajo pra ficar bastante tempo em um lugar fazendo pesquisa, mas desta vez não, eram muitos lugares diferentes. Foi durante a campanha eleitoral que me convidavam muito para falar de gênero e ciência. Aí, quando terminou a campanha, um dia depois da eleição eu comecei a receber convites para ficar um tempo fora do Brasil, foi muito engraçado. Inclusive tinha uma posição acadêmica, com que há muitos anos eu sonhava, fora, e me disseram: “Márcia, está na hora!” Em Trieste [Itália] ia trocar o diretor de um centro de pesquisa, nunca teve uma mulher, era o meu sonho, e o diretor atual me escreveu e disse, “Entra, é a tua vez!” Ele nem me conhecia pessoalmente, só de currículo e de conferências. E várias pessoas me dizendo e eu só pensava: “Eu não posso sair do Brasil agora. Agora é a hora das pessoas velhas, como eu, pessoas que têm menos espaço de vida, no sentido de que eu sou mais descartável, então eu posso ousar. […]

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