Crônica, Parêntese

A dualidade de Margaret Thatcher, Hugh Hefner, Flávio Alcaraz Gomes, uma búlgara e um gaúcho gay em Praga – Parte 2

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A dualidade de Margaret Thatcher, Hugh Hefner, Flávio Alcaraz Gomes, uma búlgara e um gaúcho gay em Praga – Parte 2 Por Fabiano Golgo Leia a Parte 1 aqui. Um ano mais tarde, assistindo ao Jornal Nacional daqui, sou surpreendido com o casal de apresentadores anunciando que a televisão pública entrava naquele momento em greve.  As emissoras de TV pública, na Europa, são de uma qualidade invejável e, como a BBC, do Reino Unido, todos os países do continente têm seus canais sustentados pela população, através de doações e taxas cobradas com a conta de luz. Não é como no Brasil, onde se dizem públicas emissoras que são, na verdade, estatais. Aí em nosso país, o governante do momento pode mandar e desmandar nesses canais. Aqui na Europa, não. O povo é o dono, então um conselho de notáveis, formado por pessoas tipo reitores, cientistas, artistas, intelectuais, etc., é que escolhe o diretor da televisão e todas as contas são transparentes, a programação tem que manter um nível alto de qualidade e por aí vai. Os jornalistas e funcionários do canal disseram que um novo diretor havia sido eleito pelo conselho, mas que a pessoa escolhida tinha sido membro de um partido político até duas semanas antes de se candidatar ao cargo. Isso o tornava suspeito de partidarismo, algo impensável para a emissora que tem que produzir um jornalismo isento e analítico.  O que eu não esperava é que, em questão de minutos, a população tcheca começasse a se dirigir para o boulevard central, a Václavské náměsti (Praça Venceslau, que não é praça, como o Guaíba não é rio, a Rua da Praia que é Andradas, mas por razões perdidas no passado, são assim chamados), local para onde, historicamente, os tchecos vão quando querem protestar.  Naquela mesma noite, abaixo de neve e temperaturas sob os 10 graus negativos, dezenas de milhares de tchecos prestaram solidariedade aos grevistas, de forma espontânea, sem convocação ou organização, o que mostra ser algo inerente a todos, repudiando a indevida tentativa de inflitração política no canal.  No dia seguinte, duas centenas de milhares de tchecos já faziam vigília no boulevard e na frente do prédio do setor de jornalismo da emissora. Em pleno dia 24 de dezembro, já saboreando a carpa com salada de batatas, que é o cardápio da região da Boêmia para o Natal, recebo o telefonema do correspondente do New York Times em Praga, chamado Eric, que havia retornado aos EUA para as festas de fim de ano.  “Oh, I’m so lucky you didn’t go home for Christmas”*. Ele precisava de um jornalista credenciado pelo jornal (eu fizera um breve estágio lá, apadrinhado por um professor da faculdade e porque eles precisavam de algum hispânico para preencher as cotas raciais) para servir de informante sobre as manifestações, que haviam tomado as mesmas proporções da Revolução de Veludo, em número de manifestantes, mas precisavam ser bem explicadas para o leitor do Novo Continente. Afinal, entender o que leva uma população a considerar algo assim tão subjetivo grave o suficiente para justificar atrapalhar seu Natal e enfrentar temperaturas siberianas requer muito texto.  Confesso que foi […]

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Por Fabiano Golgo Leia a Parte 1 aqui. Um ano mais tarde, assistindo ao Jornal Nacional daqui, sou surpreendido com o casal de apresentadores anunciando que a televisão pública entrava naquele momento em greve.  As emissoras de TV pública, na Europa, são de uma qualidade invejável e, como a BBC, do Reino Unido, todos os países do continente têm seus canais sustentados pela população, através de doações e taxas cobradas com a conta de luz. Não é como no Brasil, onde se dizem públicas emissoras que são, na verdade, estatais. Aí em nosso país, o governante do momento pode mandar e desmandar nesses canais. Aqui na Europa, não. O povo é o dono, então um conselho de notáveis, formado por pessoas tipo reitores, cientistas, artistas, intelectuais, etc., é que escolhe o diretor da televisão e todas as contas são transparentes, a programação tem que manter um nível alto de qualidade e por aí vai. Os jornalistas e funcionários do canal disseram que um novo diretor havia sido eleito pelo conselho, mas que a pessoa escolhida tinha sido membro de um partido político até duas semanas antes de se candidatar ao cargo. Isso o tornava suspeito de partidarismo, algo impensável para a emissora que tem que produzir um jornalismo isento e analítico.  O que eu não esperava é que, em questão de minutos, a população tcheca começasse a se dirigir para o boulevard central, a Václavské náměsti (Praça Venceslau, que não é praça, como o Guaíba não é rio, a Rua da Praia que é Andradas, mas por razões perdidas no passado, são assim chamados), local para onde, historicamente, os tchecos vão quando querem protestar.  Naquela mesma noite, abaixo de neve e temperaturas sob os 10 graus negativos, dezenas de milhares de tchecos prestaram solidariedade aos grevistas, de forma espontânea, sem convocação ou organização, o que mostra ser algo inerente a todos, repudiando a indevida tentativa de inflitração política no canal.  No dia seguinte, duas centenas de milhares de tchecos já faziam vigília no boulevard e na frente do prédio do setor de jornalismo da emissora. Em pleno dia 24 de dezembro, já saboreando a carpa com salada de batatas, que é o cardápio da região da Boêmia para o Natal, recebo o telefonema do correspondente do New York Times em Praga, chamado Eric, que havia retornado aos EUA para as festas de fim de ano.  “Oh, I’m so lucky you didn’t go home for Christmas”*. Ele precisava de um jornalista credenciado pelo jornal (eu fizera um breve estágio lá, apadrinhado por um professor da faculdade e porque eles precisavam de algum hispânico para preencher as cotas raciais) para servir de informante sobre as manifestações, que haviam tomado as mesmas proporções da Revolução de Veludo, em número de manifestantes, mas precisavam ser bem explicadas para o leitor do Novo Continente. Afinal, entender o que leva uma população a considerar algo assim tão subjetivo grave o suficiente para justificar atrapalhar seu Natal e enfrentar temperaturas siberianas requer muito texto.  Confesso que foi […]

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