Ensaio, Parêntese

Caroline Moraes: Yami – ensaios sobre o butô

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Caroline Moraes: Yami – ensaios sobre o butô Fotografar o corpo em movimento, e especialmente a dança, é parte importante da minha vida, já há alguns anos.  Em 2010, participei da criação do Coletivo 7×7, do qual fiz parte durante mais de cinco anos. Nossa proposta inicial era articular conversas artísticas no universo da dança, diálogo de que sentíamos falta, na época. Com o tempo, passamos a cobrir importantes festivais e pude ver e registrar, com texto e imagem, centenas de peças e espetáculos, com artistas nacionais e internacionais, importantes nomes do mundo da dança, espetáculos da cena independente, performances e outras linguagens que usam o corpo como ferramenta. E a relação com a dança, que já era intensa no “gostar de dançar”, ficou também como marca no olhar.  Foi durante uma exposição sobre o bailarino e coreógrafo japonês Kazuo Ono, realizada pelo Sesc em São Paulo, que surgiu a vontade de olhar para o Butô como uma pesquisa da imagem. Uma dança imagética, sem gênero, jogo da luz e da sombra. Criada no Japão na pós-repressão americana, ela reflete a angústia, a impossibilidade do dizer, a dor de perder as raízes. O desejo era experimentar uma pesquisa poética em torno das formas, possibilidades e relações do corpo com o butô. Uma dança sem código, sem forma, uma busca pela liberdade.  Convidei para fazer esse trabalho como uma pesquisa de imagem o artista João Hannuch, ator e diretor de teatro, que havia estudado o butô para a construção de um personagem. Nessa pesquisa, que intitulei Yami – Ensaios sobre o Butô, minha relação com o objeto fotografado seria, claro, bem diferente do que vinha fazendo, ao acompanhar espetáculos. A primeira sessão foi no parque do Ibirapuera, em São Paulo. Nesse dia, levamos figurinos variados, ainda em estado de experimentação, e logo fomos deixando quase todos de lado, até que chegamos a este, único: a saia branca, o rosto pintado e o corpo sujo.  Em um segundo momento, fomos até um espaço vazio de praia, no litoral de São Paulo., onde conseguimos a claridade. As fotos dessa sessão, assim como no Ibirapuera, aconteciam no ritmo de uma dança: ele ia improvisando em um movimento contínuo, às vezes por uma hora inteira, e eu fotografava. Sem ensaio ou acordos, o fluxo da dança de João vinha do desejo do corpo de se mover, das interações com o ambiente e dos sentimentos que daí surgiam. Eu, como fotógrafa, buscava, também no improviso, a melhor forma de registrar.  Na terceira e última sessão, que aconteceu em um estúdio, conseguimos trabalhar as fotos escuras, com o controle de luz e o fundo preto. Assim, o ensaio teve desde muita luz, na praia, até a escuridão fechada. Em seu livro Butô – pensamento em evolução, a pesquisadora das artes do corpo Christine Greiner destaca alguns conceitos caros ao butô. Sobre Yami, “piscadela da luz ou trevas da noite”, ela conta que David Goodman o descreve como uma “repetição sem fim, uma mudança constante, uma forma de tempo sem modelo onde as coisas não são […]

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Fotografar o corpo em movimento, e especialmente a dança, é parte importante da minha vida, já há alguns anos.  Em 2010, participei da criação do Coletivo 7×7, do qual fiz parte durante mais de cinco anos. Nossa proposta inicial era articular conversas artísticas no universo da dança, diálogo de que sentíamos falta, na época. Com o tempo, passamos a cobrir importantes festivais e pude ver e registrar, com texto e imagem, centenas de peças e espetáculos, com artistas nacionais e internacionais, importantes nomes do mundo da dança, espetáculos da cena independente, performances e outras linguagens que usam o corpo como ferramenta. E a relação com a dança, que já era intensa no “gostar de dançar”, ficou também como marca no olhar.  Foi durante uma exposição sobre o bailarino e coreógrafo japonês Kazuo Ono, realizada pelo Sesc em São Paulo, que surgiu a vontade de olhar para o Butô como uma pesquisa da imagem. Uma dança imagética, sem gênero, jogo da luz e da sombra. Criada no Japão na pós-repressão americana, ela reflete a angústia, a impossibilidade do dizer, a dor de perder as raízes. O desejo era experimentar uma pesquisa poética em torno das formas, possibilidades e relações do corpo com o butô. Uma dança sem código, sem forma, uma busca pela liberdade.  Convidei para fazer esse trabalho como uma pesquisa de imagem o artista João Hannuch, ator e diretor de teatro, que havia estudado o butô para a construção de um personagem. Nessa pesquisa, que intitulei Yami – Ensaios sobre o Butô, minha relação com o objeto fotografado seria, claro, bem diferente do que vinha fazendo, ao acompanhar espetáculos. A primeira sessão foi no parque do Ibirapuera, em São Paulo. Nesse dia, levamos figurinos variados, ainda em estado de experimentação, e logo fomos deixando quase todos de lado, até que chegamos a este, único: a saia branca, o rosto pintado e o corpo sujo.  Em um segundo momento, fomos até um espaço vazio de praia, no litoral de São Paulo., onde conseguimos a claridade. As fotos dessa sessão, assim como no Ibirapuera, aconteciam no ritmo de uma dança: ele ia improvisando em um movimento contínuo, às vezes por uma hora inteira, e eu fotografava. Sem ensaio ou acordos, o fluxo da dança de João vinha do desejo do corpo de se mover, das interações com o ambiente e dos sentimentos que daí surgiam. Eu, como fotógrafa, buscava, também no improviso, a melhor forma de registrar.  Na terceira e última sessão, que aconteceu em um estúdio, conseguimos trabalhar as fotos escuras, com o controle de luz e o fundo preto. Assim, o ensaio teve desde muita luz, na praia, até a escuridão fechada. Em seu livro Butô – pensamento em evolução, a pesquisadora das artes do corpo Christine Greiner destaca alguns conceitos caros ao butô. Sobre Yami, “piscadela da luz ou trevas da noite”, ela conta que David Goodman o descreve como uma “repetição sem fim, uma mudança constante, uma forma de tempo sem modelo onde as coisas não são […]

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