Reportagem

Nova alta de covid requer cuidados com pessoas mais suscetíveis

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Nova alta de covid requer cuidados com pessoas mais suscetíveis Foto: Cristine Rochol/PMPA

 

Situação nos hospitais reforça a importância da vacinação, enquanto especialistas recomendam a volta do estímulo ao uso de máscaras em locais fechados

Começou com uns casos a mais aqui, outros acolá. E aí bateu uma impressão de que talvez estivessem aumentando. Num momento seguinte, a confirmação, agora pelos números oficiais, de que uma nova onda de covid estava acontecendo no Rio Grande do Sul. Se dois anos atrás o medo daquela doença nova era disseminado e, em março do ano passado, viu-se uma tragédia em hospitais, agora o momento é diferente. E distinto mesmo do início do ano, quando a ômicron fez os diagnósticos explodirem em todos os lugares, inclusive no Rio Grande do Sul. 

Com um aumento sustentado de casos que já dura pelo menos um mês, não se vê hospitais cheios e tampouco crise por vagas de UTI por causa da covid. E, desta vez, aquelas cenas dramáticas nem são esperadas. Só que isso não significa motivo para ficar tranquilo. Mesmo que não haja um forte temor no ar como nas vezes passadas, cuidados básicos voltam a ser recomendados, em especial com pessoas que podem ser mais vulneráveis à doença, como idosos e imunossuprimidos. 

Vacinação tem evitado agravamentos

“Pelo tempo desde o início do aumento, principalmente deste maior, ainda não estamos observando um impacto maior nas internações. Tem aumentado, mas nem se compara ao período de outras ondas”, comentou o médico infectologista Alexandre Zavascki, que é professor da UFRGS e trabalha no Hospital de Clínicas e no Moinhos de Vento. O motivo para não ter tanta gente chegando aos hospitais agora é claro, para ele: vacinação. 

Hoje, o Rio Grande do Sul tem mais de oito em cada dez pessoas que deveriam se vacinar com pelo menos duas doses. Isso já não é mais considerado pela Secretaria Estadual da Saúde como esquema vacinal completo, que agora contempla apenas quem tomou o reforço. Aí o índice cai. Pouco mais da metade dos adultos receberam três injeções de imunizante anticovid até 12 de maio, mesmo que as doses estejam disponibilizadas a todo o público que a necessite. Com a proteção mais baixa, quem normalmente tem procurado atendimento é o público mais sensível: “O perfil de pessoas que estão internando ainda são de pessoas com maior fragilidade, como idosos e imunossuprimidos”, atestou Zavascki. 

O médico, ao menos nesta semana, preferiu esperar para cravar que apenas esse grupo será o mais atingido: “Quando começa um aumento mais expressivo, aguardamos uma ou duas semanas para ver a repercussão em nível hospitalar, do diagnóstico ao agravamento vai um tempo”. Por enquanto, o cenário segue de relativa calma: “Proporcionalmente, as internações não aumentaram tanto em relação ao número de casos”.

Crescimento de casos após “mensagem errada”

Citado por Zavascki, esse aumento vem desde o começo de abril. Menos de duas semanas antes, a Prefeitura de Porto Alegre havia dispensado a utilização de máscaras em ambientes fechados, incluindo escolas, ainda que parcela considerável das crianças não tenham se vacinado contra a covid – até 12 de maio, menos de 40% das crianças da Capital haviam completado o esquema vacinal, que para elas é de duas doses. 

Para o profissional, a desobrigação das máscaras e a forma como foi feita ocorreram de maneira equivocada: “O principal determinante deste aumento é a retirada completa das máscaras, sobretudo em lugar fechado. Para muita gente, a mensagem que se passou é que acabou”, argumentou. “O vírus encontra essa facilidade e começa a se expandir de novo. Isso não é nenhuma novidade, qualquer lugar do mundo que fez isso, aconteceu a mesma coisa. Não é um quadro que a gente não esperasse. Infelizmente a gente seguiu o caminho errado que outros locais já fizeram. Estamos vendo agora a mesma consequência”, concluiu. 

Segundo a Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), a partir da última semana de março – à exceção da segunda de abril, que teve o feriadão de Páscoa –, mais pessoas buscaram os testes rápidos e mais casos positivos foram notados no Rio Grande do Sul. O salto foi de 2.060 resultados positivos para o coronavírus (em 14.680 testes realizados) no fim de março para 3.437 diagnósticos de covid em 15.560 testes até a terceira semana de abril. Extraoficialmente, a Abrafarma informou que notou a continuação desse movimento na semana seguinte. 

Pelos dados da Secretaria Estadual da Saúde, os números de casos deixam de cair no Rio Grande do Sul na semana epidemiológica 14, que encerrou em 9 de abril. Desde a semana 15, os novos diagnósticos vêm crescendo e, neste período, quase dobraram, saindo de 6.751 registros na semana 15 para 11.820 na semana 18, entre 1º e 7 de maio.


Fonte: SES

“A gente está claramente vendo este aumento”, afirmou Isaac Schrarstzhaupt, um dos coordenadores na Rede Análise Covid. Em 14 janeiro, em entrevista ao Matinal, ele previu que a onda da ômicron que se iniciava tinha o potencial de proporcionar um recorde de casos ativos no Rio Grande do Sul, o que veio a ocorrer poucos dias depois, numa ascensão que só terminou no fim daquele mês, quando cerca de 297 mil pessoas estavam infectadas pelo coronavírus simultaneamente no Estado. 

A situação, agora, é diferente. “A ômicron era uma variante com bastante escape em relação à delta. Já o aumento de agora, não estamos vendo que tenham outras variantes ou sublinhagens que tenham escape”, comparou. Ele, entretanto, alertou para a importância da vigilância genômica. “A África do Sul teve duas sublinhagens, a BA.4 e BA.5, que ainda são ômicron, que elas têm um potencial de escape maior. Lá está tendo uma onda grande”, exemplificou. O país africano enfrenta uma nova escalada de casos desde a metade de abril. 

Para Isaac, a onda atual tende a piorar se essas linhagens entrarem no Estado, em especial se não forem notadas. “Se estamos reduzindo os testes, estamos reduzindo a nossa vigilância. Pode ser que elas já estejam aqui e nós não estamos vendo”, disse. “Se tivermos essas variantes, a onda tem potencial de ser maior, mas não como a ômicron. O aumento que a gente está vendo agora não é exponencial como aquele ponto.” 

Até sua última atualização, com dados de abril, o painel de vigilância genômica do RS não identificou presença das variantes BA.4 e BA.5, mas sim um crescimento da BA.2:


Fonte: SES

O especialista apontou outro desafio ao monitoramento correto: os autotestes, comercializados desde o início de março. Oficialmente, eles servem como triagem e, quando sinalizam o caso positivo, o recomendável é que a pessoa se dirija a um posto de saúde, refaça o teste que aí sim será notificado pelas autoridades. Isaac chamou a atenção para um outro fator, que considera a subnotificação da subnotificação: “Para notificar, precisa retestar e isso já é bem raro de acontecer e tem famílias em que todos estão com sintomas e só é feito um autoteste, e eles assumem que todos estão positivos. Dá subnotificação até no autoteste”, afirmou ele, que entende que o produto deveria ter preço mais acessível.

Vacina reduz tempo da transmissão da covid, máscaras protegem de outras infecções

Em meio ao cenário de expansão, há formas de contê-la. E são velhas conhecidas de uma população que convive com uma pandemia há 27 meses: uso correto de máscaras e vacinação completa. “A vacinação é capaz, além de proteger contra a doença grave, hospitalização e risco de óbito, como já sabemos em dados de vida real, ela também ajuda a reduzir o tempo em que a pessoa permanece infecciosa e reduz o número de partículas virais eliminadas comparada a uma não vacinada”, citou a biomédica Mellanie Fontes-Dutra. “Então ela tem um impacto sobre a transmissão também”, enfatizou.

Para ela, é essencial a conscientização da campanha de imunização em todos os grupos, além de retomar a proteção individual. “Precisamos reforçar a vacinação com essas doses de reforço para restaurar a proteção frente a essa nova variante que estamos lidando, e, juntamente das doses de reforço, aumentar a cobertura vacinal para as crianças e sobretudo reestimular o uso de máscaras”, orientou. “Evitar a exposição segue sendo uma medida muito recomendada, mesmo elas estando desobrigadas, especialmente em lugares fechados.”

A máscara, salientou Mellanie, também ajuda a proteger de outros vírus respiratórios que começam a circular mais no inverno. Foram os vírus respiratórios que ocasionaram alta demanda na procura por atendimento pediátrico nas últimas semanas em Porto Alegre. E tanto a Capital quanto o Rio Grande do Sul foram classificados pela Fiocruz como regiões com sinal de crescimento de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave na tendência de longo prazo. 

O abrigo do frio e as aglomerações em ambientes fechados facilitam essas infecções, lembrou Isaac. “É uma época que o comportamento das pessoas tende a aumentar a transmissão deste tipo de doença (síndromes respiratórias). Mesmo antes da covid-19, a gente tinha um aumento nesta época”.

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