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Cláudia Laitano: Necropolítica

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Cláudia Laitano: Necropolítica “Eu tava obcecada. Passava 80% do meu tempo falando de necropolítica e nos outros 20%, eu torcia para que alguém falasse dela só para eu poder falar um pouco mais.” (@PolemiCleo, no Twitter, em 3 de junho)  “Fui ver Emicida no trend topics. Uma mina branca q se diz comunista me vem com: ‘ele tá falando isso pq não leu Rosa Luxemburgo’. Fofa, ele tá falando pra galera preta da quebrada, né p sua esquerda da branca não. Se fecha ai. Ele citou necropolítica pq é o que tá rolando.” (@guilhermeolemos, no Twitter, em 6 de junho) “Eu só queria ser uma grande gostosa da terceira idade mas hoje tive que juntar necropolítica e epistemicídio na mesma frase pra tentar abrir cabeça de filho bolsominion.” (@Ma_Campelo, no Twitter, em 9 de junho) “Cheguei na conclusão que a probabilidade de alguém (no Twitter em geral) tuitar sobre as temáticas apropriação cultural, necropolítica, lugar de fala e imperialismo é inversamente proporcional ao quanto a pessoa leu sobre isso.” (@iegli, no Twitter, em 9 de junho) O que é: Necropolítica é um conceito desenvolvido pelo filósofo camaronense Achille Mbembe. Em 2003, Mbembe escreveu um ensaio questionando os limites da soberania quando o Estado escolhe quem deve viver e quem deve morrer. O ensaio virou livro e chegou ao Brasil em 2018, publicado pela editora N-1.   Quem usou:  “ O coronavírus está mudando a maneira como pensamos sobre o corpo humano. Ele virou uma arma, diz o filósofo camaronês Achille Mbembe. Ao sair de casa, afinal, podemos contrair o vírus ou transmiti-lo a outras pessoas. Já há mais de 775 mil casos confirmados e 37 mil mortes no mundo. ‘Agora todos temos o poder de matar’, Mbembe afirma. ‘O isolamento é justamente uma forma de regular esse poder.’ Mbembe, 62, é conhecido por ter cunhado em 2003 o termo necropolítica. Ele investiga, em sua obra, a maneira como governos decidem quem viverá e quem morrerá —e de que maneira viverão e morrerão. Ele leciona na Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo. A necropolítica aparece, também, no fato de que o vírus não afeta todas as pessoas de uma maneira igual. Há um debate por priorizar o tratamento de jovens e deixar os mais idosos morrerem. Há ainda aqueles que, como o presidente Jair Bolsonaro, insistem que a economia não pode parar mesmo se parte da população precisar morrer para garantir essa produtividade. ‘Alguns vão morrer? Vão morrer, essa é a vida’, disse o brasileiro recentemente. ‘O sistema capitalista é baseado na distribuição desigual da oportunidade de viver e de morrer’, diz Mbembe. ‘Essa lógica do sacrifício sempre esteve no coração do neoliberalismo, que deveríamos chamar de necroliberalismo. Esse sistema sempre operou com a ideia de que alguém vale mais do que os outros. Quem não tem valor pode ser descartado.’ ” (Entrevista de Achille Mbembe para o repórter Diogo Bercito, do jornal Folha de S. Paulo, em 30 de março) “O rapper Emicida explicou por que não irá aos protestos pela democracia e contra o […]

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“Eu tava obcecada. Passava 80% do meu tempo falando de necropolítica e nos outros 20%, eu torcia para que alguém falasse dela só para eu poder falar um pouco mais.” (@PolemiCleo, no Twitter, em 3 de junho)  “Fui ver Emicida no trend topics. Uma mina branca q se diz comunista me vem com: ‘ele tá falando isso pq não leu Rosa Luxemburgo’. Fofa, ele tá falando pra galera preta da quebrada, né p sua esquerda da branca não. Se fecha ai. Ele citou necropolítica pq é o que tá rolando.” (@guilhermeolemos, no Twitter, em 6 de junho) “Eu só queria ser uma grande gostosa da terceira idade mas hoje tive que juntar necropolítica e epistemicídio na mesma frase pra tentar abrir cabeça de filho bolsominion.” (@Ma_Campelo, no Twitter, em 9 de junho) “Cheguei na conclusão que a probabilidade de alguém (no Twitter em geral) tuitar sobre as temáticas apropriação cultural, necropolítica, lugar de fala e imperialismo é inversamente proporcional ao quanto a pessoa leu sobre isso.” (@iegli, no Twitter, em 9 de junho) O que é: Necropolítica é um conceito desenvolvido pelo filósofo camaronense Achille Mbembe. Em 2003, Mbembe escreveu um ensaio questionando os limites da soberania quando o Estado escolhe quem deve viver e quem deve morrer. O ensaio virou livro e chegou ao Brasil em 2018, publicado pela editora N-1.   Quem usou:  “ O coronavírus está mudando a maneira como pensamos sobre o corpo humano. Ele virou uma arma, diz o filósofo camaronês Achille Mbembe. Ao sair de casa, afinal, podemos contrair o vírus ou transmiti-lo a outras pessoas. Já há mais de 775 mil casos confirmados e 37 mil mortes no mundo. ‘Agora todos temos o poder de matar’, Mbembe afirma. ‘O isolamento é justamente uma forma de regular esse poder.’ Mbembe, 62, é conhecido por ter cunhado em 2003 o termo necropolítica. Ele investiga, em sua obra, a maneira como governos decidem quem viverá e quem morrerá —e de que maneira viverão e morrerão. Ele leciona na Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo. A necropolítica aparece, também, no fato de que o vírus não afeta todas as pessoas de uma maneira igual. Há um debate por priorizar o tratamento de jovens e deixar os mais idosos morrerem. Há ainda aqueles que, como o presidente Jair Bolsonaro, insistem que a economia não pode parar mesmo se parte da população precisar morrer para garantir essa produtividade. ‘Alguns vão morrer? Vão morrer, essa é a vida’, disse o brasileiro recentemente. ‘O sistema capitalista é baseado na distribuição desigual da oportunidade de viver e de morrer’, diz Mbembe. ‘Essa lógica do sacrifício sempre esteve no coração do neoliberalismo, que deveríamos chamar de necroliberalismo. Esse sistema sempre operou com a ideia de que alguém vale mais do que os outros. Quem não tem valor pode ser descartado.’ ” (Entrevista de Achille Mbembe para o repórter Diogo Bercito, do jornal Folha de S. Paulo, em 30 de março) “O rapper Emicida explicou por que não irá aos protestos pela democracia e contra o […]

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