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Os desafios do desenvolvimento da vacina contra o SARS-CoV-2

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Os desafios do desenvolvimento da vacina contra o SARS-CoV-2 Por Felipe Schroeder Franke* Nas últimas semanas, os jornais começaram a ser inundados por notícias do desenvolvimento de vacinas para a Covid-19. São boas novas, pois, em se tratando de infecções virais, vacinas costumam ser muito mais eficientes do que remédios. Aliás, esse recente semente de otimismo fica ainda mais justificado considerando que estudos sobre tratamentos não chegaram, até agora, a respostas muito convincentes.  Embora haja cientistas aptos a fazer previsões de quando uma vacina contra o SARS-CoV-2 estará disponível, qualquer estimativa feita pelo público não especializado tende a ser exercício de futurologia. Porém, é possível analisar quais são os desafios envolvidos no desenvolvimento de uma vacina, e isso ajuda a compreender a dificuldade em fazer uma previsão mais concreta. Escolhendo a melhor resposta possível Em primeiro lugar, precisamos ter em mente que uma vacina imita uma reação imunológica adaptativa bem sucedida. Isto é: uma vacina que funciona é aquela que estimula o corpo a desenvolver uma resposta imune que o torne protegido, a longo prazo, contra determinado invasor. Pensemos no que ocorre em uma infecção. Para reagir a um organismo intruso, o corpo esquarteja o invasor e apresenta diferentes pedaços dele (epítopos) ao sistema imunológico. Esse epítopos funcionam como diferentes “carteiras de identidade” do invasor, e as células de defesa e os anticorpos daí decorrentes serão feitos sob medida contra esses epítopos.  Porém, geralmente há uma linhagem específica de células de defesa e de anticorpos que desenvolve a melhor imunização possível, pois foi direcionada contra um alvo do invasor que é o mais eficiente. No caso do SARS-CoV-2, provavelmente é a proteína S, que, além de ser abundante na sua superfície, é também necessária para infectar as células humanas. É essa linhagem – que dá origem a clones – que garante a imunidade. Reside justamente nessa pluralidade de reações do corpo ao invasor a primeira dificuldade da produção de uma vacina. Para desenvolver uma imunização que seja útil, os pesquisadores precisam entender em detalhes a estrutura viral e as formas como o corpo reage. Isso envolve entender os tipos de células e anticorpos que vêm sendo gerados por indivíduos, e com eles compreender qual é a resposta mais eficiente. É (também) por não sabermos ainda qual é a melhor maneira de construir uma resposta efetiva ao vírus que há tantas vacinas sendo estudadas e, algumas, já testadas. Para tentar dar conta de todo esse panorama, Jonathan Corum e Carl Zimmer criaram um excelente monitor do desenvolvimento de vacinas contra o SARS-CoV-2 no New York Times. Até a terceira semana de junho, havia pelo menos 135 vacinas em experiência nos laboratórios. Escolhendo a melhor maneira de estimular a resposta mais eficaz possível Uma vacina que funciona imita uma infecção bem sucedida, mas isso é mais fácil dito do que feito. Quando nos infectamos com um vírus, nosso corpo entra em contato direto e irrestrito com o invasor, que está vivo e ativo, e é a partir desse contato integral e natural com o vírus que o sistema de defesa é […]

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Por Felipe Schroeder Franke* Nas últimas semanas, os jornais começaram a ser inundados por notícias do desenvolvimento de vacinas para a Covid-19. São boas novas, pois, em se tratando de infecções virais, vacinas costumam ser muito mais eficientes do que remédios. Aliás, esse recente semente de otimismo fica ainda mais justificado considerando que estudos sobre tratamentos não chegaram, até agora, a respostas muito convincentes.  Embora haja cientistas aptos a fazer previsões de quando uma vacina contra o SARS-CoV-2 estará disponível, qualquer estimativa feita pelo público não especializado tende a ser exercício de futurologia. Porém, é possível analisar quais são os desafios envolvidos no desenvolvimento de uma vacina, e isso ajuda a compreender a dificuldade em fazer uma previsão mais concreta. Escolhendo a melhor resposta possível Em primeiro lugar, precisamos ter em mente que uma vacina imita uma reação imunológica adaptativa bem sucedida. Isto é: uma vacina que funciona é aquela que estimula o corpo a desenvolver uma resposta imune que o torne protegido, a longo prazo, contra determinado invasor. Pensemos no que ocorre em uma infecção. Para reagir a um organismo intruso, o corpo esquarteja o invasor e apresenta diferentes pedaços dele (epítopos) ao sistema imunológico. Esse epítopos funcionam como diferentes “carteiras de identidade” do invasor, e as células de defesa e os anticorpos daí decorrentes serão feitos sob medida contra esses epítopos.  Porém, geralmente há uma linhagem específica de células de defesa e de anticorpos que desenvolve a melhor imunização possível, pois foi direcionada contra um alvo do invasor que é o mais eficiente. No caso do SARS-CoV-2, provavelmente é a proteína S, que, além de ser abundante na sua superfície, é também necessária para infectar as células humanas. É essa linhagem – que dá origem a clones – que garante a imunidade. Reside justamente nessa pluralidade de reações do corpo ao invasor a primeira dificuldade da produção de uma vacina. Para desenvolver uma imunização que seja útil, os pesquisadores precisam entender em detalhes a estrutura viral e as formas como o corpo reage. Isso envolve entender os tipos de células e anticorpos que vêm sendo gerados por indivíduos, e com eles compreender qual é a resposta mais eficiente. É (também) por não sabermos ainda qual é a melhor maneira de construir uma resposta efetiva ao vírus que há tantas vacinas sendo estudadas e, algumas, já testadas. Para tentar dar conta de todo esse panorama, Jonathan Corum e Carl Zimmer criaram um excelente monitor do desenvolvimento de vacinas contra o SARS-CoV-2 no New York Times. Até a terceira semana de junho, havia pelo menos 135 vacinas em experiência nos laboratórios. Escolhendo a melhor maneira de estimular a resposta mais eficaz possível Uma vacina que funciona imita uma infecção bem sucedida, mas isso é mais fácil dito do que feito. Quando nos infectamos com um vírus, nosso corpo entra em contato direto e irrestrito com o invasor, que está vivo e ativo, e é a partir desse contato integral e natural com o vírus que o sistema de defesa é […]

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