Diálogos Matinais

A participação popular que nasce da escuta ativa e vai para a prática

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A participação popular que nasce da escuta ativa e vai para a prática

Tornar a cidade um lugar mais justo e sustentável, em um primeiro olhar, pode parecer um desafio complexo, daqueles que demandam um grande esforço coletivo e investimentos financeiros. No entanto, a experiência da rede Minha Porto Alegre nos prova que há uma potência enorme no que cada um de nós pode fazer. 

Unindo pessoas que querem transformar a cidade às ferramentas certas, criamos mobilizações que garantiram melhorias e avanços em diversas áreas, como sinalização de trânsito em um cruzamento perigoso, proibição da distribuição de canudos plásticos por bares e restaurantes e inclusão do subtítulo “feminicídio” em todos os boletins de ocorrência desse crime no Rio Grande do Sul, diferenciando-os dos demais homicídios. Em todos esses casos dá para dizer que partimos dos mesmos princípios: praticar uma escuta ativa, fiscalizar o poder público e tornar as pessoas responsáveis pelas mudanças que elas querem ver acontecer.

Antes de aprofundar nestes tópicos, que podem ser replicáveis por qualquer pessoa, é importante contextualizar de que forma atuamos. A Minha Porto Alegre é uma organização apartidária, fundada em 2015, que acredita no poder da participação para transformar a cidade. Reunimos pessoas para pressionar tomadores de decisão, engajar a população e pautar debates na imprensa. E fazemos isso com advocacy (um lobby do bem), ferramentas de pressão online, atos em locais públicos e quaisquer outras táticas pacíficas que apoiem nossas causas. Acreditamos que nossas práticas podem ser replicáveis por qualquer grupo de pessoas.

Escuta ativa 

O livro Bela Baderna – Ferramentas para Revolução é uma referência para a Minha Porto Alegre. Lá está escrito que muitas injustiças não costumam ser vistas e “a primeira tarefa de um ativista muitas vezes é tornar visível o invisível” e, assim, despertar para a urgência de agir. Um dos primeiros passos que damos é observar as questões latentes em diferentes grupos sociais e nos aproximar de quem vive os principais problemas de Porto Alegre. O segundo é usar nossos privilégios e ferramentas para ampliar o alcance dessas diferentes vozes e promover mudanças.
Quando pensamos em quem são as pessoas mais afetadas pelos problemas das cidades, o retrato tem um recorte histórico: pretas, pobres e sem estudo, como mostram os dados do IBGE sobre o impacto da pandemia do coronavírus. No entanto, se olhamos para quem toma as decisões para resolver estes problemas, o retrato é totalmente o oposto: homem branco, 55 anos, com formação universitária e patrimônio médio de R$ 585 mil, como mostrou o Matinal sobre os vereadores de Porto Alegre. E é aqui que encontramos um ruído, pois o ponto-chave para criar soluções reais e duradouras é ouvir e chamar para a cocriação os maiores afetados por uma questão.

Fiscalização do poder legislativo

Queremos uma Câmara de Vereadores onde, cada vez mais, a população se veja representada e possa participar ativamente, pautando as decisões mais importantes. No entanto, como incentivar essa presença se as sessões ocorrem majoritariamente em horário comercial, enquanto a maioria da população trabalha? 

A “Panela de pressão” é uma estratégia que adotamos para hackear essa lógica. Se não podemos estar presentes nas cadeiras da Assembleia Legislativa, fazemos as demandas chegarem diretamente na caixa de e-mails dos tomadores de decisão. Na prática, definimos o objetivo da mobilização e quem são as pessoas que podem garantir sua vitória no legislativo e chamamos a população a pressioná-las a se posicionar. O processo acontece sem intermediários, coloca em contato direto cidadão e governante. É uma prática simples e que já se mostrou eficiente para marcar audiências públicas e aprovar novas leis.

E pensando em mais representatividade, para as eleições de 2020, criamos o Vota Cidade. No site, candidaturas e eleitorado se posicionam sobre 30 afirmações, o sistema cruza as respostas e mostra ao(à) eleitor(a) um ranking com os(as) candidatos(as) com os(as) quais possui maior afinidade em temas como saúde, saneamento, transporte, gestão da prefeitura durante a pandemia, entre outros. Além desse match por afinidade, também é possível segmentar os resultados por filtros de representatividade – idade, raça, gênero e orientação sexual. 

Para colocar esse projeto na rua, envolvemos os dois lados: eleitores e candidaturas. Contatamos todos os(as) candidatos(as) e todos os diretórios de partidos, convidando a se posicionarem diante de temáticas escolhidas em uma pesquisa feita com o eleitorado. Neste ano, mais de 850 pessoas concorrem a um assento na Câmara de Vereadores de Porto Alegre e o que buscamos com o projeto, para além de reforçar a importância do voto, é facilitar o encontro entre quem pensa parecido, aproximando o eleitor de quem melhor o representa. 

Essas duas táticas podem remeter à complexidade que falamos lá no início do texto. No entanto, a base está em cobrar posicionamentos de quem se propõe a nos representar e, em nosso nome, tomar as decisões que impactam nosso presente e o futuro.

Cocriar soluções

Nossas ideias para mudar Porto Alegre colocam as pessoas no centro do processo, pois são elas que vivem as consequências das escolhas feitas por tomadores de decisão. Além disso, buscamos criar táticas em que as pessoas se sintam motivadas a tomar a iniciativa. Afinal, se queremos uma cidade (e, por que não, um Estado, um mundo?) melhor, precisamos de mais pessoas que tomem a iniciativa e acreditem na potência do trabalho coletivo.

Em vez da participação social ser atrelada ao fato de que a cada quatro anos votamos em quem vai nos representar, precisamos fomentar uma cultura na qual as pessoas tenham seu potencial de liderança incentivado e não precisem ser convidadas ou convocadas para mostrar o seu protagonismo. Ouvir, fiscalizar e pautar questões que impactam Porto Alegre exige não só atenção às pautas em votação na Câmara de Vereadores, mas também contato constante com diferentes espectros políticos e da sociedade civil. E para isso, a melhor ferramenta todos nós já temos: o diálogo.


Camila F. Oliveira 
Jornalista e defensora dos direitos humanos. Formada pela ESPM-Sul, usa a profissão como uma forma de encontrar pessoas para ouvir (e contar) histórias e como um passaporte para diferentes contextos, realidades e vivências. Trabalha como roteirista na Eyxo e é voluntária na Minha Porto Alegre desde 2019. 

Elisa Bonotto 
Designer interessada em educação e sustentabilidade. Mestra em Design pela UFRGS com foco em Design Social, pensa o design como um meio de questionar o mundo e propor melhores formas de ser e fazer. Atua na Minha Porto Alegre desde 2018, onde trabalha principalmente com o projeto e a execução de mobilizações sociais.

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