Crônica

A alma do texto

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A alma do texto Dia desses cometi uma indelicadeza invadindo uma oficina de escrita de crônicas de um cara relativamente conhecido em Porto Alegre. Apareci meio no imprevisto movida por sentimentos afeto-libidinosos e a intrepidez que o consumo alcóolico empresta. Algo dentro de mim gritou o quanto aquilo era uma cilada, mas, como diz uma amiga minha, se a gente já tem o ‘‘Não’’, só resta correr atrás da humilhação. Cheguei no bar onde o grupo se reunia em plena leitura de um texto, pedi licença com o olhar e me sentei na cadeira vaga. Acompanhei com os ouvidos a leitura e, ao final daquilo que eles julgaram ser a avaliação do tal texto, eu me apresentei. Contudo, antes de passar à cena do meu vexame, gostaria de explorar um pouco melhor o que chamei aqui de ‘‘avaliação’’. A autora, ausente na hora da leitura, enviou generosamente sua voz por áudio para que o grupo respeitasse a regra que ‘‘cada texto só será lido por seu autor’’. Como eu sei disso? Porque, para minha felicidade de desvendar os mandamentos daquela microssociedade, havia entre eles, naquele exato dia, um recém-chegado. Após a leitura, cada participante, ditos ali cronistas ou aspirantes, dividiam com o grupo suas anotações, realizadas no calor da leitura. Neste ponto minha curiosidade já sem filtro – devido a minha natureza e, não se esqueçam, à ingestão prévia de álcool – estava mais aguda que a vontade de urinar, então cruzei as pernas e aguardei. O mediador da conversa, dito oficineiro, professor, mestre, ou não sei qual outro título leva, foi dando a palavra a cada um, comentando o comentário e acrescentando aos poucos os seus ‘‘também percebi isso’’. A távola redonda não deve ter durado mais que o tempo dedicado à leitura. Foram rápidos, impiedosos e superficiais. Suas observações olhavam para o texto como quem olha um muro num terreno baldio: – Vejo tijolos. – É, eu também vi. – Eu também. – Eu também. – Eu gostei da pintura. – É, eu também gostei. – Eu também. – Eu não gostei, podia ter ficado mais verde. – Ah, mas a argamassa tá boa… Enfim, você entendeu. Fiquei esperando quando falariam da ‘‘alma’’ do texto. Aquilo que não se apreende num parágrafo e outro, aquilo que circula no todo e provoca mergulho na leitura e ao finalizar traz a necessidade de respirar fundo. A sensação pegajosa do texto ficar grudado na retina, nos dedos, nos fios de cabelo. A insistência da ideia. A vontade de não morrer. A intensidade de um apelo silencioso num corredor escuro, e mesmo com medo, mesmo sem certezas, dar passo atrás de passo rumo a uma dúvida que irá dormir contigo aquela noite e talvez a próxima. Estava com grãos de areia que eram minhas próprias mãos se desfazendo sobre o colo, quando me olharam, satisfeitos pela boa gramática e ortografia respeitadas naquele recinto sagrado onde se ensina a arte da crônica, e seus olhares me gritavam em uníssono: ‘‘Quem é você, o que faz entre nós?’’ […]

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Dia desses cometi uma indelicadeza invadindo uma oficina de escrita de crônicas de um cara relativamente conhecido em Porto Alegre. Apareci meio no imprevisto movida por sentimentos afeto-libidinosos e a intrepidez que o consumo alcóolico empresta. Algo dentro de mim gritou o quanto aquilo era uma cilada, mas, como diz uma amiga minha, se a gente já tem o ‘‘Não’’, só resta correr atrás da humilhação. Cheguei no bar onde o grupo se reunia em plena leitura de um texto, pedi licença com o olhar e me sentei na cadeira vaga. Acompanhei com os ouvidos a leitura e, ao final daquilo que eles julgaram ser a avaliação do tal texto, eu me apresentei. Contudo, antes de passar à cena do meu vexame, gostaria de explorar um pouco melhor o que chamei aqui de ‘‘avaliação’’. A autora, ausente na hora da leitura, enviou generosamente sua voz por áudio para que o grupo respeitasse a regra que ‘‘cada texto só será lido por seu autor’’. Como eu sei disso? Porque, para minha felicidade de desvendar os mandamentos daquela microssociedade, havia entre eles, naquele exato dia, um recém-chegado. Após a leitura, cada participante, ditos ali cronistas ou aspirantes, dividiam com o grupo suas anotações, realizadas no calor da leitura. Neste ponto minha curiosidade já sem filtro – devido a minha natureza e, não se esqueçam, à ingestão prévia de álcool – estava mais aguda que a vontade de urinar, então cruzei as pernas e aguardei. O mediador da conversa, dito oficineiro, professor, mestre, ou não sei qual outro título leva, foi dando a palavra a cada um, comentando o comentário e acrescentando aos poucos os seus ‘‘também percebi isso’’. A távola redonda não deve ter durado mais que o tempo dedicado à leitura. Foram rápidos, impiedosos e superficiais. Suas observações olhavam para o texto como quem olha um muro num terreno baldio: – Vejo tijolos. – É, eu também vi. – Eu também. – Eu também. – Eu gostei da pintura. – É, eu também gostei. – Eu também. – Eu não gostei, podia ter ficado mais verde. – Ah, mas a argamassa tá boa… Enfim, você entendeu. Fiquei esperando quando falariam da ‘‘alma’’ do texto. Aquilo que não se apreende num parágrafo e outro, aquilo que circula no todo e provoca mergulho na leitura e ao finalizar traz a necessidade de respirar fundo. A sensação pegajosa do texto ficar grudado na retina, nos dedos, nos fios de cabelo. A insistência da ideia. A vontade de não morrer. A intensidade de um apelo silencioso num corredor escuro, e mesmo com medo, mesmo sem certezas, dar passo atrás de passo rumo a uma dúvida que irá dormir contigo aquela noite e talvez a próxima. Estava com grãos de areia que eram minhas próprias mãos se desfazendo sobre o colo, quando me olharam, satisfeitos pela boa gramática e ortografia respeitadas naquele recinto sagrado onde se ensina a arte da crônica, e seus olhares me gritavam em uníssono: ‘‘Quem é você, o que faz entre nós?’’ […]

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