Diálogos Matinais

Coragem e paciência para enfrentar os números

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Coragem e paciência para enfrentar os números

No fim de abril, logo depois de publicar uma reportagem sobre o avanço da Covid-19 nas periferias de Porto Alegre, senti que havia algo me incomodando. Tinha acabado de atualizar alguns dados da matéria, extraídos dos boletins epidemiológicos da prefeitura, quando me dei conta de que alguns casos confirmados de coronavírus haviam sumido de uma atualização para a outra. Explico: até o dia 11 de maio, os boletins continham uma tabela com a contagem detalhada de todas as pessoas que testaram positivo para Covid-19 na cidade. Por isso, me pareceu estranho – para dizer o mínimo – que alguns desses registros fossem simplesmente excluídos sem qualquer aviso ou explicação nos próprios documentos. Ainda não sabia na época, mas era o início de uma longa batalha numérica contra 50 tabelas anexadas em pdfs. O mais desafiador, porém, não foi entrevistar as planilhas: complicado mesmo foi conseguir explicações do órgão público responsável por produzi-las.

No dia 24 de abril, enviei a primeira mensagem sobre o assunto para a assessoria da Secretaria Municipal de Saúde. Perguntei sobre o caso de um paciente de 76 anos do Hospital Moinhos de Ventos, que constava no boletim do dia 21 de abril, mas tinha sido retirado no dia seguinte. A resposta foi protocolar: “Manda todas as perguntas de uma vez só para nosso e-mail”. Mandei o e-mail. Esperei uns dias e nada – mas tudo bem, não tinha tanta pressa. Reenviei o e-mail. Passaram-se quase duas semanas e resolvi ligar. Dessa vez, a resposta veio em um tom mais irritado (talvez pela minha insistência): “Quem disse que o caso ‘sumiu’? Nenhum caso sumiu. Não tem inconsistência alguma. Acho que tu tá enganado. Só são retirados os du-pli-ca-dos”. Foi só pedir para falar com alguém da área técnica responsável pela revisão do dados e tive o telefone desligado na minha cara. Deixei o assunto quieto por um tempo. No início de junho, cada vez mais preocupado com as estatísticas de Covid-19 no mundo (e as tragédias humanas que elas significam), percebi que a prefeitura tinha parado de publicar, nos boletins, a lista detalhada com todos os casos confirmados de coronavírus. Era hora de começar o trabalho braçal. 

Chamei a incansável Juliana Coin para me ajudar a extrair as 50 tabelas disponíveis nos boletins epidemiológicos e jogá-las em abas diferentes de uma única planilha. Assim, a gente conseguiu comparar as tabelas entre si para descobrir o que havia mudado de um dia para o outro. Anotamos todas as alterações feitas nos registros, com exceção da inclusão de novos casos. Ao final, compilamos todos os registros divergentes e contrastamos os resultados com a tabela do último dia, de 11 de maio. Dessa forma, descobrimos todos os casos que haviam sido excluídos, os que tiveram informações trocadas, os que foram retirados e depois voltaram, e os que efetivamente estavam duplicados.

No meio dessa trabalheira toda, insisti outras vezes com a Secretaria Municipal de Saúde, que me encaminhou de um assessor para outro por várias semanas e não respondia meus e-mails, enquanto as ligações eram redirecionadas para outros ramais. Quando me deram retorno foi para dizer praticamente o mesmo que falaram em abril: os casos são revisados constantemente e só são retirados os duplicados. Além disso, falaram que, como eu havia entrado com um pedido de Lei de Acesso à Informação para obter a versão atualizada da tabela, eles só me responderiam pelo sistema eletrônico que registra os pedidos. Até agora, minha solicitação não foi atendida e está com prazo de recurso final até novembro. Só na semana passada pude conversar com o secretário adjunto Natan Katz para que ele respondesse meus questionamentos – e não foi via assessoria que conseguimos o contato.

A reportagem publicada ontem foi uma das mais trabalhosas que fiz, e com razão: fiscalizar de perto o poder público cansa ainda mais do que mexer com grandes bases de dados, mas é uma tarefa indispensável no fazer jornalístico. Simplesmente reproduzir as estatísticas que os governos publicam, sem poder revisá-las ou questioná-las, significa virar refém de uma narrativa oficialesca. É verdade que nós, jornalistas, temos nosso calcanhar de Aquiles: os números nos assustam. E justamente por isso precisamos de uma dose extra de paciência e coragem. Nessa reportagem do Matinal, contamos com a edição cirúrgica da Marcela Donini e a revisão criteriosa da Sílvia Lisboa, da Naira Hofmeister e do Maurício Brum. Juntos, conseguimos enfrentá-los sem medo – os números e os poderosos.

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