Carta da Editora

Nosso partido

Change Size Text
Nosso partido

Esses dias um leitor perguntou se existe tendência político partidária no Matinal. Digo tranquilamente que não, não temos nenhuma vinculação com qualquer partido político. 

Nosso jornalismo é guiado por princípios como interesse público, justiça social, valorização da diversidade, transparência e independência. Nossos valores estão publicados aqui, assim como a forma como nos financiamos. Não temos a pretensão de sermos neutros. Sequer acreditamos que exista neutralidade no jornalismo, a despeito do que muita gente diz por aí. 

Ninguém é neutro. Repórteres são observadores humanos dos fatos que nos circundam. Uma pauta nasce de uma escolha, que é decidir dar visibilidade para aquela história – aliás, não dar a ver também é uma escolha. Escolhe-se ainda quem ouvir, que trechos da entrevista usar, quais as palavras. E cada escolha dessas é carregada pela visão de mundo do repórter. 

Felizmente o jornalismo é uma atividade coletiva. A gente debate a pauta, debate o texto, debate o título, acrescentando assim outras visões em cima daquela história. Daí a importância de termos uma redação o mais plural possível, um dos nossos valores no Matinal. O mesmo buscamos entre nossas fontes, gente diversa, mas sobretudo inteligente e comprometida também com o interesse público para além dos seus interesses individuais.

Na impossibilidade de atingir o mito da neutralidade, buscamos ser transparentes em relação aos nossos métodos de apuração, aos critérios do que é importante para nós. Temos compromisso em dar espaço para o contraditório, buscar pontos de vista divergentes. 

Mas há histórias em que vamos tomar partido, sim. Se de um lado houver ameaça à liberdade de expressão ou a qualquer outro direito fundamental, pode ter certeza de que estaremos na outra ponta.

Futebol e mulher

Este não é um comentário sobre futebol feminino, mas sobre a pior relação que poderia existir entre futebol e mulher. A pesquisa Violência contra mulheres e o futebol, publicada em maio, revela o aumento da violência de gênero em dias de jogos no Brasil. Idealizado pelo Instituto Avon e encomendado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o estudo mostra que os boletins de ocorrências de ameaça contra meninas e mulheres aumentam em 23,7% quando um dos times de futebol da cidade joga.

Foram analisadas bases de dados de violência com informações de todos os dias de jogos do Campeonato Brasileiro da série A entre os anos de 2015 e 2018 em Porto Alegre e outras quatro capitais brasileiras, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Belo Horizonte. Para a coordenadora de Pesquisa e Impacto e de Enfrentamento às Violências contra Meninas e Mulheres do Instituto Avon, Beatriz Accioly, o futebol seria “uma espécie de catalisador das desigualdades de poder entre homens e mulheres, ao interagir com valores ligados à masculinidade, competitividade, rivalidade, hostilidade, pertencimento, virilidade e, por vezes, à frustração”.

Para que a gente avance no combate à violência contra a mulher, é fundamental debater o tema com os homens. Os clubes podem ser um bom caminho. O São Paulo e o Sport Club do Recife, por exemplo, integram a Coalizão Empresarial Pelo Fim das Violências Contra Mulheres e Meninas, pela qual assumem o compromisso de intensificar ações internas de conscientização e mobilização pelo fim da violência contra mulheres e meninas. Que tal sugerir pro seu time do coração abraçar essa causa também?

Cotistas e cotistas

Ontem, em encontro da classe artística com Lula, aqui em Porto Alegre, o escritor Jeferson Tenório defendeu que não se trata mais de discutir se as cotas devem ou não existir, a questão que importa hoje é como ampliá-las. Vencedor do Prêmio Jabuti 2021 com o excelente O Avesso da Pele, Tenório foi cotista da UFRGS.

As cotas foram pauta da entrevista da filósofa, escritora e ativista Sueli Carneiro ao podcast Mano a Mano, conduzido por Mano Brown. Sueli falou sobre o perigo de retrocesso de algumas lutas do movimento negro, como as ações afirmativas. E lembrou de um artigo assinado por um historiador gaúcho, como ela mencionou, intitulado Os cotistas desagradecidos. 

Resgatei o texto, de autoria do jornalista e historiador Tau Golin. Você deve imaginar quem são os cotistas desagradecidos. “Nos ambientes sociais, invariavelmente, escuto descendentes de imigrantes condenarem a política de cotas. São ignorantes ou hipócritas. A parte rica do Rio Grande do Sul e outras regiões do Brasil é o presente de cotistas do passado. As políticas de colonização do país foram as aplicações concretas de políticas de cotas.”

O texto é de 2014. Oito anos atrás. E ainda precisamos reafirmar a importância de ações afirmativas para o povo negro.

RELACIONADAS
ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.
ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.