Carta do Editor

Qual problema o jornalismo vai resolver?

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Qual problema o jornalismo vai resolver?

Quando eu cheguei em Porto Alegre para trabalhar na Zero Hora, carregava um iPad na mochila. O dispositivo era um trunfo para eu entrar no jornal: havia quem acreditasse (provavelmente eu fosse um deles) que a tecnologia finalmente se rendia ao formato do papel, e que o problema da queda de receitas do jornalismo estaria se resolvendo. Montamos uma editoria de revistas para tablets, onde desenvolvemos projetos interessantíssimos com uma equipe espetacular. Mas não vingou. Ninguém leu, ninguém comprou.

A frustração foi retumbante. Afinal, nos parecia que o grande problema do jornalismo era, naquele momento, a sua dificuldade de levar a informação para onde nossas leitores e leitores estavam. O ano era 2011. A rede de celular era precária – se comparada ao 5G –, os algoritmos não eram tão cavernosos e o Twitter era uma rede social de aforismos, e não desaforos. Google e Facebook haviam criado vários fluxos de informação, mas os filtros (especialmente o jornalismo) ainda eram eficientes. A gente só precisava emular um jornal de papel em uma plataforma digital. Ledo engano.

De lá para cá, a evolução da infraestrutura da internet e a democratização da produção de conteúdo foram tão vertiginosas que os fluxos de informação atropelaram esses filtros do jornalismo. E, no momento em que se perdeu o protagonismo no empacotamento e distribuição das mensagens para o público, a desinformação ganhou uma proporção desastrosa, e a própria reputação do jornalismo ficou ameaçada.

Se já era difícil resolver o problema econômico, imaginem então resolver o problema da perda de reputação.

Anos depois, já longe da redação – e bem cientes de que o tablet não era a solução –, eu e um grupo de amigos fomos investigar o que faz com que uma pessoa leia conteúdos jornalísticos. Descobrimos que havia um problema que antecede o do jornal: o problema do leitor, que, no oceano de desinformação, ficou totalmente órfão de uma boa filtragem de informações, com curadoria, contexto, análise e explicação. Foi quando decidimos criar o Matinal, em 2019.

Três anos depois, o Matinal conquistou uma audiência engajada, que é a coisa mais valiosa que uma iniciativa jornalística pode querer. 

Os problemas que a audiência demanda, contudo, vão mudar. Nos anos 2010, queriam migrar para o digital. Nos anos 2020, passaram demandar uma curadoria de notícias. Logo, as necessidades serão outras, e nós, jornalistas, precisamos estar atentos. Por isso, nossa equipe sempre se inscreve em seleções de bolsas, viagens e programas especializados para aprender a entregar um jornalismo cada vez melhor.

Desses nossos vários intentos, a conquista mais recente – e uma das que nos trouxe mais alegria até agora –, foi a seleção do Matinal para participar do GNI Startups Lab Brasil, um programa de aceleração do Google para startups de jornalismo. Lá, entre agosto e dezembro deste ano, receberemos consultoria, capacitação e investimentos para crescer e entender qual é o problema que o jornalismo pode resolver. 

Pelo compromisso que temos com a nossa audiência, iremos mergulhar de cabeça no programa para que o Matinal possa fortalecer cada vez mais o jornalismo da nossa comunidade. Afinal, sem leitoras e leitores engajados, não há projetos incríveis nem equipes espetaculares que salvem o jornalismo.


Filipe Speck é diretor do Matinal Jornalismo.

Contato: [email protected]

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