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Imunidade populacional na Covid-19: um longo caminho pela frente

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Imunidade populacional na Covid-19: um longo caminho pela frente Por Felipe Schroeder Franke* Ao longo de maio, tivemos importantes resultados de testes da imunidade na Covid-19 em nível populacional. Estes testes são fundamentais para as políticas públicas de combate à pandemia, pois fornecem um vislumbre sobre o real avanço do vírus em uma comunidade (cidade, estado ou país). Sem isso, é impossível decidir sobre como seguir agindo, coletivamente, frente à pandemia. Para isso, no entanto, precisamos entender o que são os testes de imunidade e qual é o significado dos seus possíveis resultados. Em um teste de imunidade, pega-se uma amostra do sangue de um indivíduo e procura-se por um anticorpo contra um invasor (no caso da pandemia de Covid-19, um anticorpo contra o SARS-CoV-2). Os chamados “testes rápidos”, que recentemente foram aprovados para serem realizados em farmácias, são testes imunológicos. Quando o teste tem resultado “positivo”, isso indica que o indivíduo tem anticorpos. Ou seja, em algum momento do passado, ele esteve contaminado com o SARS-CoV-2 e desenvolveu uma resposta imunológica adaptativa adequada – em outras palavras, gerou anticorpos. (Se já dispuséssemos de uma vacina contra o SARS-Cov-2, um teste imunológico positivo poderia igualmente indicar que o indivíduo foi vacinado, e não necessariamente contaminado). Quando não encontramos anticorpos no sangue coletado, o resultado é “negativo”. Isso pode significar muitas coisas. A mais provável é que esse indivíduo não tenha anticorpos simplesmente por nunca ter estado contaminado. Mas também é possível que ele, apesar de contaminado, não tenha desenvolvido uma resposta imunológica eficiente, ou seja, não formou anticorpos. Uma terceira possibilidade, ainda, é que ele tenha se contaminado, mas ainda não tenha tido tempo de formar anticorpos. Além de todas essas possíveis leituras, existem limitações técnicas inerentes aos próprios testes. Para achar um anticorpo em uma gota de sangue, precisamos de produtos específicos para realizar o teste. Um anticorpo é uma estrutura proteica complexa de aproximadamente 10 nanômetros (10 x 10-9m), em média. Para termos uma ideia, um anticorpo é menor do que o diâmetro das membranas das nossas células. Para achar esta molécula, usamos técnicas de laboratório baseadas em características biofísicas da mesma, e essas técnicas são dependentes de insumos bioquímicos altamente especializados, muitas vezes caros, e nem sempre disponíveis. Além disso, o SARS-CoV-2 é um vírus novo, de modo que ainda estamos aprendendo qual é a melhor forma, tecnicamente falando, de encontrar seu anticorpo. Estamos todos aprendendo, não é mesmo? Vale observar que essas incertezas técnicas – um pouco angustiantes em uma urgência sanitária – são inerentes a qualquer teste de laboratório. Nenhum exame fornece um resultado 100% confiável. Isso é tão fundamental que todo teste é classificado de acordo com sua precisão, que é medida, principalmente, através dos parâmetros de sensibilidade (capacidade de identificar corretamente um indivíduo com a doença) e especificidade (capacidade de identificar corretamente um indivíduo sem a doença). Um teste, em suma, é uma ferramenta de acesso à realidade. Em outras palavras, quando fazemos um teste sobre a presença de um anticorpo, nós não estamos vendo o anticorpo de modo imediato. Nós estamos […]

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Por Felipe Schroeder Franke* Ao longo de maio, tivemos importantes resultados de testes da imunidade na Covid-19 em nível populacional. Estes testes são fundamentais para as políticas públicas de combate à pandemia, pois fornecem um vislumbre sobre o real avanço do vírus em uma comunidade (cidade, estado ou país). Sem isso, é impossível decidir sobre como seguir agindo, coletivamente, frente à pandemia. Para isso, no entanto, precisamos entender o que são os testes de imunidade e qual é o significado dos seus possíveis resultados. Em um teste de imunidade, pega-se uma amostra do sangue de um indivíduo e procura-se por um anticorpo contra um invasor (no caso da pandemia de Covid-19, um anticorpo contra o SARS-CoV-2). Os chamados “testes rápidos”, que recentemente foram aprovados para serem realizados em farmácias, são testes imunológicos. Quando o teste tem resultado “positivo”, isso indica que o indivíduo tem anticorpos. Ou seja, em algum momento do passado, ele esteve contaminado com o SARS-CoV-2 e desenvolveu uma resposta imunológica adaptativa adequada – em outras palavras, gerou anticorpos. (Se já dispuséssemos de uma vacina contra o SARS-Cov-2, um teste imunológico positivo poderia igualmente indicar que o indivíduo foi vacinado, e não necessariamente contaminado). Quando não encontramos anticorpos no sangue coletado, o resultado é “negativo”. Isso pode significar muitas coisas. A mais provável é que esse indivíduo não tenha anticorpos simplesmente por nunca ter estado contaminado. Mas também é possível que ele, apesar de contaminado, não tenha desenvolvido uma resposta imunológica eficiente, ou seja, não formou anticorpos. Uma terceira possibilidade, ainda, é que ele tenha se contaminado, mas ainda não tenha tido tempo de formar anticorpos. Além de todas essas possíveis leituras, existem limitações técnicas inerentes aos próprios testes. Para achar um anticorpo em uma gota de sangue, precisamos de produtos específicos para realizar o teste. Um anticorpo é uma estrutura proteica complexa de aproximadamente 10 nanômetros (10 x 10-9m), em média. Para termos uma ideia, um anticorpo é menor do que o diâmetro das membranas das nossas células. Para achar esta molécula, usamos técnicas de laboratório baseadas em características biofísicas da mesma, e essas técnicas são dependentes de insumos bioquímicos altamente especializados, muitas vezes caros, e nem sempre disponíveis. Além disso, o SARS-CoV-2 é um vírus novo, de modo que ainda estamos aprendendo qual é a melhor forma, tecnicamente falando, de encontrar seu anticorpo. Estamos todos aprendendo, não é mesmo? Vale observar que essas incertezas técnicas – um pouco angustiantes em uma urgência sanitária – são inerentes a qualquer teste de laboratório. Nenhum exame fornece um resultado 100% confiável. Isso é tão fundamental que todo teste é classificado de acordo com sua precisão, que é medida, principalmente, através dos parâmetros de sensibilidade (capacidade de identificar corretamente um indivíduo com a doença) e especificidade (capacidade de identificar corretamente um indivíduo sem a doença). Um teste, em suma, é uma ferramenta de acesso à realidade. Em outras palavras, quando fazemos um teste sobre a presença de um anticorpo, nós não estamos vendo o anticorpo de modo imediato. Nós estamos […]

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