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O enigma da imunidade na Covid-19

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O enigma da imunidade na Covid-19

Na última semana, a Nature elencou os cinco grandes mistérios da Covid-19. São os cinco pontos que, na opinião da revista, são centrais à elucidação da pandemia, e não obstante permanecem em grande parte incompreendidos pelos cientistas.

Um desses enigmas repousa na imunidade, que não por acaso é um dos temas que mais suscitam curiosidade (e também ansiedade) em todos nós. Recentemente, porém, um estudo sueco ofereceu uma nova hipótese ao intrigante universo da imunidade à Covid-19, o que pode ajudar a entender o que de fato está ocorrendo.

Em busca dos anticorpos

Em linhas gerais, nós costumamos pensar que, depois de sermos infectados, criamos imunidade. Isso é, de fato, o que geralmente acontece com doenças infecciosas que temos ao longo da vida. Nosso sistema imune possui uma espécie de divisão de inteligência artificial que possui a fascinante capacidade de aprender a identificar novos invasores, o que lhe possibilita gerar memória imunológica.

Essa divisão tem o nome de sistema imune adaptativo. Com ele, o corpo literalmente aprende a se defender de invasores mais complicados (se adapta) e gera um arsenal de armas e soldados que fica em estado latente, pronto para entrar em ação caso voltemos a nos infectar. Quando isso acontece, dizemos que estamos imunizados contra esse agressor, e não precisamos mais nos preocupar muito com ele.

Embora as coisas possam ser um pouco mais complicadas, esse é o comportamento que seria esperado, em linhas gerais, das pessoas que foram infectadas e superaram o novo coronavírus. Foi esse entendimento que levou alguns países, como Reino Unido e Suécia, a apostar na “imunidade de rebanho”, e é também esse entendimento que permeia importantes pesquisas que mapeiam o avanço da imunidade em nível populacional.

As pesquisas de imunidade populacional procuram identificar quantas pessoas já foram infectadas pelo vírus. Para descobrir isso, partem da premissa de que ter anticorpos para o vírus é sinônimo de infecção prévia — e, portanto, de imunidade adquirida. É para isso que servem (ou deveriam servir) os exames sorológicos da Covid-19, que muitos têm interesse em fazer em laboratório privados: encontrar anticorpos contra o SARS-CoV-2.

No entanto, as pesquisas de imunidade populacional disponíveis até o momento não são muito reconfortantes. Mesmo na Suécia, país que optou por uma estratégia bastante flexível de enfrentamento ao vírus e acabou causando grande exposição de sua população, as pesquisas apontam não muito mais que 10% da população com anticorpos.

Uma imunidade além dos anticorpos

O que está, então, acontecendo? Seria de se esperar que, pelo grau de circulação do vírus, mais pessoas já tivessem desenvolvido imunidade contra ele. Por que, afinal, os anticorpos não estão sendo encontrados na proporção esperada?

Esse é um enigma extremamente curioso, que têm suscitado muito debate e pesquisa. No entanto, assim como muitas outras grandes questões da ciência e da filosofia (e da vida), talvez o problema esteja na formulação da pergunta. Talvez a dificuldade para se medir a imunidade na Covid-19 esteja na atual premissa de que, para se ser imune, são necessários anticorpos.

Um novo caminho foi proposto por um estudo sueco disponibilizado recentemente em versão pre-print. Para tentar compreender a imunidade da Covid-19 de modo mais completo, os pesquisadores, sediados no instituto Karolinska, olharam não apenas para anticorpos, mas também para as células desenvolvidas durante a resposta imune adaptativa de indivíduos infectados, e concluíram que é possível que haja imunidade adquirida independentemente dos anticorpos circulantes.

Linfócitos citotóxicos

Para entender o que isso significa, é bom ter em mente os diferentes atores envolvidos num processo de imunização. Os anticorpos são os protagonistas famosos da imunidade: eles representam o produto final de uma longa cadeia de eventos, que começou com a apresentação de partes do invasor ao sistema imune e passou pela a maturação e ação de células de defesa moldadas especificamente para combater este intruso.

As células de defesa do sistema imune adaptativo são os linfócitos, e são eles (especialmente os linfócitos TCD4+ e os linfócitos B) que trabalham na produção de anticorpos. Porém, há muitos outros tipos de linfócitos, que estão igualmente ligados à tarefa de desenvolver uma resposta adaptativa, com geração de memória imunológica. Uma classe importante corresponde aos linfócitos TCD8+. São linfócitos que conseguem atacar diretamente células infectadas, e é por isso que também são chamados de linfócitos citotóxicos.

O que os pesquisadores suecos sugerem em sua pesquisa é que, justamente, há significativa expressão de linfócitos citotóxicos específicos contra o SARS-CoV-2 em indivíduos que superaram a Covid-19. Mais que isso, os dados indicam que, nos pacientes estudados, esses linfócitos são duas vezes mais frequentes que os anticorpos.

Isso levanta, portanto, a hipótese de que há mais pessoas imunizadas do que o indicado pelos testes de anticorpos. A diferença é que seria uma imunidade celular (pois baseada em linfócitos), e não humoral (que é o termo usado para se referir aos elementos encontrados no sangue, como os anticorpos).

Os pesquisadores suecos têm experiência nesta área de estudo. Eles se dedicam à pesquisa da resposta de linfócitos citotóxicos em infecções virais com especial foco em pacientes de HIV (um exemplo é um estudo sobre o citomegalovírus em pacientes imunocomprometidos). Mas os linfócitos citotóxicos desempenham papel fundamental também nas defesas do corpo contra neoplasias, o que comprova sua importância na nossa saúde.

Uma imunidade aquém dos anticorpos?

O estudo sueco não é o único a procurar por sinais de imunidade para além dos anticorpos. Por exemplo, outro estudo recente da Cell encontrou fortes correspondências entre o desenvolvimento de uma boa resposta humoral (ou seja, com anticorpos) e uma resposta celular (com linfócitos), sem necessariamente haver discrepância entre suas expressões. Já um terceiro estudo identificou outra classe menos conhecida de linfócitos envolvida na resposta à Covid-19.

Os estudos sobre imunidade celular se somam a outras hipóteses já levantadas para tentar explicar o enigma da imunidade na Covid-19. Uma delas é a teoria da imunidade cruzada: é possível que infecções ocorridas anteriormente por outros coronavírus forneçam algum tipo de imunidade ao novo coronavírus, embora não se saiba se isso confira uma imunidade de fato ou meramente auxilie na nova infecção.

Outra importante questão reside na variável de gravidade da doença: é possível que quadros menos graves de Covid-19 gerem uma resposta imune menos expressiva, ao passo que quadros graves deixariam fortes indícios de imunidade. Isso poderia explicar eventuais resultados negativos no exames de indivíduos assintomáticos ou mesmo os baixos resultados das pesquisas de imunidade populacional.

O que todos esses estudos, teorias e hipóteses mostram, portanto, é a complexidade da resposta imunológica, bem como sua correspondentemente complexa mensuração.

*Felipe é jornalista e estudante de Medicina na UFRGS

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