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Planos de retomada das aulas enfrentam as incertezas da Covid-19 em crianças

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Planos de retomada das aulas enfrentam as incertezas da Covid-19 em crianças

Após mais de um semestre de medidas variadas de isolamento físico perante a pandemia, gradualmente aumenta a pressão pelo retorno das aulas em colégios, creches e escolas de todo o mundo. Estima-se que 60% das alunas e alunos tenham sido impactados. No Brasil, as atividades pedagógicas presenciais de crianças e adolescentes foram interrompidas em março, e, a cada mês que passa, aumenta a expectativa do retorno.

O retorno às aulas, desde o pré-escolar até o ensino médio, é importante e evidente por inúmeras razões. Famílias se viram obrigadas a adaptar suas rotinas para absorver a presença permanente dos seus filhos em casa, com grande impacto na vida profissional, pessoal e psicológica. Além disso, a perda de um período muito longo de educação formal pode ter impactos importantes, apesar dos esforços, ainda muito irregulares e nem sempre satisfatórios, pelo ensino a distância.

Toda a importância que há na retomada das aulas existe também na necessidade de que esse movimento seja feito com o máximo de segurança possível. Embora seja impossível garantir risco zero, é fundamental agir de modo a minimizar a chance de que a volta das atividades pedagógicas implique o aumento das taxas de transmissão e de contaminação pelo SARS-CoV-2.

O que sabemos sobre a Covid-19 em crianças?

Se a patofisiologia da Covid-19 permanece um enigma nos adultos, ela é ainda mais desafiadora em crianças. Em parte, isso deriva do fato de que doenças infecciosas têm cursos diferentes em crianças se comparadas em adultos. Crianças têm uma memória imunológica ainda em formação, tornando-as mais propensas a infecções do que adultos. Estes, por sua vez, tendem a possuir mais comorbidades, o que faz deles alvos mais frágeis a patógenos desafiadores como o SARS-CoV-2..

Apesar de os dados serem bastante incompletos, já se sabe que, sim, crianças de qualquer idade podem desenvolver a Covid-19. As crianças mais jovens também têm maior risco de quadros graves de Covid-19, quando comparadas com crianças mais velhas, o que pode guardar relação com o processo de maturação do sistema imunológico.

Porém, à exceção de uma certa concentração de casos registrados entre o primeiro mês e o primeiro ano de vida, todas as demais faixas têm chances relativamente parecidas de desenvolver a Covid-19, e são essas as faixas que importam no planejamento da retomada das aulas.

Ainda assim, quando comparadas com os casos nas outras faixas etárias, as crianças constituem uma minoria dos casos totais de Covid-19. Mundialmente falando, varia de 1% a 5% a proporção de crianças sintomáticas após infecção com o SARS-CoV-2. Desta pequena parcela, somente uma minoria tende a desenvolver quadros graves, com necessidade de internação. Quanto uma criança desenvolve um quadro grave de Covid-19, as complicações são similares às de um adulto. Sintomas frequentes são febre, fadiga e tosse seca.

Assim como em adultos, seria importante descobrir quais são os fatores que predisporiam uma criança à proteção ou ao risco aumentado de uma Covid-19 grave. Aqui, os dados também são bastante preliminares. É possível que crianças com comorbidades como asma ou obesidade sejam mais propensas a maiores risco perante o SARS-CoV-2.

São raras as ocorrências de morte em crianças por da Covid-19, quando comparadas a adultos. Ainda assim, apesar de um aparente menor impacto, o SARS-CoV-2 apresenta riscos importantes a crianças e adolescentes, os quais devem ser considerados em qualquer movimento de retorno das atividades escolares.

Uma importante observação a ser feita neste contexto são os recorrentes casos similares à síndrome de Kawasaki. Trata-se de um quadro inflamatório multissistêmico e agudo, que pode se manifestar em outras infecções ou quadros autoimunes. Há um aumento do número de possíveis síndromes de Kawasaki na pandemia, e isso vem sendo estudado de perto por pediatras e infectologistas. Como alertou a Sociedade Brasileira de Pediatria, trata-se de uma apresentação aguda, grave e potencialmente fatal.

Transmissibilidade

Para além do risco da exposição de crianças e jovens ao vírus, o plano do retorno às aulas precisa se deparar com o papel que esse movimento terá na dinâmica da pandemia. Essa é uma questão complexa: para além dos impactos secundários que isso gera (como transporte coletivo, locomoção, outros profissionais que terão de ser acionados), a grande questão recai sobre as consequências da convivência próxima por muitas horas e muitos dias da semana.

No início da pandemia, se disseminou a noção de que as crianças talvez não pudessem ser vetores do vírus. Hoje, isso é uma questão bastante em aberto. Biologicamente falando, não há nenhuma razão que nos garanta que crianças não são capazes de transmitir o SARS-CoV-2, pois crianças podem transmitir muitos outros patógenos respiratórios. Não há argumentos que nos levem a crer que, na pandemia, isso seria diferente.

Tendo isso em mente, há questões a serem consideradas. A primeira é que os dados disponíveis acerca da transmissibilidade por crianças é baixo. Em parte, isso se explica por razões lógicas, já que as aulas foram interrompidas nos estágios iniciais das pandemias em seus contextos locais. Na prática, isso confinou as crianças ao ambiente doméstico, reduzindo muito a chance de haver casos registrados de transmissão nas escolas – ainda que haja casos registrados após o retorno das aulas na Ásia.

A segunda questão é, novamente, de ordem biológica. Se os dados epidemiológicos disponíveis são fiéis à realidade, apenas uma minoria de crianças desenvolve quadros graves de Covid-19. Assim, pode ocorrer que, em crianças assintomáticas, pré-sintomáticas ou sintomáticas leves, a transmissibilidade seja baixa. Um estudo recente apontou que crianças infectadas teriam carga viral maior que adultos infectados, mas não se sabe se essa carga viral é sinônimo de potencial infeccioso igualmente maior.

É muito cedo para qualquer conclusão sobre esse aspecto, e isso reflete, também, nossa ignorância a respeito da transmissibilidade em adultos. Vale lembrar que ainda há dúvidas sobre o SARS-CoV-2 poder ser transmitido pelo ar ou somente por gotículas, embora haja evidências crescentes de que o vírus pode se disseminar pelo simples ato de respirar. Por isso, sugere-se que, tanto quanto possível, todas as atividades presenciais sejam realizadas em ambientes abertos, como parques ou pátios.

Por fim, também é importante ter em mente que as estratégias preventivas preconizadas (e nem sempre seguidas) por adultos têm uma aplicabilidade distinta em crianças. Embora muito possa ser feito, é bem improvável que o uso de máscaras, a limpeza constante de mãos e objetos compartilhados e a manutenção de uma distância mínima de 2 metros sejam mantidos por crianças de cinco anos de idade.

Apesar de todos os desafios que terão de ser enfrentados quando chegar o momento de reabrir creches e escolas, convém ter em mente que o esforço feito até agora foi necessário. Um complexo estudo publicado recentemente no Journal of the American Medical Association sobre o impacto da interrupção das aulas no Estados Unidos estima que a medida resultou na prevenção de 1,3 milhões de casos e de 40 mil mortes por Covid-19 naquele país.

*Felipe é jornalista e estudante de Medicina na UFRGS

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