Crônica, Parêntese

A esperança equilibrista

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A esperança equilibrista
Por Barbara E. Neubarth, Berenice Sica Lamas, Marilena B. Tanger, Mazlowa M. Heck

Vivemos uma situação inédita para todas as gerações representadas hoje no planeta, e isso já foi reafirmado à exaustão. Diante da dor e do sofrimento pela morte de mais de 140 mil brasileiros nos perguntamos: mas precisava? Este imenso número de pessoas – com histórias de vida, realizações, sonhos e projetos –, se pudesse ser colocado de mãos dadas, uma ao lado da outra, faria um cordão humano de Porto Alegre à cidade de Dois Irmãos, por exemplo. E se pensarmos que cada um destes 140 mil tem no seu entorno dez outras pessoas que lhe são próximas, chegamos a 1.400.000 sujeitos impactados por estas perdas. Somados os mortos e seus afetos, nosso cordão humano já deixou para trás a cidade do Rio de Janeiro, no rumo de Natal, Rio Grande do Norte.  

Estamos desacomodados e desconfortáveis com tudo que está a nossa volta, a tristeza é senhora, lembrando Caetano e Gil. No Brasil, após uma lenta abertura democrática no final dos anos 80 e três décadas de democracia, vemos o autoritarismo e a repressão retornarem. São tempos em que grassa a violência, a destruição, a desintegração, o ataque às minorias, o combate à diversidade, ao ambiente verde, a todas as formas de cultura e criatividade. 

Em estudos psicológicos sobre processos mentais da mais tenra idade, encontramos ideias pertinentes à realidade atual. As forças arcaicas presentes desde o nascimento, na herança e constituição de cada bebê, estão aí como pulsão de morte, em que ódio e inveja se opõem à vida, a Eros, à capacidade de fruição, à integração e à criatividade. Não é à toa que cultura, artes e educação se encontrem encolhidas em nosso país, que paradoxalmente é rico pela potência de sua diversidade cultural. Enquanto isso, observamos pessoas que não suportam a crítica e a ela respondem com retaliação; qualquer oposição é entendida como inimiga, porque não aceitam a diversidade nem o diferente – este sendo combatido e destruído. O ressentimento, como um coágulo, interrompe o fluxo de energia positiva e o afloramento de sentimentos como a gratidão, a reparação e a generosidade. Diante das artes e da criatividade – expressões de integração e capacidade de fruição – surge frequentemente a oposição por parte de quem não as consegue vivenciar. São acontecimentos em que maiores são o ódio e a destruição. O infortúnio de um parece o contentamento do outro. É quando a falta de empatia anula o respeito pelo outro. São sujeitos infelizes, que não conseguem fazer contato com emoções e bons sentimentos internos. Isso implica uma grande dificuldade em lidar com as adversidades e aceitar contradições internas, refletir, ficar triste genuinamente, dar o tempo do luto. E por isto o negam como se não existisse. Seriam tais pessoas incapazes de um olhar solidário ou um ato que ultrapasse seu egoísmo e narcisismo?

Mecanismos de defesa, quando aparecem no particular, atingem pessoas ao redor, e sua abrangência de prejuízo se limita ao círculo familiar. Entretanto, quando a caixa de ressonância é um país com mais de 200 milhões de habitantes, o uso de violência, a concentração de poder, a repressão transformam-se em governos com características extremamente autoritárias. É quando tudo reverbera em nacionalismo exacerbado. Neste caso as críticas são aniquiladas mediante violência e terror. Um novo fenômeno surge, na abundância de fake news – notícias falsas, inverídicas –, gerando o descompromisso com a verdade. Este verdadeiro vírus informacional atinge facilmente os processos neurais primitivos de sobrevivência, tornando a mente humana sua vítima fácil.  É o medo sendo utilizado para manipular as pessoas. Para não corrermos o risco de banalizar o mal, Hannah Arendt alerta para o perigo político representado pela associação entre irreflexão e incompetência para julgar. Segundo ela é imprescindível a atividade de pensar, raciocinar e realizar julgamento crítico, que leve em consideração o sensus communis, como afirma Kant, um senso de comunidade que nasce da interação entre pessoas que se respeitem e que não tenham medo um do outro.                                                       

Animais políticos

Entendemos que há uma relação profunda entre os que estão no poder e as políticas e práticas públicas em diferentes segmentos da vida em sociedade. Não obstante, há muita confusão e desinformação entre os conceitos de política – como um campo de conhecimento das ciências – e de partidarismo. Pensando no conceito abrangente da palavra ‘política’, evocamos a definição de Aristóteles, ao afirmar sermos zoon politikon (em grego), ou seja, somos por natureza animais políticos (animalis socialis), sociais. Vivemos juntos em comunidade por necessidade, por interdependência. Em que atalho do caminho perdemos a capacidade de sermos – como nação – empáticos, respeitosos e solidários? Que comportamento coletivo estamos construindo?

Em certa medida somos todos tomados por afetos considerados negativos, como inveja, raiva, ciúmes, medo, angústia, desprezo.  É frequente nossa dificuldade em lidar com tais sentimentos agressivos e insatisfatórios, inerentes à formação do sujeito. Reconhecer o lado sombrio é um primeiro passo para compreender a dimensão emocional e nos auxiliar a não agir prejudicando o outro ou até a nós mesmos. É certo que o egoísmo não pode ser superado pela pregação moral que, ao contrário, sempre nos manda de volta a nós mesmos; mas, como sublinhou Kant, o egoísmo somente pode ser contraposto pelo pluralismo, uma estrutura do espírito em que o ‘eu’, em vez de ficar envolto em si mesmo, como se fosse o mundo inteiro, possa se considerar um cidadão do mundo. 

Por força de nossa formação profissional buscamos entender: que motivos estão por trás de questões como estas? Como chegamos aqui? As coisas poderiam ser diferentes? Qual o papel dos caminhos da História? Em momentos de extrema dificuldade como os que estamos vivendo, queremos sair rapidamente do fundo do poço, e voltar aos avanços sociais já conquistados, na esperança de que políticas de inclusão possibilitem diminuir a enorme desigualdade social e que se reorganizem políticas de proteção ao trabalho e ao trabalhador. E que, na educação, possa fluir o acesso a escolas de qualidade, para que no próximo censo haja aumento da qualidade e redução de analfabetos no Brasil. Almejamos também políticas de defesa do ambiente, este legado que a natureza nos oferece – amplo território, imensas florestas, grandes rios. E que nosso Sistema Único de Saúde, o SUS, possa ser compreendido e devidamente valorizado. 

É frequente que, em busca de um quase milagre, pensamentos mágicos nos levem a possíveis salvadores da pátria. Por isto precisamos ser cautelosos. Estamos diante de uma nova possibilidade de escolher, ao menos em nossa aldeia, aqueles que vão dirigir a cidade nos próximos anos. E no horizonte um pouco mais longe, o próprio dirigente da nação. Examinemos: quais motivos inconscientes podem estar na escolha de nossas/os candidatas/os? O interjogo de identificação, projeção e introjeção se presentifica, como quando éramos bebês. Desejamos que as necessidades básicas e de sobrevivência sejam supridas. Agora, em um nível adulto e maduro, precisamos estar atentos a nossa capacidade de autonomia e liberdade. A escolha de um líder deve ser consciente do poder que isto nos confere. As/os escolhidas/os devem ser capazes de deixar fluir o conjunto de fatores que possibilitam viver. Que saibam cuidar. 

Antes de eleições uma reflexão é sempre necessária, confrontar valores, conhecer a história e os feitos da/o candidata/o. Não nos deixemos levar pela aparência; importante é a essência, o comprometimento com as diferentes categorias sócio-econômico-culturais. Para, ao apertarmos na urna o número da/o futura/o líder, sairmos com a esperança que ela/ele realmente nos represente. E que trate bem sua criança interna. Saiba trabalhar em equipe, sem invejar o brilho dos outros. Tenha resolvida sua voracidade infantil e controlados seus impulsos agressivos e destrutivos inatos. E que seja capaz de fruição e gratidão, de gestos de delicadeza e gentileza. Não esquecendo que tudo aquilo que esteve no inconsciente nunca perderá a influência sobre o indivíduo, reverberando no social, na vida coletiva, é preciso que esta possa ser pensada e muito analisada. Para que uma dor assim pungente não viva inutilmente (…), e a esperança equilibrista continue, evocando aqui as palavras – e homenageando – de Aldir Blanc.

* Este texto foi escrito coletivamente. Todas as autoras são psicólogas.  

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