Reportagem

Sem coordenação da prefeitura, abrigos contam com voluntários para buscar doações

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Sem coordenação da prefeitura, abrigos contam com voluntários para buscar doações Defesa Civil do Estado arrecada doações para os municípios atingidos pelas enchentes. Foto: Geovana Benites/Matinal

Em Porto Alegre, milhares de pessoas atingidas pela enchente estão acolhidas em 124 abrigos temporários organizados pela prefeitura, por voluntários e entidades privadas. Para manter esses espaços funcionando, uma multidão de pessoas atua voluntariamente nos pontos de coleta de doações que são destinadas aos locais de acolhimento. 

Com mão de obra popular, os abrigos da capital que recebem os refugiados climáticos se abastecem principalmente de doações solicitadas para a comunidade. Um dos grandes pontos de arrecadação, o Centro Logístico da Defesa Civil do Estado, localizado na capital, não tem autorização para entregar os donativos diretamente aos voluntários. Para que os itens cheguem aos abrigos, devem ser solicitados pelas prefeituras.

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Contudo, no caso de Porto Alegre, a Defesa Civil do município informou à Matinal que solicitou apenas água para ser entregue no depósito do Demhab, onde estão concentradas as doações recebidas pela prefeitura, segundo a assessoria do órgão municipal, que não soube informar se o pedido foi atendido. “Se eles (Defesa Civil do Estado) tiverem um material que precisamos e não está destinado exclusivamente para regiões que estão piores que Porto Alegre, como Eldorado, aí podemos solicitar. Porto Alegre não está totalmente afetada como Eldorado”, afirma Bárbara Barbieri, assessora da Defesa Civil municipal. 

Apesar das diferenças em relação a Eldorado do Sul – município de 41 mil habitantes onde toda a população teve de ser evacuada –, Porto Alegre já tem mais de 13 mil abrigados.

Na Sogipa, que coleta doações e já acolhe 450 vítimas das enchentes, os donativos chegam através de pedidos nas redes sociais do clube. Segundo a assessoria de imprensa, a entidade tem algum apoio da prefeitura de Porto Alegre, mas quem coordena a maior parte da coleta e distribuição de mantimentos é a administração do clube. 

“Sempre tem gente da prefeitura lá, mas a mão de obra é, em maioria, dos associados e voluntários”, explica o assessor Fabrício Falkowski. “Eu acho que a prefeitura não tem condições de administrar todos esses pontos [abrigos]. Eles estão funcionando quase que de forma independente, quando precisam de alguma coisa pedem.” O assessor conta que o município enviou uma carga de diesel para os geradores do clube, quando faltou luz no local durante o último fim de semana. 

Já o Conselho Regional de Medicina do RS (Cremers) conta com apoio da prefeitura apenas na divulgação do serviço de coleta de doações. Para receber  mantimentos no local, os abrigos não precisam ser cadastrados pela prefeitura, basta comprovar que estão acolhendo sobreviventes das enchentes, explica a diretora executiva do conselho, Rebeca Rodriguez Fortes de Lemos. 

“Qualquer instituição que chega aqui, seja igreja ou ONG, que comprove que está abrigando essas pessoas, a gente entrega”, afirma a diretora. 

Desde sábado, a Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS) também recebe doações, que são destinadas aos locais de acolhimento cadastrados em um site desenvolvido por voluntários. “Os abrigos fazem os pedidos do que precisam para podermos distribuir. Eles têm que ser cadastrados, tem que ter CNPJ, só é entregue para empresas que estão, de fato, recebendo desabrigados”, afirmou Thales Duarte, da assessoria da associação. “A prefeitura estava ajudando no primeiro dia, depois todo o apoio que estamos recebendo são de voluntários. Toda a logística é apenas responsabilidade da AMRIGS e dos voluntários.”

A reportagem da Matinal entrou em contato com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (SMDS) e também com a coordenação de comunicação da prefeitura, mas não obteve retorno sobre como são administradas as doações para os abrigos organizados pela prefeitura.

Bloqueios em rodovias atrasaram doações da Defesa Civil do Estado

Voluntária, a historiadora Jéssica Camargo Trisch notou, na segunda-feira, colchões e travesseiros amontoados no Centro Logístico da Defesa Civil do RS, situado na avenida Ipiranga. “Estávamos de carro e oferecemos para levar em lugares que precisavam, mas eles disseram que precisam de autorização para liberar”, conta Jéssica. “Vários abrigos em Porto Alegre pedindo esses itens, sobretudo colchões, para receber as pessoas com urgência. Tentamos questionar a coordenação sobre como e quando esses colchões seriam entregues, mas eles se esquivaram de respostas.”

Ainda no domingo, a redatora Paola Araújo de Oliveira, que também atuou como voluntária na separação das doações na Defesa Civil do Estado, se surpreendeu com um acúmulo de alimentos e roupas que estavam prontos para doação. “Questionamos por que estava só chegando [mantimentos] se a gente não via nada sair. Nenhum caminhão encostando pra levar, porque tem muito colchão lá, muito travesseiro”.

Na segunda (6), colchões e travesseiros estavam acumulados no Centro Logístico da Defesa Civil do RS. Foto: Jéssica Trisch

O coronel Rogério Luís Martini, que integra a coordenação do local, explicou à Matinal que a Defesa Civil do RS só pode realizar entregas aos municípios que fizeram a solicitação de ajuda. “Nós não fazemos a distribuição direta para associações, entidades ou abrigos, o nosso relacionamento é com os municípios. Ou o município vem buscar ou nós tentamos levar”, afirma o coronel, que estava supervisionando as saídas de doações na manhã de terça-feira (7/5). 

Outra justificativa para o acúmulo de itens no início da semana eram os bloqueios nas rodovias do estado, que no domingo somavam 113 trechos em 61 rodovias entre interrupções totais e parciais. Nesta quinta-feira à noite, os números já haviam caído para 73 e 43 respectivamente. À Matinal, a delegada Caroline Bamberg, que também atuou na organização das doações no local, ressaltou que, com mais estradas liberadas, mais itens que estavam no depósito poderiam ser levados aos seus destinos.

“Quando a gente entrou, isso aqui estava cheio. Foi feita toda a triagem, dividindo as roupas de bebê, criança, adulto, masculino e feminino, e cama, mesa e banho. Estamos finalizando agora e vamos começar a receber também os caminhões para as entregas”, contou na terça à Matinal.

Mantimentos embalados prontos para serem entregues aos municípios atingidos pelas enchentes. Foto: Geovana Benites/Matinal

A reportagem foi até o depósito da Defesa Civil do RS, localizado na antiga sede da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), e presenciou itens em separação como roupas e calçados, além de grandes prateleiras cheias de mantimentos já embalados, prontos para serem levados a municípios do interior. Naquele momento, dois grandes caminhões de carga saíram para as entregas de cestas básicas e colchões em direção a Lajeado e Sapucaia do Sul. 

As duas voluntárias ouvidas pela Matinal participaram da triagem das doações e afirmaram que o espaço estava lotado de roupas, calçados, travesseiros e colchões desde o ano passado, quando as cheias afetaram principalmente o Vale do Taquari. “Pura desorganização, passamos horas procurando pares. Eles disseram que eram calçados ainda de setembro”, conta Jéssica. 

De acordo com relatos, centenas de calçados estavam acumulados no depósito do órgão estadual desde o ano passado. Foto: Jéssica Trisch

De acordo com a tenente Sabrina Pereira Ribas, a Defesa Civil do Estado trabalha com doações durante o ano e por isso mantém um estoque mínimo, com uma equipe fixa no local para fazer as triagens, para atender os municípios atingidos por desastres. “Então, sim, nós tínhamos em alguma medida estoque de alimentos, colchões, água potável, roupas e calçados e kits de higiene e limpeza.”

Em comunicado à imprensa, publicado na quinta-feira (9), o órgão estadual informou que “mais de 200 entregas são feitas por dia, em uma operação que envolve cerca de 70 caminhões fornecidos por instituições públicas, como os Correios, e empresas privadas.” À noite, o governo do estado também informou à imprensa que “é falso o vídeo que circula nas redes sobre doações em um depósito da Defesa Civil que não estão sendo entregues para a população. As imagens foram feitas em um dos dois centros logísticos da Defesa Civil do Estado, que servem para distribuição de donativos para o restante do Rio Grande do Sul. As doações não ficam paradas nos locais”, diz o comunicado.

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