Crônica | Parêntese

Caminhos de fogo

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Caminhos de fogo

Milene Friedrich Cabral

No final do ano passado participei de uma dinâmica que deixou muita gente curiosa. Andei sobre um tapete de brasas. Durante alguns segundos meus pés descalços percorreram cerca de 8 m de distância numa superfície que marcava elevadas temperaturas. E assim me tornei firewalker, ou em tradução livre: caminhante do fogo.

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Desde então, as pessoas tem me perguntado como foi a experiência, a maioria delas querendo saber se é mesmo verdade que não queima. Respondo que foi tranquilo. Não tive medo. Hesitei por um instante apenas. Seria realmente capaz de dar aquele primeiro passo? Mas esse instante logo ficou para trás. A equipe responsável pela dinâmica havia preparado cada um dos participantes com extremo cuidado. A gente só precisava caminhar num certo ritmo, nem muito rápido para o corpo refrigerar, nem muito devagar para não tostar as solas dos pés. Fazendo isso, a gente consegue sentir o calor, mas queimar, não queima.

Quando dou meu relato, algumas pessoas acham que sou corajosa, outras que sou maluca. Não sei. ainda que pareça coragem para alguns e maluquice para outros, tudo foi realizado de forma segura e profissional. Além disso, existia um propósito da minha parte para eu me lançar naquele desafio. Eu sabia o que ia encontrar pela frente, sabia como passar por aquilo e, principalmente, sabia onde queria chegar.

A história toda é bem simples. Há um tempo eu fiz uma escolha: viver. É que eu não estava vivendo de verdade, só fazia de conta. No fundo, eu achava que tinha algo de errado comigo. Não era pelo fato de não enxergar, nem pelos altos e baixos relacionados ao transplante renal. A matéria aqui era outra. Eu acreditava em todo mundo, mas não acreditava em mim. Eu não me sentia capaz. E quando percebi isso, escolhi viver.

Na época eu estava me preparando para fazer o caminho de Santiago de Compostela. A viagem, pelo menos para mim, parecia certa. Um mês antes da data do embarque, porem, os organizadores me chamaram para uma reunião, mudando as regras do jogo nas vésperas da partida e criando condições de última hora para que eu pudesse viajar com eles. Não concordando com a conduta, resolvi não fazer o caminho, não daquela vez.

Essa súbita mudança de rota me deixou extremamente aborrecida, frustrada, com raiva e muitas outras coisas. Eu já havia pagado parte da viagem, comprado equipamentos e criado expectativas. A arte do desapego era algo que eu planejava vivenciar no decorrer do caminho, não fora dele. Nos dias, nos meses seguintes, fui esvaziando a bagagem, abrindo mão de tudo aquilo que já não servia mais para mim, inclusive aquela Milena de faz de conta, que queria trilhar caminhos distantes, mas que mal se aventurava sozinha por sua própria cidade.

Certa vez, enquanto eu ainda me preparava para a rota portuguesa de Santiago, meu professor de pilates deu uma ideia para o meu treinamento. “Sabe, Milena… Eu acho que o melhor treinamento, a melhor maneira de tu te preparar para o caminho é andar por Porto Alegre. Nos finais de semana, tu pega, coloca o tênis e sai caminhando pelas ruas. Um monte de obstáculos… Diferentes climas num único dia. Quer melhor maneira de se preparar?”

Fiquei imaginando aquelas ruas possíveis, seus buracos, placas nas calçadas, janelas mal localizadas e pontos excessivamente barulhentos. Todos aqueles espaços e mentes onde a acessibilidade ainda não chegou.

Embora eu não tenha colocado a ideia em prática, não da forma como meu professor sugeriu, suas palavras tem servido como bússola nessa atual etapa. Meu caminhar solo pela cidade onde moro ainda é recente. Há muitos lugares para explorar, obstáculos a transformar e limites a superar, mas sei que a cada passo me aproximo da minha meta, que é viver de verdade, viver com o máximo de autonomia. Santiago de Compostela não veio e não sei se irei ao seu encontro, então sigo caminhando, nem muito rápido, nem muito devagar, por Porto Alegre, que as vezes pode ser bem mais desafiador do que andar sobre brasas.


Milena Friedrich Cabral ficou cega aos 13 anos e desde então vem descobrindo maneiras de rever a vida. A escrita veio da necessidade de expressar seu mundo interior. É formada em Ciências Sociais e especialista em Literatura Brasileira pela UFRGS. É co-autora dos livros No Meu Tempo – histórias de infância em Porto Alegre (Libretos, 2007); Apolinário e Esme – luz e sombra no Paralelo 30 (Nova Prova, 2009) e de A Descoberta da Cidade – memórias em Porto Alegre (Dublinense, 2013).

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