Diário da espera | Parêntese

Ana Boff de Godoy: A herança do vírus

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Ana Boff de Godoy: A herança do vírus Beto, Chaminé: bestiais
Tempos líquidos, de muitas convicções e poucas provas, de incredulidade nas ciências e na razão, de muita crença em palavras ocas e conceitos tortos. Tempos difíceis pra quem sempre apostou na troca de ideias como pilar pra construção de uma sociedade sadia. Tempos em que precisamos defender o óbvio, defender as gentes e nos defender uns dos outros. Tempos de distanciamento social e aproximação virtual. Talvez por isto, tempos de contar histórias e, por meio delas, tentar tocar corações e cabeças enrijecidos pela estranheza do próprio tempo.  Conto, então, uma história minha e de muitos outros, na esperança de que a estranheza se torne cuidado. Hoje faz 65 dias que os elementos dessa foto começaram a entrar na minha vida e a fazer parte do meu dia-a-dia. Faz 65 dias que tive os primeiros sintomas da Covid-19: tosse seca, dor de cabeça, dores no corpo, febre, dificuldade para respirar, falta de ar… nessa ordem. Não tenho como traçar a rota do vírus, mas provavelmente o carnaval em lugar turístico tenha trazido mais do que purpurina pra dentro de casa. O marido foi o primeiro a mostrar sintomas de uma “gripezinha”. Depois o filho mais velho e a filha mais nova, na sequência. Poucos sintomas, e bem leves. Em poucos dias estavam bem e, por isso, nem chegamos a nos preocupar. Fui a última a me sentir mal. Dia 31 de março, dois dias após o aniversário da minha filha, precisei ir à emergência. Não havia testes disponíveis, somente para os casos graves, ou seja, para aqueles que já estavam internados na UTI. Meu caso não era tão grave, então me foi recomendado isolamento, todas as medidas de cuidados que vocês já estão carecas de saber, e alguns desses remédios da foto pra atenuar os sintomas e uso de oxigênio, caso a falta de ar piorasse. Piorou. Mas como faço parte de uma classe privilegiada (que tem casa, comida, emprego estável e salário em dia), pude seguir meu isolamento em casa, com um concentrador de oxigênio e um cilindro extra, caso faltasse luz ou precisasse ir correndo para o hospital. A maioria absoluta das pessoas do país tem que ser internada para poder receber oxigênio. E hoje sabemos que centenas delas morreram a caminho do hospital sem conseguir respirar. Eu, não. Por três semanas fiquei ligada ao concentrador por um delicado fio transparente de 10 metros de comprimento, o que me possibilitou mobilidade dentro da minha própria casa. Casa que muita gente nem tem.  A febre passou, as dores no corpo diminuíram, o ar começou a voltar, mas voltou também uma asma de infância, que julgava finda desde a adolescência. Isso tem sido bem comum, fiquei sabendo. Asma persistente, que me solicitou remédios tão fortes que fizeram língua, boca e garganta inchar e descamar. Tive edema. Por dias não consegui engolir nem a saliva. Oxigênio de novo. Corticoides. Antialérgicos. Broncodilatadores. Espaçadores. Hoje estou bem. Não sinto gosto de nada ainda. Minha língua é áspera, meu peito chia, quase morro engasgada quando […]

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