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Antinatalismo

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Antinatalismo

“Eu não sirvo pra lidar com mães. Hoje tava com uma pessoa que tá com um bebê de menos de um mês e quando vi eu já tinha dado todo o panorama do antinatalismo. Não foi na maldade e ela concordou, mas não dá pra devolver a cria né.” (@rosiemadderr, no Twitter, em 5 de novembro)

“Quer me fazer feliz é me mandar matéria sobre antinatalismo.” (@ffffffabi, no Twitter, em 8 de novembro)

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“Eu não sirvo pra lidar com mães. Hoje tava com uma pessoa que tá com um bebê de menos de um mês e quando vi eu já tinha dado todo o panorama do antinatalismo. Não foi na maldade e ela concordou, mas não dá pra devolver a cria né.” (@rosiemadderr, no Twitter, em 5 de novembro)

“Quer me fazer feliz é me mandar matéria sobre antinatalismo.” (@ffffffabi, no Twitter, em 8 de novembro)

“Hoje na aula de ecologia o prof vai converter todo mundo pro antinatalismo ihaaa.” (@galvesduarte, no Twitter, em 10 de novembro)

O que é: 

  • Antinatalismo é uma posição filosófica que atribui um valor negativo ao nascimento, argumentando que as pessoas deveriam se abster de procriar pois esse seria um ato moralmente ruim. 
  • O termo provavelmente foi usado pela primeira vez pelo filósofo belga Théophile de Giraud no livro L’art de Guillotiner les Procréateurs: Manifeste Anti-nataliste (2006). 
  • No mesmo ano, no livro Better Never to Have Been (2006), o filósofo David Benatar, da Universidade da Cidade do Cabo, afirma que a humanidade deveria parar de procriar até que todos os seres humanos sejam extintos da Terra.

Quem usou: 

“Não seria melhor fazer um buraco na Terra e acabar com tudo? Quem se pergunta é Thomas, 29 anos, morador do leste da Inglaterra e um antinatalista – ou seja, alguém que defende que os humanos não deveriam mais ter filhos. Embora sua ideia de explodir o mundo seja um pensamento fantasioso, ele tem uma convicção mais concreta: a de que nossa espécie deve gradualmente se extinguir. A filosofia antinatalista, que remonta à Grécia antiga, teve um impulso recente com as mídias sociais. No Facebook e no Reddit, por exemplo, há dezenas de grupos e fóruns, alguns com milhares de membros. No Reddit, a comunidade “r/antinatalism” tem cerca de 35 mil membros, enquanto apenas um das dezenas de grupos do Facebook com esta pauta tem mais de 6 mil participantes. Os antinatalistas estão espalhados pelo mundo e têm uma variedade de razões para suas reivindicações. Entre elas, estão a preocupação com a herança genética, com a superpopulação do planeta, com o meio ambiente, de não querer que crianças sofram – e com a falta de ‘consentimento’, a noção de que as pessoas são colocadas no mundo sem poderem opinar sobre isso. Todos, porém, têm a convicção de que a procriação humana deve ser detida. E embora façam parte de um movimento pequeno, algumas de suas opiniões, particularmente sobre o uso de recursos do planeta, estão cada vez mais ganhando espaço entre os grandes temas em discussão no mundo. Embora não seja um antinatalista, o príncipe Harry disse recentemente que ele e sua esposa planejavam ter no máximo dois filhos, devido à preocupação com o meio ambiente.” (Jonathan Griffin, BBC News, em 14 de agosto de 2019)

“A lei brasileira prevê que uma pessoa só pode se submeter a procedimento para ficar estéril se tiver ao menos dois filhos vivos ou 25 anos. Desde os 18, o universitário Vinícius Machado esperava o dia de atingir a idade limite. Quando chegou lá, fez uma vasectomia. Nascido em Minas Gerais e hoje radicado no Rio de Janeiro, Machado é adepto do antinatalismo, corrente que prega a extinção voluntária da humanidade por meio do fim da procriação. Os antinatalistas ressaltam que a sua é uma escola de pensamento com milênios de tradição, que tem como maior expoente atual o filósofo sul-africano David Benatar, professor da Universidade da Cidade do Cabo. Em sua obra, Benatar sustenta que, eticamente, a coisa certa a fazer é não ter filhos. A presença de prazer e a ausência de dor são coisas boas, argumenta ele. A presença de dor é má. A ausência de prazer, por sua vez, não é má. Uma pessoa que vem ao mundo experimentará algo bom (prazer) e algo ruim (dor). Outra que não vier terá algo bom (ausência de dor) e algo que não é mau (ausência de prazer). Portanto, segundo ele, não nascer é superior a nascer. ‘Nós não deveríamos dar vida para pessoas que no futuro vão enfrentar sofrimento. Sim, também há coisas boas. Mas a questão é se essas coisas boas valem a pena. As pessoas esquecem o quão ruins são as coisas ruins da vida’, afirmou Benatar, em entrevista à BBC. O brasileiro leu o sul-africano e virou um militante. Abriu no Facebook a página Antinatalismo – Não ter filhos é um ato de amor, que já acumula 50 mil seguidores. Lá, fez sua declaração de princípios: ‘Trabalhamos com a premissa de que ter filhos é uma escolha que, como todas as outras, tem consequências éticas. E a forma mais funcional de poupar o sofrimento humano e animal é trabalhando para diminuir as ideologias do nascidouro, amor parental (principalmente o materno) e a da sacralidade da vida. Estamos juntos pela mais nobre luta da humanidade, a única que redimiria todos os seus pecados: deixar de existir’. No início, Machado costumava postar textos longos e argumentativos, mas as reações eram chochas. Começou então a traduzir os conceitos em memes, o que fez a audiência, as curtidas e os compartilhamentos explodirem. Em uma postagem recente, por exemplo, ele divulgou um desenho em que a Terra, com a Amazônia em chamas, conversa com um outro planeta, vestido de médico. ‘Doutor, é muito grave?’, pergunta a Terra. ‘É, sim, você tem humanos!’, responde o outro.” (Itamar Mello, na Zero Hora, em 19 de setembro de 2019) 

“David Benatar pode ser o filósofo mais pessimista do mundo. ‘Antinatalista’, ele acredita que a vida é tão ruim, tão dolorosa, que os seres humanos deveriam parar de ter filhos por motivos de compaixão. ‘Enquanto boas pessoas fazem de tudo para poupar seus filhos do sofrimento, poucos parecem notar que a única maneira garantida de prevenir todo o sofrimento de seus filhos é, em primeiro lugar, não trazer essas crianças à existência’, escreve no livro Better Never To Have Been. Na opinião de Benatar, a reprodução é intrinsecamente cruel e irresponsável – não apenas porque um destino horrível pode acontecer a qualquer pessoa, mas porque a própria vida é ‘permeada pela maldade’. Em parte por esse motivo, ele pensa que o mundo seria um lugar melhor se a vida senciente desaparecesse por completo. Para um trabalho de filosofia acadêmica, Better Never To Have Been encontrou um público extraordinariamente amplo. Tem 3,9 estrelas no GoodReads, onde um revisor o chama de ‘leitura obrigatória para pessoas que acreditam que a procriação é justificada’. Há alguns anos, Nic Pizzolatto, o roteirista da série True Detective, leu o livro e fez de Rust Cohle, o personagem de Matthew McConaughey, um antinatalista niilista. (‘Acho que a consciência humana é um trágico passo em falso na evolução’, diz Cohle.) Quando Pizzolatto mencionou o livro à imprensa, Benatar, que vê suas próprias opiniões como mais ponderadas e humanas do que as de Cohle, emergiu de uma vida reclusa para esclarecê-las em entrevistas. Agora, ele publicou A Situação Humana: Um Guia Sincero para as Maiores Perguntas da Vida, um refinamento, expansão e contextualização de seu pensamento antinatalista. O livro começa com uma epígrafe dos Quatro Quartetos, de TS Eliot – “A humanidade não suporta muita realidade” – e promete fornecer respostas ‘sombrias’ a perguntas como ‘Nossas vidas têm sentido?’ E ‘Seria melhor se pudéssemos viver para sempre?’. ” (Joshua Rothman, na revista The New Yorker, em 27 de novembro de 2017)

Assista a um debate sobre antinatalismo com o filósofo David Benatar (em inglês):


Cláudia Laitano é jornalista, com especialização em Economia da Cultura. É mestranda em Literatura pela UFRGS, com pesquisa sobre Carlos Reverbel. É autora de “Agora eu era” e “Meus livros, meus filmes e tudo o mais”, ambos pela L&PM.

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