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O futuro está fora das telas

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O futuro está fora das telas Foto: Leo Rivas/ Unsplash

Existe uma droga sequestrando a sanidade de nossas crianças. Pior: quando elas olham para pais, mães, professoras ou qualquer cuidador, nos enxergam igualmente viciados. Por isso é tão difícil vencer essa batalha.

Já está mais do que provado o mal causado pelo consumo desenfreado de telas. Best-seller nos Estados Unidos, o livro A geração ansiosa: Como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais (Companhia das Letras), de Jonathan Haidt, vai ser lançado no Brasil no próximo dia 12. O psicólogo explica como a “infância baseada no brincar” foi substituída pela “infância baseada no celular”, causando impacto no desenvolvimento social e neurológico dos mais jovens, provocando desde a privação do sono até a fragmentação da atenção e o vício nas telas.

A obra apresenta um plano para uma infância mais saudável. Entre as recomendações: proibir o smartphone para os filhos até o ensino médio, permitir rede social só depois dos 16 anos e banir o celular das escolas. Em São Paulo, o Movimento Desconecta vai no mesmo caminho e propõe um pacto entre pais, mães e cuidadores para que evitem oferecer  smartphone ao público de até 13 anos.

Viciados e limitados

Não é só a sanidade mental das crianças – além da nossa – que anda comprometida. A criatividade e a imaginação também. As telas entregam tudo pronto pra gente, não é preciso criar nada nem enfrentar o tédio, muitas vezes ponto de partida para grandes ideias. 

Mas para pais e mães acaba sendo a saída para garantir uns minutos de paz e não ter que lidar com uma criança gritando, pulando e correndo ao redor das mesas de um restaurante. Criança sendo criança, afinal. Educar exige energia e resiliência. Pois vou dar mais uma tarefa aos pais e mães que me leem: já ouviram falar em letramento de futuros?

Em 2012, a Unesco passou a considerar o letramento de futuros uma competência essencial para o século 21. Dez anos depois, ela foi apontada pelo Fórum Econômico Mundial como a principal habilidade para lidar com o mundo pós-pandêmico. Basicamente é a capacidade que nos permite vislumbrar um futuro possível, imaginar novos cenários para que possamos, enfim, concretizá-los. Esse caminho passa pela desconexão das telas e a reconexão com a natureza.

Penso nas crianças gaúchas que, junto dos adultos, ainda elaboram o trauma da enchente de maio e vão precisar cada vez mais dessa habilidade. A imaginação, tão característica da infância, pode salvá-las do pessimismo generalizado que costuma tomar conta de uma sociedade depois de um evento trágico.

Escola sem Celular

Aproveitando que estamos em ano de eleições, conclamo os vereadores de Porto Alegre a abraçar essa causa. Acredito que vá ter adesão, porque esses dias andaram falando contra a maconha na tribuna, logo, devem estar escandalizados com a popularização do vício nas telas. Da mesma turma, tem aqueles que se dizem preocupados com a vida das crianças desde a concepção e tomam para si o debate sobre a legalização do aborto – que sequer compete aos legislativos municipais.

Como são basicamente os mesmos que agora querem ressuscitar o Escola sem Partido, fica a sugestão: esqueçam esse projeto descabido e lancem o Escola sem Celular.


Marcela Donini é editora-chefe da Matinal.
Contato: [email protected]

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