Parêntese, Porto Alegre: uma biografia musical, Série As Origens

Arthur de Faria: Série As Origens – Parte XIX

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Arthur de Faria: Série As Origens – Parte XIX Em 1910, Porto Alegre já tinha 130.227 habitantes – quase o dobro da população de apenas 10 anos antes. E 16% eram estrangeiros, na sua maior parte portugueses, italianos e alemães. A taxa de alfabetização era alta para a época: 60%. Alfabetizados que podiam optar entre sete jornais diários (sete!) e, para divertir-se, bailes, saraus, piqueniques e cinemas. Poucos anos depois se comemoraria a tal “remodelação do espaço urbano”. Inspirada na que o prefeito Pereira Passos havia feito no Rio de Janeiro, ela consistiria basicamente na remoção dos pobres do Centro para áreas mais periféricas. Começada pelo intendente e engenheiro militar Otávio Rocha (de 1924 a 1928), pegaria fogo a partir da década seguinte, com Alberto Bins na prefeitura (1928 a 1937) – por trás de uma medida alardeadamente higienista, mal se disfarçava o preconceito. O processo ainda mal iniciara, mas o sentimento já estava ali, só não sabia ao certo a via do seu desafogo. Jornal O Independente, de 20 de março de 1910:  Vagabundos e meretrizes estão pedindo um freio: o Acre está despovoado; ali faltam mulheres; meretrizes descaradas para lá, onde talvez se corrijam. Matto Grosso precisa de homens; vagabundos exportados! Quem vem bem a calhar com essa vontade de renovar e “limpar” o centro de Porto Alegre é o arquiteto alemão Theodor Wiederspahn. Tão inseparável hoje da cara da cidade que é tratado na intimidade como Theo, o cara assinou nada menos que os prédios do Hotel Majestic (hoje Casa de Cultura Mário Quintana), da Cervejaria Bopp (Shopping Total), dos Correios e Telégrafos (Memorial do Rio Grande do Sul), da Secretaria da Fazenda, do Edifício Ely (Tumelero), da Faculdade de Medicina e por aí vamos. Nasceu em Wiesbaden em 1878, chegou na cidade aos 30 anos, e morreu amargurado em 1952, depois de, a partir da Segunda Guerra Mundial, ser perseguido pelo simples fato de ser alemão. A Casa Mariante foi a primeira a publicar partituras de compositores locais. Entre 1919 e 1927, trabalhou adoidado, imprimindo em São Paulo. Já pela parte do registro fonográfico, vivia-se a já citada utopia da Casa A Electrica e seus Discos Gaúcho. Efervescência, portanto.  Voltando aos cinemas, o primeiro prédio adaptado exclusivamente para projeção de imagens em movimento é o Recreio Ideal, na praça Senador Florêncio, inaugurado dia 20 de maio de 1908 e equipado com um cinematógrafo Pathé. A partir do final da década de 1910 ele passa a completar o programa dos filmes com shows dos melhores músicos da cidade. Isso, além dos instrumentistas que acompanhavam com música as projeções, e sem contar com as orquestrinhas que tocavam nos saguões, entre um programa e outro. Graças ao cinema, trabalho para músicos era o que não faltava na Porto Alegre dos primeiros anos do século XX. Nem em lugar nenhum do Brasil. E a cidade estava tomada pela febre cinematográfica. Achylles Porto Alegre, sobre o cinema (lembre: mudo), em 1920:  (…) a “arte do silencio” é hoje a “cachaça” de toda a gente, e a loucura do bello sexo.O cinema pode dizer-se acabou de matar a “vida […]

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Em 1910, Porto Alegre já tinha 130.227 habitantes – quase o dobro da população de apenas 10 anos antes. E 16% eram estrangeiros, na sua maior parte portugueses, italianos e alemães. A taxa de alfabetização era alta para a época: 60%. Alfabetizados que podiam optar entre sete jornais diários (sete!) e, para divertir-se, bailes, saraus, piqueniques e cinemas. Poucos anos depois se comemoraria a tal “remodelação do espaço urbano”. Inspirada na que o prefeito Pereira Passos havia feito no Rio de Janeiro, ela consistiria basicamente na remoção dos pobres do Centro para áreas mais periféricas. Começada pelo intendente e engenheiro militar Otávio Rocha (de 1924 a 1928), pegaria fogo a partir da década seguinte, com Alberto Bins na prefeitura (1928 a 1937) – por trás de uma medida alardeadamente higienista, mal se disfarçava o preconceito. O processo ainda mal iniciara, mas o sentimento já estava ali, só não sabia ao certo a via do seu desafogo. Jornal O Independente, de 20 de março de 1910:  Vagabundos e meretrizes estão pedindo um freio: o Acre está despovoado; ali faltam mulheres; meretrizes descaradas para lá, onde talvez se corrijam. Matto Grosso precisa de homens; vagabundos exportados! Quem vem bem a calhar com essa vontade de renovar e “limpar” o centro de Porto Alegre é o arquiteto alemão Theodor Wiederspahn. Tão inseparável hoje da cara da cidade que é tratado na intimidade como Theo, o cara assinou nada menos que os prédios do Hotel Majestic (hoje Casa de Cultura Mário Quintana), da Cervejaria Bopp (Shopping Total), dos Correios e Telégrafos (Memorial do Rio Grande do Sul), da Secretaria da Fazenda, do Edifício Ely (Tumelero), da Faculdade de Medicina e por aí vamos. Nasceu em Wiesbaden em 1878, chegou na cidade aos 30 anos, e morreu amargurado em 1952, depois de, a partir da Segunda Guerra Mundial, ser perseguido pelo simples fato de ser alemão. A Casa Mariante foi a primeira a publicar partituras de compositores locais. Entre 1919 e 1927, trabalhou adoidado, imprimindo em São Paulo. Já pela parte do registro fonográfico, vivia-se a já citada utopia da Casa A Electrica e seus Discos Gaúcho. Efervescência, portanto.  Voltando aos cinemas, o primeiro prédio adaptado exclusivamente para projeção de imagens em movimento é o Recreio Ideal, na praça Senador Florêncio, inaugurado dia 20 de maio de 1908 e equipado com um cinematógrafo Pathé. A partir do final da década de 1910 ele passa a completar o programa dos filmes com shows dos melhores músicos da cidade. Isso, além dos instrumentistas que acompanhavam com música as projeções, e sem contar com as orquestrinhas que tocavam nos saguões, entre um programa e outro. Graças ao cinema, trabalho para músicos era o que não faltava na Porto Alegre dos primeiros anos do século XX. Nem em lugar nenhum do Brasil. E a cidade estava tomada pela febre cinematográfica. Achylles Porto Alegre, sobre o cinema (lembre: mudo), em 1920:  (…) a “arte do silencio” é hoje a “cachaça” de toda a gente, e a loucura do bello sexo.O cinema pode dizer-se acabou de matar a “vida […]

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