Carta da Editora

A cobertura das enchentes começou bem antes de 2024

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A cobertura das enchentes começou bem antes de 2024 Guaíba atingiu a maior elevação desde a enchente de 1941 nesta sexta | Foto: Gregório Mascarenhas/Matinal

Quarta-feira, 6 de dezembro de 2023, fim da tarde. Chovia torrencialmente em Porto Alegre. Uma coincidência curiosa, pensamos, enquanto esperávamos os convidados para a primeira edição do festival Cidade das Ideias, uma conversa promovida pela Matinal com especialistas para debater o futuro das cidades diante de eventos extremos. Naquele momento, anunciamos que a crise climática seria um dos pilares editoriais da Matinal em 2024.

A motivação principal para o evento foram os temporais intensos e seus consequentes danos vivenciados no Rio Grande do Sul no ano passado e que, como pesquisadores do mundo todo vêm avisando – e nós estamos testemunhando –, já são cada vez mais frequentes em função das mudanças climáticas. Em 2023, esses fenômenos deixaram 75 mortos em todo o estado, 54 só na enchente de setembro, que devastou cidades do Vale do Taquari, como Muçum.

O município de 5 mil habitantes foi citado no evento da Matinal realizado em dezembro como um dos que mais destruiu suas matas, segundo o diretor científico da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), Francisco Milanez, um dos nossos convidados. A tragédia se repete em 2024: uma reportagem da Agência Pública mostrou que a devastação de maio no Vale do Taquari foi maior em lado menos preservado. 

“A cidade tem que trazer de volta a sua natureza”, destacou Milanez à época. “Porto Alegre tem que trazer as pitangueiras, os butiazeiros, para que nós consigamos viver de forma minimamente razoável dentro da cidade”, complementou o biólogo e urbanista. 

Lembrei dessa fala quando publicamos, na quarta-feira, a reportagem sobre a derrubada de um guapuruvu, árvore nativa do Rio Grande do Sul, em um terreno para a construção de um condomínio em Petrópolis, empreendimento da Plaenge. 

A derrubada contou com autorização da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus), que informou à Matinal que haveria uma compensação por meio do plantio de 14 mudas em outros locais da cidade. Para piorar, no dia seguinte, descobrimos que a autorização da prefeitura se estendia para mais 90 árvores, entre nativas e exóticas. 

A compensação, usada tanto pela construtora quanto pela prefeitura basicamente para justificar que é ok sacrificar espécies nativas, é criticada pelo presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), Heverton Lacerda. Para ele, trata-se de trocar uma árvore adulta, sadia, que está beneficiando uma determinada área, por mudas que sequer sabemos como vão se desenvolver – e que serão plantadas em outro local, como se não fosse necessário ter cada vez mais árvores por toda a cidade. O caso deve ser levado ao Ministério Público, anunciou a deputada estadual Sofia Cavedon.

O manejo arbóreo de Porto Alegre é tema recorrente na Matinal, muitas vezes por sugestões da audiência. Nas nossas redes sociais, leitores e leitoras lamentam a notícia do guapuruvu e questionam: não se aprendeu nada com as enchentes? A inundação ameaçou muitas árvores da cidade, conforme mostramos em reportagem do dia 31 de maio, que também destaca que a vegetação da cidade já sofria com má gestão do município, questão que fomos capazes de contextualizar com uma série de reportagens publicadas em anos anteriores.

Ao longo de toda a cobertura da inundação histórica, ficou evidente que, muito antes da atual tragédia, a Matinal já estava em cima de temas relacionados aos impactos de eventos extremos nas cidades. Neste mês de maio, veículos locais e nacionais se voltaram para a discussão sobre se o Guaíba é rio ou lago. O debate não é novo, mas ainda em dezembro voltamos ao tema sob a nova perspectiva que se apresenta desde a aceleração das mudanças climáticas. Quem buscar no Google “Guaíba é rio ou lago?” vai encontrar uma série de reportagens feitas entre maio e junho deste ano por outros veículos – algumas com títulos bem parecidos com o nosso, “Rio ou lago? Guaíba precisa mesmo é de nova lei para proteger suas margens”.

Montagem com reproduções de manchetes de jornais de maio e junho de 2024

Antes da enchente de maio, falamos também sobre a flexibilização da legislação ambiental promovida por Eduardo Leite, que virou um dos temas centrais do atual debate. Ao abordar a seca histórica de 2023, mostramos como o foco em mitigação torna o estado mais suscetível às mudanças climáticas, salientando a falta de prevenção para lidar com a questão – tema que abordei neste espaço no dia 3 de maio.

Em paralelo aos temas ambientais, como lembrou a editora Silvia Lisboa em e-mail enviado aos assinantes da Matinal no dia 14 de maio, também está há anos na nossa mira o Departamento Municipal de Água e Esgoto (Dmae). Em 2021, tivemos acesso a um relatório do Tribunal de Contas do Estado que, como destacou Silvia, poderia ser chamado de “manual da precarização de um serviço público essencial” – leia aqui a íntegra da carta enviada aos leitores.

Como vocês podem ver, apesar do que dizem alguns gestores públicos e colegas da imprensa local tradicional, a crise climática e temas afins têm, sim, sido bastante discutida, especialmente aqui na Matinal e outros veículos independentes no RS e em outras regiões. 

É com esse olhar crítico que vocês já conhecem que estamos preparando uma cobertura eleitoral à altura do que Porto Alegre precisa para se reconstruir. Lançamos nesta semana a campanha #EleiçõesParaQuemSeImporta. Estamos em busca de novas assinaturas para ampliar nossa equipe e fortalecer o debate público, que, para este pleito, ganhou novos contornos após a inundação histórica que atingiu a capital gaúcha. Apoie a Matinal e fortaleça o jornalismo independente de Porto Alegre.

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