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Preconceito não tem gênero

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Preconceito não tem gênero Foto: Daniel James/Unsplash

Vereadores de Porto Alegre aprovaram, nesta semana, uma lei que proíbe o uso da linguagem neutra nas escolas da Capital. De autoria de seis parlamentares, o texto do projeto de lei apresenta erros e imprecisões. A começar pela grafia do nome de um dos pesquisadores citados.

Falha pequena, é verdade, erro de digitação acontece com qualquer um. Mas neste caso é mais um exemplo do desleixo com que esse projeto foi elaborado.

Os vereadores resolveram escrever sobre o que não conhecem para tratar de um tema complexo. Tão complexo que aqui na redação do Matinal não temos uma orientação estabelecida sobre usar ou não termos com @, “x” ou “e” no lugar de “o” ou “a” ou outras estratégias para tornar a linguagem mais inclusiva, uma pauta do movimento LGBTQIA+ que consideramos legítima. Falei um pouco sobre isso a uma estudante de jornalismo da Unisinos nesta reportagem.

Ontem fiz o tema de casa que os parlamentares não fizeram: conversei com o linguista Luiz Carlos Schwindt, citado pelos vereadores no PL. O artigo assinado por Schwindt e mencionado no texto aprovado foi publicado em 2015. A falta de cuidado é tanta que foi reproduzido um trecho sobre uma pesquisa “em andamento” que já se encerrou (afinal, sete anos se passaram).

Em pouco mais de 30 minutos ao telefone, o professor da UFRGS apontou os equívocos do PL. O maior deles, na sua opinião, é “usar o discurso da liberdade para cercear a liberdade, o que infelizmente está na moda”. Schwindt também explicou a importância de conhecer as variações da língua: “É papel da escola mostrar os diversos usos que uma língua pode ter. Usar a linguagem neutra não quer dizer que não será ensinada a norma culta. Mas proibi-la é sonegar informação fundamental para o conhecimento do mundo e da linguagem humana”.

Para o docente, os vereadores vão se frustrar na sua tentativa de impedir a evolução da linguagem. “As línguas se movimentam o tempo todo, e podem mudar em diferentes direções, inclusive podem se adequar a demandas sociais como as que fazem os grupos que defendem uma linguagem mais inclusiva. As línguas modificam-se pelo uso”.

Pelo uso, e não por um canetaço, acrescento. 

Leia mais sobre a entrevista com o professor Luiz Carlos Schwindt aqui.

Ciência e ideologia

É engraçado ver um projeto de lei que evoca a defesa da ciência assinado pela vereadora Fernanda Barth (PSC), que passou a pandemia negando os benefícios das vacinas contra a covid. Aliás, foi comprovado pela Agência Lupa que a parlamentar usou informações falsas nas suas críticas.

O texto, assinado também por Jesse Sangalli (Cidadania), Comandante Nádia (PP), Psicóloga Tanise Sabino (PTB), Alexandre Bobadra (PL), Ramiro Rosário (PSDB) e Hamilton Sossmeier (PTB), chama de “delírio ideológico” a escolha por variações como “alunes” e “todes” a fim de incluir mais pessoas na linguagem. Como diz Juremir Machado, ideologia é o pensamento do outro

Eu diria que é “delírio ideológico” chamar o Golpe de 1964 de “revolução”. Pensei nesse exemplo não por acaso, mas porque querer regular como um professor ou diretor de escola se manifesta na sua relação com alunos e comunidade remete ao mais autoritário dos sistemas.

Branquitude

Cida Bento foi a entrevistada do Roda Viva nesta semana para falar do seu livro Pacto da Branquitude. Psicóloga e pesquisadora – uma das 50 personalidades mais influentes do mundo no campo da diversidade, segundo a The Economist –, ela defende que esse pacto sustenta desigualdades no Brasil. Para ela, é um acordo que “fortalece o grupo de iguais” e exclui os diferentes. Para os iguais, estar lá, em posições de destaque ou cargos de liderança, é uma questão de mérito. “Os que não estão é porque não estão devidamente preparados”. Essa fala em especial me lembrou o caso dos vereadores negros eleitos em 2020 para a Câmara de Porto Alegre e que foram ofendidos pelo ex-vereador Valter Nagelstein, condenado por crime racial por ter dito coisas como “muitos deles jovens, negros, sem nenhuma tradição política”.

Aliás, para Cida Bento, é justamente a juventude negra que vem se fortalecendo apesar dos retrocessos que o movimento identifica na luta por direitos. “São vozes que estão mais fortes, na pressão por mudança, mudança no parlamento”. É de olho nesse avanço que surge o projeto Estamos Prontas, iniciativa de fortalecimento de mulheres negras pré-candidatas a deputada estadual realizada pelo Instituto Marielle Franco e o movimento Mulheres Negras Decidem. Aqui é possível conferir pré-candidaturas em todas as regiões do País.


Marcela Donini é editora-chefe do Grupo Matinal Jornalismo.

Contato: [email protected]

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