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Por que Porto Alegre não terá fiação subterrânea num futuro próximo

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Por que Porto Alegre não terá fiação subterrânea num futuro próximo Operação irá remover fiação irregular de ruas e avenidas de Porto Alegre | Foto: Luciano Lanes / PMPA

Ação iniciada no início do mês promete melhorar visual de ruas e avenidas da Capital, mas iniciativa que poderia de fato dar novo cenário à Capital esbarra no alto custo, ainda que especialistas apontem vantagens

A CEEE Equatorial deu início em outubro a uma ofensiva que quer despoluir visualmente o céu de Porto Alegre. A ação visa retirar cabos e fios excedentes dos postes da cidade. No mês passado, mais de 60 empresas foram chamadas para uma reunião, que também contou com a participação de representantes da Prefeitura e do Ministério Público, para tratar do assunto.

A empresa, que é responsável pela distribuição de energia elétrica em Porto Alegre há cerca de 100 dias, afirma que muitos dos cabos são instalados em postes sem nenhum aviso ou mesmo por empresas não cadastradas. Em outras, trata-se de uma fiação totalmente irregular que se acumula com o passar do tempo.

A retirada deste material nesta operação começou pela Avenida Francisco Silveira Bitencourt, no bairro Sarandi. No entanto, a iniciativa ainda não será suficiente para fazer da Capital uma cidade onde a fiação seja, ao menos na maior parte do território, subterrânea. Ainda que a ideia esteja no horizonte do poder público, a justificativa para isso é simples: o custo elevado que a proposta exige para ser cumprida.

O assunto, frise-se, passa da esfera energética ou das telecomunicações. Liberar a cidade de emaranhados de cabos e fios pendurados em postes proporciona benefícios que vão da saúde à economia, uma vez que ruas se tornam mais confortáveis e comércios ficam menos tempo sem luz, como quando ocorrem eventos climáticos fortes.

Só que, por ora, a promessa é que o início de uma nova etapa na instalação dos fios em Porto Alegre se inicie apenas com a revisão do Plano Diretor – que está atrasada por causa da pandemia.

Fiação subterrânea em Porto Alegre esbarra em alto valor 

Enquanto resolve a questão dos cabos irregulares em parceria com a CEEE Equatorial, a Prefeitura de Porto Alegre mantém a solução da fiação subterrânea no horizonte. No entanto, o valor da operação é o principal empecilho: cálculos dão conta de que uma instalação de fiação subterrânea é de 10 a 15 vezes mais cara do que a fiação aérea.

“A solução para acabar com o excesso de fios aéreos nos postes passa pela possibilidade de se enterrar a fiação. Os custos do uso de cabeamento subterrâneo são, sem dúvida, o principal empecilho para adoção desta prática”, avalia Joaquim Cardinal, chefe de gabinete da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade de Porto Alegre (SMAMUS).

A CEEE Equatorial também afirma que “as redes subterrâneas são possibilidades que podem ser adotadas, o que minimizaria os riscos causados pela ocupação irregular”, mas pondera, em nota, que “a decisão de instalações subterrâneas cabe às empresas compartilhantes e às prefeituras municipais”.

A despeito do custo para instalação, o retorno viria a partir de uma maior estabilidade no sistema. Não raro, após temporais, há notícias de milhares de pontos sem luz no Rio Grande do Sul, incluindo grandes centros como Porto Alegre. Enterrar os fios reduz esse problema: “No Brasil, ficamos de 10 a 12 horas, até 16 horas, sem energia durante o ano. Na Alemanha, que tem 80% de sua rede subterrânea, esse tempo é de 23 minutos por ano”, afirmou, ao jornal Zero Hora, o engenheiro Daniel Bento, que atuou como responsável técnico pela rede de distribuição subterrânea de São Paulo.

Na mesma entrevista, publicada em fevereiro de 2020, o profissional citou as garantias de produtividade a fábricas e escolas, além da questão da segurança envolvida no assunto.

Expansão da rede subterrânea fica a cargo de novos empreendimentos por enquanto

Quando não há fios aéreos, a diferença visual é gritante. Quem vai à orla do Guaíba, um dos principais pontos turísticos de Porto Alegre, percebe que a fiação naquele espaço não é visível. Isso porque naquele canto da cidade a fiação é subterrânea, mesma realidade do Centro Histórico, que têm cabos enterrados em vias importantes, como a Rua da Praia. 

A SMAMUS avalia que uma das maneiras de dar início ao movimento é incentivar novas instalações a adotarem essa alternativa, e Cardinal aponta que medidas devem ser tomadas para que isso se viabilize: “Áreas de novos empreendimentos, loteamentos e bairros planejados devem priorizar este tipo de fiação. É preciso compatibilizar a possibilidade com a legislação atual ou ainda oferecer incentivos aos empreendimentos que adotarem a prática”, afirma.

A engenheira eletricista Rosane Vasconcelos, técnica da CEEE Equatorial, indica que, apesar de a solução subterrânea ter importância, a remoção de cabos irregulares já representa uma impactante mudança no aspecto visual e de segurança da fiação da cidade.

“Quando olhamos essas avenidas principais, já perdemos as contas de quantos cabos irregulares existem. Em 2018, fizemos uma ação de limpeza na Avenida Padre Cacique e retiramos toneladas de cabos. Com essa limpeza que vamos começar a fazer, o impacto visual já vai melhorar bastante”, garante.

Para especialista, questão impacta áreas como saúde, mobilidade e qualidade de vida

A retirada de fios impacta muito além do ponto de vista estético. A arquiteta e urbanista Eugenia Aumond Kuhn, professora do curso de Arquitetura da UFRGS. aponta que a fiação exposta tem outros importantes impactos na cidade. Saúde, mobilidade urbana e meio ambiente também são afetados pela qualidade do sistema elétrico de um município.

“Por que as grandes cidades do mundo substituem as redes? Porque a imagem da cidade vende a cidade. A qualidade de vida melhora, as pessoas caminham mais, impacta a saúde. É a questão da mobilidade ativa: esperamos que as pessoas se movam por meios que não demandem gastos energéticos”, diz. Em décadas passadas, cidades como Paris, Londres e Buenos Aires enfrentaram o assunto. 

A especialista avalia ainda a interferência de uma rede com fios em excesso na questão ambiental: muitas vezes, a fiação aérea impede o plantio ou o crescimento de vegetação na região. “Existe um conflito grande entre a rede elétrica e a arborização. Em muitos lugares, não há árvores porque há conflito com a rede, além de árvores com poda em V ou desequilibradas, por consequência da rede aérea. Os conflitos entre vegetação e rede elétrica são muito evidentes”, diz a urbanista.

Revisão do Plano Diretor deve propor debate

Além do estímulo à adoção de fiação subterrânea em novos empreendimentos, a Prefeitura prevê inserir o debate na revisão do Plano Diretor, que deve ser retomada nos próximos dias, após interrupção devido à pandemia de coronavírus. O Plano Diretor de Porto Alegre já deveria ter sido revisado em 2019, de acordo com os prazos estipulados em lei, mas precisou ter seu processo interrompido.

“O município encontra-se em fase de revisão do Plano Diretor, onde a matéria será analisada dentro de dois grupos prioritários: ‘uso do solo, estrutura e paisagem urbana’ e ‘ambiental e infraestrutura’”, diz Joaquim Cardinal, chefe de gabinete da SMAMUS. “Com a participação popular e com estudos de casos na revisão do Plano Diretor, poderão ser contempladas novas alternativas para a fiação dentro das competências municipais.”

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