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Alvarez & Marsal encerra consultoria gratuita para a prefeitura

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Alvarez & Marsal encerra consultoria gratuita para a prefeitura Consultoria participou de elaboração de plano apresentado por Melo nesta semana | Foto: Cesar Lopes / PMPA

Anunciada no mês passado como parceira da prefeitura de Porto Alegre, a consultoria norte-americana Alvarez & Marsal (A&M) informou ter concluído seus serviços ao município. No entanto, a empresa disse que dará suporte “na transição do conhecimento e projeto ao longo dos próximos dias”. A empresa nega ter recebido recursos públicos do município por sua atuação nas últimas semanas. 

Por meio de uma nota, a A&M afirmou à Matinal que o período de 30 dias inicialmente acertado, pro-bono (sem remuneração), terminou em 14 de junho. No Diário Oficial de Porto Alegre, o contrato de prestação de serviços havia sido divulgado em 17 de maio, uma sexta-feira, e publicado na segunda seguinte, dia 20. 

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Como consta no Diário Oficial, cinco áreas da empresa haviam sido mobilizadas para atuar: consultoria em engenharia, consultoria tributária, finanças corporativas, reestruturação e assessoria financeira para situações especiais e melhoria de performance.  A duração de 30 dias seria renovável e não havia ônus aos cofres públicos. 

Ao longo desse período, segundo a A&M, 30 profissionais foram acionados para trabalhar em Porto Alegre. “A consultoria deu suporte na gestão diária de ações emergenciais, estimou os danos físicos e econômicos da cidade, elaborou o plano Porto Alegre Forte e montou o escritório de projetos para a reconstrução”, diz a empresa. 

A proposta de escritório foi apresentada nesta quarta-feira, em evento da prefeitura. Conforme a Matinal mostrou, a Secretaria Executiva de Despesa de Pessoal recomendou que era necessária uma “adequada análise de repercussão financeira” para o funcionamento do escritório.

Ainda assim, o projeto do executivo foi encaminhado à Câmara Municipal. A matéria define seis eixos de trabalho: recuperação da infraestrutura e equipamentos públicos, habitação de interesse social, projetos urbanos resilientes, recuperação de atividades empresariais e financiamentos, adaptação climática e monitoramento e transparência. A primeira etapa do projeto prevê utilização de R$ 890 milhões.

A consultoria também havia participado do lançamento do Plano Porto Alegre Forte, apresentado em 31 de maio. Na ocasião foram definidos cronogramas para ações imediatas, de recomposição e de adaptação climática. Um site sobre a reconstrução de Porto Alegre também foi lançado. 

Presidente do LIDE sugere que A&M tomou iniciativa de vir a Porto Alegre

A chegada da consultoria foi anunciada por Melo em 13 de maio, durante uma entrevista coletiva. Na ocasião, o prefeito afirmou que foi procurado por um diretor da consultoria, que seria gaúcho. Na terça-feira, dia 18 de junho, em reunião-almoço na Associação Comercial de Porto Alegre, o presidente do LIDE, Eduardo Fernandez, sugeriu ter sido ele quem aproximou a consultoria da administração municipal. 

“Em 3 de maio, me ligou o presidente da Alvarez & Marsal. Naquele momento, o Rio Grande do Sul estava debaixo d’água. Eles haviam se reunido e visto que realmente o RS precisaria realmente de um planejamento e organização, que talvez a sociedade não tinha visto algo – nunca passamos por algo como dessa vez”, afirmou. “E aí o prefeito, com toda a sua equipe, entendeu a importância de ter um planejamento organizado e estruturado”, acrescentou ele no evento, que teve a presença de Melo. 

Fernandez disse que participou da primeira reunião entre a prefeitura e a empresa. Segundo o presidente do LIDE, os consultores compararam a complexidade da situação de Porto Alegre  à da Ucrânia, em guerra há mais de dois anos.

Pesquisador aponta risco de atuação de consultorias privadas

Conhecida por atuar em gestões de crise, a Alvarez & Marsal atuou em episódios do rompimento da barragem em Brumadinho (MG), em 2019, e após a passagem do furacão Katrina em Nova Orleans (EUA), em 2005. No ano passado, a consultoria também foi contratada pela Americanas para coordenar seu plano de recuperação judicial. 

Nesta quinta, ao participar de um painel promovido pelo Grupo de Pesquisa Identidade e Território da UFRGS, o professor da Universidade de Denver Aaron Schneider, que escreveu um livro sobre a reconstrução de Nova Orleans após a passagem do furacão Katrina, também chamou atenção quanto ao risco da redução do Estado em momentos de crises: “No caso de Porto Alegre, o neoliberalismo fez com que a cidade não estivesse preparada para enfrentar uma crise climática como foi.” 

Schneider, que já morou em Porto Alegre, constatou o crescimento da desigualdade e da gentrificação na Nova Orleans pós-Katrina. Advertiu que o processo de reconstrução da cidade não deve ser capitaneado pela iniciativa privada: “O mesmo passou em Nova Orleans. Eles vêm com um plano e entregam à cidade, e a cidade implementa, como se fosse um estudo técnico sem interesses”. 

A atuação da Alvarez & Marsal, conforme Schneider, viabiliza o ingresso de capitais globais com interesses específicos, subordinando a economia local. “A elite neoliberal gosta sempre de desregular. E se tem essa oportunidade porque teve um desastre nesta cidade, eles aproveitam”, afirmou. “Eles têm sua agenda.” 

Contratação havia sido criticada no meio acadêmico

A contratação da empresa de consultoria por parte do município suscitou críticas do meio acadêmico em Porto Alegre. À Matinal, o professor de administração pública da Escola de Administração da UFRGS, Diogo Demarco, ressaltou que universidades como UFRGS e PUCRS já detinham conhecimento para atuar no processo de reconstrução

Também da UFRGS, o vice-diretor da Faculdade de Ciências Econômicas, André Cunha, avaliou que a contratação de uma consultoria externa transpareceu que a prefeitura seria incapaz de lidar com a crise em curso. Para ele, isso é decorrência do enfraquecimento estatal do município.


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