Arthur de Faria | Parêntese | Porto Alegre: uma biografia musical | Série As Origens

Arthur de Faria: série As Origens, Parte V

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Arthur de Faria: série As Origens, Parte V
Primeiro foram os “alemães” (aspas porque ainda não havia Alemanha – só em 1871). Em busca de melhores condições emigraram em massa para o Rio Grande do Sul entre 1824 e 1839, umas mais ou menos 5 mil almas. Na sua maior parte, eram camponeses que haviam perdido suas terras. E terra – em tese – era o que não faltava no sul do Brasil. Chegaram e pegaram as melhores, perto da capital. Daí, quando a partir de 1875 vieram os italianos, já tiveram de ir mais longe, instalando-se na serra gaúcha. Até o final do século, navios trouxeram para o Rio Grande do Sul 84 mil oriundi. Mais abertos a integrar-se com a população local, mais urbanos que os alemães e falando uma língua neolatina, bem mais próxima do português, eles também chegaram em maior número e muitos fixaram-se na capital. Em 1890, são 10% dos 52 mil porto-alegrenses. Com sua forte tradição musical, evidentemente havia muitos músicos entre eles. Alguns vão ganhar seu sustento tocando nas esquinas, vários deles em grupos cuja formação seria hoje curiosa, mas que era comum então: harpa, flauta e violinos. O repertório era de seleções líricas – os greatest hits de então –, preferencialmente de Verdi. O dinheirinho era engrossado com récitas noturnas em restaurantes. Como conta Athos Damasceno, no seu fundamental Palco, Salão e Picadeiro em Pôrto Alegre no Século XIX (Editora Globo, 1956), havia um virtuoso harpista milanês, de quem infelizmente não se guardou o nome, que tocava só para o público mais seleto, nos restaurantes mais finos. O que não evitou que fosse protagonista de um causo impagável, numa das tantas épocas em que as serenatas viraram crime. Voltava ele para casa, tarde da noite, com seu instrumento na capa, quando a polícia o surpreende e o leva preso. Aí, ao tentar explicar para o delegado que não era um reles seresteiro, recebeu como resposta um incontestável argumento: – Mas também, não se pode deixar escapar um violão deste tamanho! Havia também o violonista negro João Batista, que, cego, e virtuose em seu instrumento, jamais aceitava esmolas. Tocava apenas nas casas de comércio que o convidassem, mediante um cachê que poderia até ser irrisório. Mas era cachê. * * * Aqui vale um parêntese para três fatos que marcariam para sempre o imaginário local: 1) Desde 1861, quando voltara da cidade de Alegrete para a capital, o professor José Joaquim de Campos Leão parecia estranho. Na década de 1860, é processado por sua esposa, que o julgava maluco, e por isso foi examinado pelos médicos da província e, depois, da capital do Império, acusado de monomania. No Rio de Janeiro, o médico do próprio Imperador Dom Pedro II declarou sua sanidade. No fim de seus anos, publicou uma impressionante Ensiqlopédia ou Seis Mezes de Huma Enfermidade, repassando tudo que havia escrito antes e contando dessa dura história. Foi muito hostilizado por suas excentricidades. Coisas como rebatizar-se com a alcunha de Qorpo Santo, ou escrever peças teatrais tão radicais como a que terminava com um incêndio no palco do teatro. Passaria quase um […]

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