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Julia da Rosa Simões: Afetos ferozes

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Julia da Rosa Simões: Afetos ferozes Viver é sinônimo de aprender a relacionar-se. Estamos sempre em algum tipo de interação, seja com nós mesmos − lidando com emoções, memórias, identificações, medos −, seja com os outros, em círculos e ambientes variados − família, trabalho, sociedade. Enquanto não nos retirarmos para uma caverna ou um deserto, estaremos em relação. É a força desses vínculos que Vivian Gornick, uma das “lendas vivas do jornalismo feminista norte-americano”, como é apresentada por sua editora brasileira, compartilha conosco de maneira franca e admirável em seu primeiro livro de memórias lançado no Brasil, Afetos ferozes (Todavia, 2019, com tradução de Heloisa Jahn). A partir do relacionamento com a mãe − “que não é bom, e à medida que nossas vidas se acumulam, muitas vezes dá a impressão de piorar” −, Gornick nos leva a um passeio por Nova York, cidade que percorre incansavelmente, e pelo passado, o seu, o da mãe, da família, do bairro, das mulheres que conheceu. Estruturada em torno de diálogos com a mãe no presente (1987 é o ano de lançamento original do livro) e solilóquios da autora sobre suas experiências, a narrativa vai muito além do universo potencialmente controlado e distante da escrita, dando vida a personagens genéricos ou singulares, fascinantes ou repulsivos. Gornick tem a virtude de fugir da autocomiseração, expondo algumas fraquezas e muitos desencontros − com a mãe, com as amigas, com o marido, com o amante, com o trabalho. É notável seu reconhecimento de ter chegado aos quarenta anos levando “uma vida de fantasia”. Seu mundo, muito conhecido por todos nós, é aquele em que as pessoas estão sempre caindo nas armadilhas das outras: um olhar, um suspiro ou uma palavra são suficientes para que o botão da reatividade seja apertado, para que algum alerta interno dispare, para que a agressividade se desencadeie. Mas ela não quer fingir que cresceu, que aprendeu, que se tornou uma pessoa melhor: pelo contrário, reconhece o quanto usou os relacionamentos, e o sexo (“Na cama eu não precisava ser eu mesma. Podia me perder e continuar a salvo”), para se esconder neles. A solidão − o comprometimento consigo mesma, sem delegar ao outro essa tarefa − pode ser uma alternativa difícil, mas leva Gornick a momentos de conexão, em que ela se sente “parte integrante [do] incrível esforço de duzentos anos” das Odd Women. Mulheres ímpares, por um lado − alusão ao romance de mesmo nome, escrito em 1893 pelo inglês George Gissing, que partia da ideia de que a Inglaterra vitoriana contava com um excesso de mulheres em relação aos homens, ou seja, mulheres que inevitavelmente ficavam de fora da equação do casamento e permaneciam sozinhas, sem par −, mas também mulheres estranhas, com estilos de vida fora dos padrões. É definindo-se como uma dessas mulheres que Gornick justamente volta às memórias, 28 anos depois de Afetos ferozes, em The Odd Woman and the City (Farrar, Straus and Giroux, 2015). Nesse livro, mais curto e menos envolvente, o relacionamento com a cidade ganha mais protagonismo (caminhar […]

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Viver é sinônimo de aprender a relacionar-se. Estamos sempre em algum tipo de interação, seja com nós mesmos − lidando com emoções, memórias, identificações, medos −, seja com os outros, em círculos e ambientes variados − família, trabalho, sociedade. Enquanto não nos retirarmos para uma caverna ou um deserto, estaremos em relação. É a força desses vínculos que Vivian Gornick, uma das “lendas vivas do jornalismo feminista norte-americano”, como é apresentada por sua editora brasileira, compartilha conosco de maneira franca e admirável em seu primeiro livro de memórias lançado no Brasil, Afetos ferozes (Todavia, 2019, com tradução de Heloisa Jahn). A partir do relacionamento com a mãe − “que não é bom, e à medida que nossas vidas se acumulam, muitas vezes dá a impressão de piorar” −, Gornick nos leva a um passeio por Nova York, cidade que percorre incansavelmente, e pelo passado, o seu, o da mãe, da família, do bairro, das mulheres que conheceu. Estruturada em torno de diálogos com a mãe no presente (1987 é o ano de lançamento original do livro) e solilóquios da autora sobre suas experiências, a narrativa vai muito além do universo potencialmente controlado e distante da escrita, dando vida a personagens genéricos ou singulares, fascinantes ou repulsivos. Gornick tem a virtude de fugir da autocomiseração, expondo algumas fraquezas e muitos desencontros − com a mãe, com as amigas, com o marido, com o amante, com o trabalho. É notável seu reconhecimento de ter chegado aos quarenta anos levando “uma vida de fantasia”. Seu mundo, muito conhecido por todos nós, é aquele em que as pessoas estão sempre caindo nas armadilhas das outras: um olhar, um suspiro ou uma palavra são suficientes para que o botão da reatividade seja apertado, para que algum alerta interno dispare, para que a agressividade se desencadeie. Mas ela não quer fingir que cresceu, que aprendeu, que se tornou uma pessoa melhor: pelo contrário, reconhece o quanto usou os relacionamentos, e o sexo (“Na cama eu não precisava ser eu mesma. Podia me perder e continuar a salvo”), para se esconder neles. A solidão − o comprometimento consigo mesma, sem delegar ao outro essa tarefa − pode ser uma alternativa difícil, mas leva Gornick a momentos de conexão, em que ela se sente “parte integrante [do] incrível esforço de duzentos anos” das Odd Women. Mulheres ímpares, por um lado − alusão ao romance de mesmo nome, escrito em 1893 pelo inglês George Gissing, que partia da ideia de que a Inglaterra vitoriana contava com um excesso de mulheres em relação aos homens, ou seja, mulheres que inevitavelmente ficavam de fora da equação do casamento e permaneciam sozinhas, sem par −, mas também mulheres estranhas, com estilos de vida fora dos padrões. É definindo-se como uma dessas mulheres que Gornick justamente volta às memórias, 28 anos depois de Afetos ferozes, em The Odd Woman and the City (Farrar, Straus and Giroux, 2015). Nesse livro, mais curto e menos envolvente, o relacionamento com a cidade ganha mais protagonismo (caminhar […]

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