Cartas

A meta

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A meta

No final de Da ponte pra cá, depois de despejar sobre o ouvinte uma tonelada de lucidez, o Brown diz o seguinte, no seu verso final disfarçado de prosa: “pros moleques da quebrada, um futuro mais ameno: essa é a meta”.

Simples, não? Simples. Simples como também deve ter sido simples a última pincelada do Leonardo da Vinci na Mona Lisa. A genialidade tem dessas coisas.

Quando eu ouvi aquele verso pela primeira vez, tomei um susto. O Brown me assusta com frequência. Voltei um pouco a música pra ouvir de novo. E de novo e de novo. Depois pausei, pra ficar pensando única e exclusivamente naquele verso em particular (apesar de a faixa inteira dar muito o que pensar).

“Pros moleques da quebrada, um futuro mais ameno: essa é a meta.”

Agora me lembro: Djamila Ribeiro, comentando sobre Sobrevivendo no inferno, destacou uma notável virtude dos Racionais MC’s, demonstrada não apenas nas faixas desse álbum, mas em praticamente tudo o que o grupo produziu ao longo da carreira: uma enorme capacidade de organizar o ódio. Eu iria além, e diria que, mais do que conseguirem organizar o ódio, os Racionais MC’s ajudaram muitos e muitos jovens da periferia, incluindo eu, a também conseguirem organizar o ódio de alguma maneira. Ódio, esse, que é perfeitamente justificável. Afinal, não é mole saber que a tragédia é vizinha. Não é mole saber que a falta de perspectiva vai dormir na cama com a gente toda noite. Não é mole. É injusto, é adoecedor, é desesperador, é revoltante. E os Racionais MC’s sabem muito bem disso. Tanto, que o Brown vai dizer, em Fórmula mágica da paz: “eu sei como é que é, é foda, parceiro, é, a maldade na cabeça o dia inteiro”.

Mas aí cabe a pergunta: o que fazer com essa, digamos, “disposição para a maldade”? Ainda em Fórmula mágica da paz encontramos a resposta: “descanse o seu gatilho, descanse o seu gatilho, entre no trem da malandragem, meu RAP é o trilho”.

Voltando ao verso final de Da ponte pra cá, ali está um grande exemplo de como os Racionais MC’s organizam (e ajudam a organizar) o ódio. É tudo muito foda? Sim, é. Dá vontade de chutar o balde e ir fazer justiça com as próprias mãos? Sim, dá vontade. Mas o que não falta é exemplo de como isso costuma a acabar mal. E é aí que a gente para, respira, pensa e tenta organizar o ódio, pra que ele sirva de motor numa empreitada útil. É aí que a gente percebe que, se a gente conseguir construir um futuro um pouco mais ameno que seja pra molecada da quebrada, já vai ser uma puta vitória, já vai ter valido a pena toda uma vida de luta.

É o que dá pra desejar.

Então, o que eu desejo pra 2021 é a mesma coisa que eu vou desejar pra 2022. É a mesma coisa que eu já venho desejando há algum tempo, desde que ouvi Da ponte pra cá pela primeira vez. E eu não só desejo isso, como luto por isso.

Que 2021 traga tempos mais amenos pros moleques da quebrada. Essa é a meta.


José Carlos da Silva Junior nasceu e vive na Lomba do Pinheiro, periferia de Porto Alegre. Adotou o pseudônimo “José Falero” em homenagem à mãe, de quem herdou a veia artística, mas não o sobrenome. É escritor, autor de Vila Sapo (Venas Abiertas, 2019) e participante das antologias À margem da sanidade (J. Vellucy, 2018) e Ancestralidades: Escritores Negros (Venas Abiertas, 2019). Trabalha como auxiliar de gesseiro para não morrer de fome, e toca cavaquinho para não morrer de tristeza.

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