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Construtora derruba guapuruvu para erguer condomínio no bairro Petrópolis

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Construtora derruba guapuruvu para erguer condomínio no bairro Petrópolis Guapuruvu, instantes antes da derrubada, em imagem captada por vizinho do futuro condomínio.

A construtora paranaense Plaenge vende apartamentos de 145 a 312 m² em seu segundo empreendimento do bairro Petrópolis. O condomínio “Verdant” – verdejante, em inglês – ainda não teve suas bases assentadas, mas a preparação da obra já motiva repúdio por parte da vizinhança. Isso porque um guapuruvu, árvore nativa do Rio Grande do Sul, foi derrubado na área do futuro edifício. De acordo com moradores, a remoção do vegetal não seria necessária para a construção do prédio.

Vídeo da queda, gravado por vizinho

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Trata-se de um terreno em forma de L, com frentes para as ruas Felipe de Oliveira e Eça de Queiroz. A árvore ficava em uma das extremidades do lote, e foi derrubada na última quinta-feira, dia 6 de junho, com autorização da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus). “Espécies nativas, como o guapuruvu, geram uma compensação vegetal a ser plantada com árvores igualmente nativas e em locais mais apropriados da cidade”, disse a pasta, em nota enviada à Matinal. Essa contrapartida, explica a prefeitura, é de 14 mudas, a serem gerenciadas pelo Fundo Pró-Defesa do Meio Ambiente de Porto Alegre (Funproamb).

“Aquela árvore era uma relíqua. Marcava uma época do bairro. Não havia razão para tirá-la”, avalia o gestor ambiental e geógrafo Marcelo Roncado, que é morador de um prédio nas proximidades. 

Uma parte da vizinhança se mobilizou desde o dia do corte, e chegou a colar cartazes nos tapumes da obra. “Aqui tinha um guapuruvu”, diziam os postêres, que acabaram arrancados, segundo moradores, por trabalhadores vinculados à a construtora. Dois homens removiam as peças quando foram flagrados por um vizinho, que resolveu fotografar a cena – quando percebeu a câmera apontada para si, um dos homens chegou a virar de costas e, em gesto definido como de “deboche”, baixou a calça para o fotógrafo, residente do Petrópolis. Ele então divulgou a imagem em um grupo virtual da vizinhança.

Ao notar a câmera, um dos homens virou de costas e abaixou as calças para o fotógrafo

Construtora está a meses de inaugurar primeiro edifício em Porto Alegre

O Verdant é um lançamento da construtora em Porto Alegre, com previsão de entrega para abril de 2027. Terá 15 andares, com apartamentos de 3 a 4 suítes, e é anunciado como um empreendimento de alto padrão a partir do mote “próximo da sua natureza”. A 2,2 quilômetros fica o único outro condomínio da construtora na capital, também no bairro Petrópolis, na Rua Regente, próximo da Av. Carlos Gomes. Trata-se de uma obra já em andamento, destinada à mesma faixa de renda, com conclusão prevista para novembro do próximo ano.

A empresa teve sua primeira grande obra concluída em Londrina, no norte do Paraná, nos anos 1970, e hoje tem imóveis à venda em nove cidades brasileiras do sul, sudeste e centro-oeste, além de projetos no Chile. Em seu site, o Grupo Plaenge informa que desenvolve “projetos sustentáveis para minimizar os impactos ambientais durante a construção”. “Para cada edifício construído, plantamos dezenas de árvores em seu entorno”, diz a página. 

A construtora afirma também que trabalha com economia de água e de energia em seus canteiros. Contatada pela Matinal, não respondeu até o fechamento deste texto.

Uma publicação da Plaenge no Instagram teve 52 comentários, todos de pessoas contrárias à remoção do vegetal. Um usuário disse que “derrubaram uma das maiores e mais bonitas árvores de Porto Alegre”, enquanto outra definiu o guapuruvu como “milenar, saudável e florido na primavera”.

A construtora respondeu, na mesma publicação, que optou por remover a árvore “como medida preventiva”. A ação teria o objetivo de “mitigar danos ao muro de divisa e às edificações lindeiras, às quais já apresentavam certos danos”, e afirmou que a espécie apresenta “fragilidade intrínseca” para ambientes urbanos, pela madeira macia e raízes superficiais. 

“É importante ressaltar que a decisão de retirada da árvore guapuruvu foi tomada em estrito cumprimento das leis ambientais vigentes. Além disso, como parte do compromisso da empresa com a preservação e a compensação ambiental, está prevista a introdução de novas vegetações no local. No total, serão plantadas cerca de 99 árvores, dentre elas 13 ipês amarelos e 4 de patas de vaca, todas nativas da região”, comentou a empresa, também na publicação.

“Derrubaram uma das maiores e mais bonitas árvores de Porto Alegre”, disse vizinho em rede social

“No novo modelo de viver que estão impondo, árvore é um problema”

A vizinhança chamava aquele exemplar de “guapuruvu mãe”, pois dele nasceram várias outras árvores da mesma espécie, que foram plantadas ou nasceram espontaneamente no bairro Petrópolis. Do seu lado há uma araucária, que aparece nas simulações de paisagismo da área comum do futuro condomínio Verdant. 

“No caso do guapuruvu, pensávamos que seria poupado, pois estava num canto do terreno, poderia ser legal ter essa árvore no condomínio. Faz uns seis meses que se instalaram, pintaram os tapumes de verde, mas removeram uma árvore que recebia papagaios que vivem no bairro. Estamos chocados”, relata Marcelo Roncado. Por conta das proteções visuais, não deu para ver muita coisa. Só quem mora nos andares mais altos da Felipe de Oliveira viu e filmou.”

Foram sete terrenos comprados pela construtora para o empreendimento Verdant. Para o morador, o bairro vem perdendo uma de suas grandes qualidades – a arborização. Ele afirma que a maioria das espécies plantadas na região têm alta média de idade, sem replantio ou reposição no local ou nas proximidades. “Só vão caindo”, lamenta. 

Esse processo, para ele, está ligado à especulação imobiliária. A Matinal publicou, em julho de 2023, que a redução do número de imóveis protegidos pelo patrimônio histórico preocupa os moradores do Petrópolis. 

“O bairro se encaminha para um paisagismo internacional, plantam palmeiras exóticas, algo que não dê folhas, e assim vão levando”, relata o morador. E ele diz que há um novo modelo de vida imposto pelos empreendimentos recentes, e prevê uma radicalização desse processo, a partir da enchente que atingiu dezenas de bairros porto-alegrenses – mas poupou o Petrópolis, situado em uma região mais alta.

“O grande sucesso do bairro na década de 1940 foi esse”, pontua o morador, sobre uma região que passou a ser urbanizada há cerca de cem anos, com a instalação de chácaras ao redor do Caminho do Meio – atualmente a Avenida Protásio Alves –, uma das vias de ligação da capital à cidade de Viamão. “Os ricos que viviam na zona sul, na região de Ipanema, vieram para cá a partir de 1941. Essas empreiteiras agora vão jogar mais forte. Temos também todo o desmanche ambiental. A prioridade, em Porto Alegre, é o licenciamento de obras”, finaliza.

Um grupo de vizinhos deve realizar, no dia 30 de junho, uma atividade na Praca Mafalda Verissimo, na mesma rua Felipe de Oliveira. Será o “Guapuruvu Day”, uma feira de artesanato local.


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