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O enigma da imunidade na Covid-19

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O enigma da imunidade na Covid-19 Por Felipe Schroeder Franke* Na última semana, a Nature elencou os cinco grandes mistérios da Covid-19. São os cinco pontos que, na opinião da revista, são centrais à elucidação da pandemia, e não obstante permanecem em grande parte incompreendidos pelos cientistas. Um desses enigmas repousa na imunidade, que não por acaso é um dos temas que mais suscitam curiosidade (e também ansiedade) em todos nós. Recentemente, porém, um estudo sueco ofereceu uma nova hipótese ao intrigante universo da imunidade à Covid-19, o que pode ajudar a entender o que de fato está ocorrendo. Em busca dos anticorpos Em linhas gerais, nós costumamos pensar que, depois de sermos infectados, criamos imunidade. Isso é, de fato, o que geralmente acontece com doenças infecciosas que temos ao longo da vida. Nosso sistema imune possui uma espécie de divisão de inteligência artificial que possui a fascinante capacidade de aprender a identificar novos invasores, o que lhe possibilita gerar memória imunológica. Essa divisão tem o nome de sistema imune adaptativo. Com ele, o corpo literalmente aprende a se defender de invasores mais complicados (se adapta) e gera um arsenal de armas e soldados que fica em estado latente, pronto para entrar em ação caso voltemos a nos infectar. Quando isso acontece, dizemos que estamos imunizados contra esse agressor, e não precisamos mais nos preocupar muito com ele. Embora as coisas possam ser um pouco mais complicadas, esse é o comportamento que seria esperado, em linhas gerais, das pessoas que foram infectadas e superaram o novo coronavírus. Foi esse entendimento que levou alguns países, como Reino Unido e Suécia, a apostar na “imunidade de rebanho”, e é também esse entendimento que permeia importantes pesquisas que mapeiam o avanço da imunidade em nível populacional. As pesquisas de imunidade populacional procuram identificar quantas pessoas já foram infectadas pelo vírus. Para descobrir isso, partem da premissa de que ter anticorpos para o vírus é sinônimo de infecção prévia — e, portanto, de imunidade adquirida. É para isso que servem (ou deveriam servir) os exames sorológicos da Covid-19, que muitos têm interesse em fazer em laboratório privados: encontrar anticorpos contra o SARS-CoV-2. No entanto, as pesquisas de imunidade populacional disponíveis até o momento não são muito reconfortantes. Mesmo na Suécia, país que optou por uma estratégia bastante flexível de enfrentamento ao vírus e acabou causando grande exposição de sua população, as pesquisas apontam não muito mais que 10% da população com anticorpos. Uma imunidade além dos anticorpos O que está, então, acontecendo? Seria de se esperar que, pelo grau de circulação do vírus, mais pessoas já tivessem desenvolvido imunidade contra ele. Por que, afinal, os anticorpos não estão sendo encontrados na proporção esperada? Esse é um enigma extremamente curioso, que têm suscitado muito debate e pesquisa. No entanto, assim como muitas outras grandes questões da ciência e da filosofia (e da vida), talvez o problema esteja na formulação da pergunta. Talvez a dificuldade para se medir a imunidade na Covid-19 esteja na atual premissa de que, para se ser imune, […]

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Por Felipe Schroeder Franke* Na última semana, a Nature elencou os cinco grandes mistérios da Covid-19. São os cinco pontos que, na opinião da revista, são centrais à elucidação da pandemia, e não obstante permanecem em grande parte incompreendidos pelos cientistas. Um desses enigmas repousa na imunidade, que não por acaso é um dos temas que mais suscitam curiosidade (e também ansiedade) em todos nós. Recentemente, porém, um estudo sueco ofereceu uma nova hipótese ao intrigante universo da imunidade à Covid-19, o que pode ajudar a entender o que de fato está ocorrendo. Em busca dos anticorpos Em linhas gerais, nós costumamos pensar que, depois de sermos infectados, criamos imunidade. Isso é, de fato, o que geralmente acontece com doenças infecciosas que temos ao longo da vida. Nosso sistema imune possui uma espécie de divisão de inteligência artificial que possui a fascinante capacidade de aprender a identificar novos invasores, o que lhe possibilita gerar memória imunológica. Essa divisão tem o nome de sistema imune adaptativo. Com ele, o corpo literalmente aprende a se defender de invasores mais complicados (se adapta) e gera um arsenal de armas e soldados que fica em estado latente, pronto para entrar em ação caso voltemos a nos infectar. Quando isso acontece, dizemos que estamos imunizados contra esse agressor, e não precisamos mais nos preocupar muito com ele. Embora as coisas possam ser um pouco mais complicadas, esse é o comportamento que seria esperado, em linhas gerais, das pessoas que foram infectadas e superaram o novo coronavírus. Foi esse entendimento que levou alguns países, como Reino Unido e Suécia, a apostar na “imunidade de rebanho”, e é também esse entendimento que permeia importantes pesquisas que mapeiam o avanço da imunidade em nível populacional. As pesquisas de imunidade populacional procuram identificar quantas pessoas já foram infectadas pelo vírus. Para descobrir isso, partem da premissa de que ter anticorpos para o vírus é sinônimo de infecção prévia — e, portanto, de imunidade adquirida. É para isso que servem (ou deveriam servir) os exames sorológicos da Covid-19, que muitos têm interesse em fazer em laboratório privados: encontrar anticorpos contra o SARS-CoV-2. No entanto, as pesquisas de imunidade populacional disponíveis até o momento não são muito reconfortantes. Mesmo na Suécia, país que optou por uma estratégia bastante flexível de enfrentamento ao vírus e acabou causando grande exposição de sua população, as pesquisas apontam não muito mais que 10% da população com anticorpos. Uma imunidade além dos anticorpos O que está, então, acontecendo? Seria de se esperar que, pelo grau de circulação do vírus, mais pessoas já tivessem desenvolvido imunidade contra ele. Por que, afinal, os anticorpos não estão sendo encontrados na proporção esperada? Esse é um enigma extremamente curioso, que têm suscitado muito debate e pesquisa. No entanto, assim como muitas outras grandes questões da ciência e da filosofia (e da vida), talvez o problema esteja na formulação da pergunta. Talvez a dificuldade para se medir a imunidade na Covid-19 esteja na atual premissa de que, para se ser imune, […]

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