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Ex-diretores do DEP e do Dmae sugerem trabalho de mergulhadores para drenar inundações de Porto Alegre

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Ex-diretores do DEP e do Dmae sugerem trabalho de mergulhadores para drenar inundações de Porto Alegre Especialistas dizem que há medidas emergenciais viáveis para retomar o funcionamento de todas estações de bombeamento. Foto: DMAE/Divulgação PMPA

Completaram-se, na sexta-feira (17), duas semanas de alagamentos em Porto Alegre, por conta da cheia inédita do Guaíba. Embora algumas regiões já tenham assistido ao recuo das águas, há imensas áreas sob constante inundação. Do Centro Histórico para o norte, passando pelo 4º distrito, até o bairro Sarandi, no extremo nordeste da capital, a submersão prossegue, em gradual redução na maioria dos bairros. Na Rua dos Andradas, por exemplo, a água já secou neste sábado, como resultado da abertura de uma comporta no Muro da Mauá.

No início da semana, um grupo de 48 profissionais de diferentes áreas – engenharia, hidrologia, planejamento urbano e geologia – assinou um manifesto sobre o sistema de proteção contra enchentes de Porto Alegre. Dividido em três partes, o texto começa por apontar medidas emergenciais para este momento, com o objetivo de reduzir a mancha de inundação na capital. Essas recomendações foram entregues ao prefeito Sebastião Melo (MDB) pelo ex-diretor do Departamento de Esgotos Pluviais (DEP), Vicente Rauber, nesta sexta-feira. 

Conforme os especialistas, dentre os quais vários têm passagens pelo antigo DEP ou pelo Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), há medidas emergenciais viáveis para retomar o funcionamento de todas estações de bombeamento de água pluvial (EBAPs): acionar mergulhadores para consertar as comportas dessas estruturas. Foi o auxílio desses profissionais que deu suporte ao restabelecimento da estação de água do Moinhos de Vento.

“O que acontece atualmente: por furos no sistema, a água entrou. É preciso romper esse círculo vicioso, com mergulhadores e técnicas adequadas para consertar as comportas e tirar a água de dentro das casas de bombas. O Dmae já removeu a inundação na estação de bombeamento de água bruta para o bairro Menino Deus”  recomendou Rauber, em entrevista concedida à Matinal. O especialista explicou que, depois de  tirar a água de dentro das Estações de Bombeamento de Água Pluvial (EBAPs), é preciso  fazer “uma ensecadeira com sacos plásticos adequados” para isolar a área dos motores. Em relação à impossibilidade de religar a  energia elétrica nas regiões inundadas, Rauber recomenda um gerador a combustível.

O documento entregue à prefeitura diz que as comportas das EBAPs devem ser vedadas com solda sub-aquática e bolsas infláveis de vedação. 

Na impossibilidade de operar imediatamente as EBAPs, a sugestão dos especialistas é usar “bombas volantes de grande vazão” – isto é, estruturas  que podem ser facilmente movidas – nos bairros da região norte da cidade. “No caso do bairro Sarandi, onde as águas superaram a cota de 6m e a Casa de Bombas 10 está inundada, é certo que serão necessárias bombas volantes”, dizem os especialistas. 

Rauber diz que essas medidas eram usuais na gestão do sistema anti-cheias da cidade. “Nós não inventamos a rota ao sugerir essas medidas. São usuais em tempo normal. Quando eu era diretor do DEP, dispúnhamos de contrato permanente de mergulhadores. Todos os anos nós abríamos e fechávamos todas as comportas das EBAPs e do Muro da Mauá, uma a uma. Revisávamos, removíamos ferrugem, trocávamos as borrachas. Isso valia também para as comportas debaixo da Avenida Castelo Branco”, relata o ex-diretor, que esteve à frente do departamento no mandato de Olívio Dutra (PT), no começo dos anos 1990. 

O colapso da comporta 13, que fica sob a Av. Castelo Branco foi responsável pelo alagamento da região do 4º Distrito. Em 22 de novembro do ano passado, durante a segunda maior cheia do Guaíba desde 1941, o Dmae anunciou que havia concluído reparos nessa estrutura. 

“Em tempo normal, conserta-se com o trabalho de mergulhador. Então todas aquelas medidas que sugerimos são completamente usuais, conhecidas. O Dmae tem feito algumas coisas. Mas por que fizemos o documento? Porque está demorando para eles agirem”, justifica Rauber.

O engenheiro afirma que o sistema de proteção contra cheias, cuja construção teve início ainda nos anos 1960, é “simples, eficiente, fácil de operar e de manter – o que não aconteceu foi manutenção”. Em entrevista a GZH, entretanto, um diretor-adjunto do Dmae afirmou não haver falta de cuidados com o sistema.

Para os ex-diretores do departamento, o fato da cidade ter mais de 40% de sua área construída “praticamente na mesma cota das águas do Guaíba em tempos normais”, é preciso recriar uma estrutura “de primeiro escalão” como foi o DEP. O órgão foi extinto em 2019, no governo de Nelson Marchezan Jr. (PSDB), e suas atribuições foram incorporadas pelo Dmae. 

“As empresas de saneamento de água potável e esgotos, por absoluta emergência e por ter tarifa específica para estas atividades, como é o caso do Dmae, não têm e não terão qualquer prioridade para as atividades de drenagem urbana e proteção contra inundações”, diz o documento.

Ex-diretor do DEP relata que Melo abriu a reunião citando informações que, para o grupo dos 48 especialistas, são falsas | Foto: Vicente Rauber/Arquivo pessoal

Propostas recebidas com “negacionismo” por parte da prefeitura

Além de ser entregue a Melo, a carta com propostas para escoar a inundação foi remetida também ao ministro extraordinário da reconstrução do Rio Grande do Sul, Paulo Pimenta (PT), ao ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes (PDT), e ao Ministério Público estadual.

“Estávamos desde terça-feira tentando uma reunião com o prefeito. A nossa ideia, inclusive, era primeiro entregar o documento para ele, que é a principal autoridade responsável por essa situação que vivemos, e depois passar pro governo federal”, explica Rauber.

O ex-diretor do DEP relata que Melo abriu a reunião citando informações que, para o grupo dos 48 especialistas, são falsas. “(Melo falou) que o sistema é muito velho, que foi feito lá na década de 70, que o problema de Porto Alegre e toda a região metropolitana se deu pelo projeto do sistema de proteção contra enchentes”. Segundo Rauber, no meio do encontro, o prefeito precisou sair para uma entrevista a um canal de televisão.

Além de Melo, participou da reunião o diretor de Gestão e Desenvolvimento do Dmae, Marcos Vinicius Caberlon. Enquanto o prefeito esteve fora, Rauber conta que Caberlon “começou a desfazer tudo que nós tínhamos escrito no documento”.

Quando o governante voltou, o ex-diretor do DEP teve dez minutos para explicar as propostas do documento elaborado pelos especialistas. “Melo agradeceu, disse que vamos continuar conversando e saiu. O assessor dele continuou com o negacionismo e nós fomos obrigados a dizer pra ele o seguinte: a prefeitura tem duas opções, ou ela continua praticando atos de imperícia e deixa cidade debaixo d’água, ou ela olha as nossas propostas, trata de implementá-las e acaba o quanto antes com esse sofrimento, com esses prejuízos”, finalizou Rauber.

A Matinal entrou em contato com a assessoria de imprensa da prefeitura e do Dmae, para comentar o recebimento das propostas, mas não teve resposta até a publicação deste texto.

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