Reportagem

Árvores ameaçadas pelas enchentes já sofriam com má gestão do município

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Árvores ameaçadas pelas enchentes já sofriam com má gestão do município O Salgueiro Chorão que havia sido transplantado tombou por falta de manejo | Foto: João Antonio Streb.

O biólogo Francisco Siliprandi alerta que a falta de manejo adequado somado às enchentes podem causar um “arboricídio” em Porto Alegre

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Assim que a água começou a baixar em alguns pontos da região central da cidade, um novo problema chamou a atenção: junto do acúmulo de lixo e dos animais mortos, encontravam-se árvores ao chão e outras tantas prestes a cair.

Na Praça da Alfândega, ainda inundada, uma árvore de grande porte foi arrancada com suas raízes, destruindo o piso de pedras portuguesas, como mostrou reportagem do Jornal do Comércio. No mesmo local, outros vegetais, inclinados em direção ao chão, também apresentavam sinais da força das águas – o mês de maio já é o mais chuvoso da história da cidade, com acumulado de chuva que superou 500 mm, 44% da média anual.

Quem passou pela Redenção, próximo ao Monumento do Expedicionário, também pode ter notado outra árvore de grande porte que, em meio a uma área de vegetação rasteira, agoniza. Especialista em arborização urbana e membro da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) e do Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (InGá), o biólogo Francisco Siliprandi conta que o exemplar da foto é um Salgueiro Chorão, espécie nativa do Rio Grande do Sul. Assim como as árvores na Praça da Alfândega, o Salgueiro pode sumir do cenário urbano.

Muitas espécies, mesmo que sejam nativas e mais resilientes em termos de estresse hídrico, ao ficarem imersas na água por tanto tempo, como ocorre agora, ficam sujeitas à falta de oxigênio. Mas não é só isso que compromete as árvores da capital. O Salgueiro Chorão, ainda que munido de características naturais que o faz mais resistente a áreas alagadas, não pereceu do dia para a noite. Sofre, na verdade, pela falta de manutenção correta, revela o biólogo.

A falta de manutenção também vale para as árvores

Diante do desmantelamento dos setores que deveriam preservá-la, Siliprandi demonstra preocupação com o futuro da vegetação que compõem a cidade. As duas árvores mencionadas no início da reportagem não tombaram apenas pelo agravamento das mudanças climáticas, que são causadas pela ação humana na natureza. É preciso desinteresse e descaso contínuos para que, seja pela água, vento ou má condições de um solo totalmente antropizado no ambiente urbano, uma espécie não tenha condições de continuar viva, explica o biólogo. “Na prática, vai ter um arboricídio, porque não tem uma priorização. Não há o devido respeito. Árvores que existem agora, que são anciãs, que são patrimônio histórico da cidade, vão ficar à sua própria sorte”, diz. 

Pensando na situação atual, o biólogo arborista faz uma analogia com a falta de manutenção do sistema anti-enchente em Porto Alegre. “Se tivesse uma manutenção o nosso sistema ambiental teria uma capacidade de resiliência muito maior, estaria muito mais preparado. Árvores saudáveis, no ambiente certo, resistem muito mais. Passaria batido esse tipo de situação. Árvores doentes, com os erros mais diversos, são as primeiras [a cair]. Aos poucos vamos perdendo o patrimônio arbóreo, estruturas do urbanismo que são essenciais à vida humana”.  

Em nota, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus) e a Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (SMSurb) explicam que estão mapeando áreas com maior probabilidade de alagamento, a partir de informações colhidas pós enchente ou pelo Plano de Ação Climática (Plac) – que até agosto deste ano visa elencar e efetivar medidas que contribuam para a diminuição dos impactos de eventos climáticos extremos.    

Do pioneirismo à negligência

Porto Alegre é uma das cidades pioneiras na luta pela arborização, movimento que resiste pelos ideais de pessoas como José Lutzenberger, um dos fundadores da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), considerado um dos maiores ambientalistas brasileiros. Homenagens à sua trajetória, o jardim que leva seu sobrenome na Casa de Cultura Mário Quintana e o mural de 50 metros em um edifício na esquina das avenidas Borges de Medeiros e Aureliano de Figueiredo Pinto, ficaram inacessíveis pela inundação de 2024.

Mas o pioneirismo da capital, aos poucos, deu lugar para a negligência com o manejo arbóreo, segundo ambientalistas que vêm criticando o trabalho do município nos últimos anos. Inicialmente, a responsabilidade pelo serviço na cidade estava nas mãos da Secretaria do Meio Ambiente (Smam). Contudo, na gestão de Nelson Marchezan Junior, a pasta foi extinta e deu lugar à Secretaria Municipal do Meio Ambiente e da Sustentabilidade (Smams). Mais tarde, a Smams se tornaria a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus). Aos poucos, o acompanhamento da saúde das árvores começou a ser feito por empresas terceirizadas, contratadas pela Secretaria de Serviços Urbanos (SMSUrb). 

Em janeiro de 2023, a Agapan havia denunciado o corte incorreto de árvores sadias, apesar da prefeitura alegar que seguia laudos técnicos. “A todo momento recebemos alguma foto de moradores informando o corte de uma árvore na cidade. Não é preciso ser um técnico super experiente para perceber que uma árvore está sadia, e o mínimo que queremos é um retorno da Prefeitura sobre o porquê essas árvores estão sendo cortadas”, disse o presidente da associação à Matinal à época.

Para Siliprandi, a especificidade do manejo exigida para salvar espécies diante da enchente não vale como justificativa para a inércia do município. Segundo ele, o caminho deveria começar pela constante qualificação de equipes das secretarias envolvidas no manejo das árvores, aquisição de equipamentos de qualidade, contratação de responsáveis técnicos especializados, planejamento de longo prazo, fiscalização e até mesmo educação ambiental.

Casos recentes sobre como Porto Alegre lida com sua vegetação já viraram anedóticos. Em 2013, o então prefeito José Fortunati – de quem Melo era vice – afirmou que “as pessoas não utilizam estas árvores no Gasômetro”, ao falar sobre a derrubada de exemplares na avenida Edvaldo Pereira Paiva. Mais de 10 anos depois, outra declaração de um prefeito virou piada nas redes sociais.

Em janeiro deste ano, o prefeito Sebastião Melo pediu no X (antigo Twitter) doações de motosserras aos moradores para lidar com as árvores derrubadas após o temporal daquele mês. No episódio, foram registradas mais de 3 mil ocorrências de quedas de árvores.

Na mesma época, em entrevista à rádio Gaúcha, ainda antes do temporal, o superintendente técnico da Equatorial, Sergio Valinho, já tinha afirmado que a arborização é um dos “maiores problemas” da companhia. “Vamos acelerar a poda da arborização, da supressão da arborização, um dos nossos maiores problemas hoje, que causam a interrupção do fornecimento de energia elétrica”. 

A relação do município com a empresa privatizada por Eduardo Leite (PSDB) azedou e, em março deste ano, a prefeitura entrou com uma ação coletiva contra a CEEE Equatorial e empresas de telefonia para responsabilizá-las judicialmente pela má gestão dos fios – um mês depois, o plano apresentado para a melhora dos serviços seria considerado insuficiente. 

Menos árvores, mais calor e menos drenagem

É cada vez mais evidente a urgência de pensar uma cidade capaz de lidar com um clima que já mudou: 2023 foi o ano mais quente do planeta desde 1850, e 2024 mostra tendências de que seguirá no mesmo ritmo. No ano passado, a Matinal mostrou como mudanças na cobertura do solo na capital e o avanço da urbanização foram cruciais para a criação de ilhas de calor, fazendo com que a temperatura média na superfície de alguns locais pudesse variar até 20ºC no verão.

O aumento da temperatura dos mares – já identificado no RS – favorece a ocorrência de eventos extremos, como as enchentes de grandes proporções que testemunhamos no estado neste ano e no ano passado. Frente a todos esses problemas, Siliprandi é enfático: “Tem que ter árvore na cidade, pra conter cheia, pra drenar, pra entrar água no solo”.

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