Crônica, Parêntese

Árvore de família

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Árvore de família Pensando bem, toda a família vivia do cheiro da madeira. A mãe e a irmã seguravam nos dedos a madeira feita folha de papel, impressa com tinta, tornada documento. O pai carregava na pele o cheiro cru da madeira cortada no serrote. E ela, dias e noites, inebriada pela madeira feita livros, impregnada de cheiros de gentes, de cravos, citronela, outros livros.  O cheiro de um quarto de livros é o cheiro de um universo em disputa com as naturezas do perecível e do imperecível. Um quarto de livros, assim como uma biblioteca, emprestam um pouco aos sentidos a sensação de como cheira o tempo, ou melhor dizendo, de como as coisas carregam o cheiro dos tempos. Compostos e mutuamente penetrantes. No sutil correr dos dias, a madeira do livro novo já cheira diferente, já guarda o toque dos dedos de uma, de muitos talvez.  A madeira foi uma árvore. Uma árvore que seguramos nas mãos, que certifica nosso nascimento, que serve de leito para nossas mortes. A madeira é ainda uma árvore da qual esquecemos, desquitados dos processos produtivos, desquitados de nós mesmos.  Como essa família, quantas outras não são feitas de madeira? E diferente dessa família, quantas outras não foram eliminadas para que a madeira virasse muito menos que um livro; virasse cinza e pasto?  Ela continuará construindo paredes com os livros porque não são eles que estão botando o mundo a perder. Incendiadores de florestas, esses, sim, estão. Sara Caumo Guerra tem graduação em História e em Ciências Sociais, mestrado em Antropologia Social pelo PPGAS-UFRGS, onde atualmente faz seu doutorado. Se interessa por vidas e narrativas.

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Pensando bem, toda a família vivia do cheiro da madeira. A mãe e a irmã seguravam nos dedos a madeira feita folha de papel, impressa com tinta, tornada documento. O pai carregava na pele o cheiro cru da madeira cortada no serrote. E ela, dias e noites, inebriada pela madeira feita livros, impregnada de cheiros de gentes, de cravos, citronela, outros livros.  O cheiro de um quarto de livros é o cheiro de um universo em disputa com as naturezas do perecível e do imperecível. Um quarto de livros, assim como uma biblioteca, emprestam um pouco aos sentidos a sensação de como cheira o tempo, ou melhor dizendo, de como as coisas carregam o cheiro dos tempos. Compostos e mutuamente penetrantes. No sutil correr dos dias, a madeira do livro novo já cheira diferente, já guarda o toque dos dedos de uma, de muitos talvez.  A madeira foi uma árvore. Uma árvore que seguramos nas mãos, que certifica nosso nascimento, que serve de leito para nossas mortes. A madeira é ainda uma árvore da qual esquecemos, desquitados dos processos produtivos, desquitados de nós mesmos.  Como essa família, quantas outras não são feitas de madeira? E diferente dessa família, quantas outras não foram eliminadas para que a madeira virasse muito menos que um livro; virasse cinza e pasto?  Ela continuará construindo paredes com os livros porque não são eles que estão botando o mundo a perder. Incendiadores de florestas, esses, sim, estão. Sara Caumo Guerra tem graduação em História e em Ciências Sociais, mestrado em Antropologia Social pelo PPGAS-UFRGS, onde atualmente faz seu doutorado. Se interessa por vidas e narrativas.

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