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Índice de tratamento de esgoto piora em Porto Alegre após as enchentes

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Índice de tratamento de esgoto piora em Porto Alegre após as enchentes Índice de esgoto tratado em Porto Alegre, no mesmo patamar de dez anos atrás, recuou após enchente | Foto: João Neto

A qualidade da água em Porto Alegre piorou desde a enchente de maio deste ano. Um dos fatores é a capacidade de tratamento de esgoto na capital, que caiu por conta dos danos causados pela inundação em boa parte da cidade. Das dez Estações de Tratamento de Esgoto (ETE), seis foram afetadas. Hoje, dois meses após o pico da cheia do Guaíba, a ETE Sarandi segue fora de operação e sem previsão de normalização. 

O Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), no entanto, garante a segurança e a potabilidade da água que chega às torneiras das casas, já que passa por Estações de Tratamento de Água, as ETAs. 

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Conforme o Dmae, a capital gaúcha tinha capacidade de tratar 80% do esgoto que produzia. Esse índice diminuiu para 74,4% no pós-enchente. Do esgoto que produz, a cidade conseguia tratar 58% e agora está em 53,1%. 

O índice ainda é levemente superior à média nacional, que é de 52,2%, segundo o Instituto Trata Brasil. Porém, mesmo antes do evento climático, Porto Alegre já puxava para baixo a média das 100 maiores cidades do país, cujo índice é de 65,5%.  

O nível atual de tratamento do esgoto representa uma redução de 4,9% na comparação com um ano atrás e equivale a um volume de pouco mais de 98 piscinas olímpicas no mês ou três por dia. Enquanto em junho do ano passado foram tratados 5.278.744 m³, agora foram 5.032.803 m³, conforme o Dmae. 

Em que pese os índices e número de Porto Alegre estejam agora semelhantes ao nível nacional, a situação acende um alerta, conforme o professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS Fernando Magalhães. “Essa queda é um problema. Precisamos aumentar tanto a nossa coleta quanto o tratamento”, sinalizou. 

“Esse esgoto não mais coletado e tratado propicia poluição tanto do solo, como da água superficial e da água subterrânea, colocando em risco quem entra em contato com esse ambiente contaminado”, contextualiza o professor, que é engenheiro sanitarista e doutor em Saneamento. 

Menos esgoto tratado, mais doenças

Um dos reflexos da difusão de patógenos ilustrada pelo professor do IPH é a alta de casos de leptospirose, uma das doenças causadas pela contaminação por águas de enchentes. Nessa terça, na Câmara, a diretora da Vigilância Sanitária da SMS, Evelise da Rocha, atualizou os dados da doença à Comissão de Saúde e Meio Ambiente. De acordo com ela, até o momento já foram notificados 1.765 casos de leptospirose, sendo 66 confirmados e quatro óbitos. O número de diagnósticos já é praticamente igual ao de todo o ano de 2023, que teve 68 registros e nenhum óbito na capital. 

Segundo ela, houve ainda 11 casos confirmados de Hepatite A, outra doença ligada às enchentes. Da mesma forma, a dengue também foi agravada em função do acúmulo de água e lixo, além do calor fora de época no início de junho

De acordo com Magalhães, dados preliminares já indicam uma piora na qualidade da água. “O IPH tem avaliado a qualidade da água. Após a enchente, aumentou o risco de contaminação”, afirmou. Conforme ele, a situação de risco já esteve pior, mas ainda não retornou ao patamar anterior às inundações. Os resultados completos da pesquisa serão publicados em um artigo que está em produção. 

Fato é que esgoto não tratado faz mal à saúde: “Se antes o esgoto era coletado e tratado e já não é mais, ele afeta a qualidade da água no local, aumentando o risco de contaminação por diversas doenças de veiculação hídrica. É uma consequência para a saúde da população, quanto o ambiente”, resumiu. “Com a retomada dos sistemas de saneamento, tende-se a voltar à condição normal.”

Operação na maioria das ETEs já foi retomada

Segundo o Dmae, além da ETE Sarandi outras cinco foram afetadas em Porto Alegre – Serraria, Lami, Belém Novo, São João-Navegantes e Rubem Berta – e já recuperadas. A enchente inundou também parte das estações de tratamento e bombeamento de esgoto associadas aos sistemas Ponta da Cadeia, Zona Sul, São João Navegantes, Salso, Sarandi, Belém Novo e Lami. 

Apesar dos danos estruturais, o número de domicílios conectados ao esgoto não reduziu, segundo o Dmae. Até 2022, conforme o Sinisa, eram 685.265 domicílios conectados ao sistema de esgoto, quase a totalidade dos 687.679 domicílios contabilizados na capital pelo Censo 2022. 

Após recuo sob Marchezan, Porto Alegre retomou patamar de esgoto tratado

O Marco Legal do Saneamento estipula para 2033 a meta de coleta e tratamento de esgoto para que 90% da população conte com coleta e tratamento de esgoto. Entretanto, Porto Alegre hoje encontra-se ainda em um patamar de quase dez anos atrás com relação à coleta e ao tratamento de esgoto, segundo indicam dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Sinisa), do Ministério das Cidades. 

Do último ano do governo José Fortunati (então no PDT) ao primeiro de Nelson Marchezan Júnior (PSDB) houve uma queda de 10% no esgoto tratado, saindo de um patamar de 66,6 mil m³ por ano para 58,7 m³. Com o tucano, em 2018, o volume foi ainda menor, com 57 mil m³ para posteriormente recuperar gradualmente. No primeiro ano da gestão Sebastião Melo (MDB) foram tratados 60,4 mil m³ e em 2022, 66,7m³. 

Com Melo, o volume de esgoto captado também voltou a crescer na comparação com Marchezan, chegando a 49,8 mil m³ em 2022 – dado mais recente. No entanto, ainda não supera o pico de coleta, 78,5 mil m³, em 2015, quando Fortunati era o chefe do executivo.


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