Crônica

A avenida

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A avenida Avenida Farrapos (Reprodução)
Numa época anterior às faixas de segurança e semáforos, atravessar as quatro pistas da avenida era um desafio diário, enfrentado duas vezes ao dia para ir e voltar do colégio. A gente iniciava cruzando a via lateral, de paralelepípedos, até o primeiro canteiro com olmos, árvores sempre tristes. Dali seguia-se à parte mais difícil: atravessar as duas faixas centrais de concreto, de mão dupla. Vencida esta parte, já no segundo canteiro de olmos, passar pela outra pista de paralelepípedos era mais fácil. Cresci morando no Edifício Estrella, em cima da Casa Nenê, na esquina da avenida Farrapos com a rua Câncio Gomes, num tempo em que era glamoroso, para a classe média, morar nos prédios de poucos andares, de estilo art déco, que ladeavam a avenida. Era considerada uma via muito movimentada, perigosa para as crianças, e onde o trânsito nunca parava. Lembro que a vi deserta por duas vezes. A primeira, em 24 de agosto de 1954, dia do suicídio do Getúlio. As aulas do colégio foram suspensas pela manhã, e as crianças, mandadas para casa. Sem telefone, ou celular, as professoras se encarregaram de levar os pequeninhos para casa. Minha mãe – professora de música – atravessou a Farrapos com pencas de crianças em cada uma das mãos, incluindo vizinhos, a filha e os sobrinhos. Minha vó, calejada de revoluções e levantes, organizou uma força-tarefa familiar em busca de alimentos não perecíveis, querosene para fogareiro, fósforos e velas, no armazém da esquina. As notícias ouvidas pelo rádio eram assustadoras: o Diário de Notícias tinha sido empastelado; máquinas foram jogadas na calçada; uma multidão enfurecida atacava todos os estabelecimentos comerciais que remotamente lembrassem origem americana. A Farrapos, vazia, foi tomada por uma turba; ouvíamos o barulho dos vidros quebrados da Importadora Americana, situada a cerca de cem metros do nosso edifício. Logo vi, junto com a família que se apinhava na sacada da vó, a multidão chegando aos gritos: – Casa Nenê! Casa Nenê! Ao ouvir isto, a gerente da loja, uma senhora alta e de basta cabeleira branca ondulada, se misturou à multidão, falando firme, alto e com uma entonação eclesiástica: – A Casa Nenê está com vocês, meus filhos! A Casa Nenê está com vocês, meus filhos! Esta intervenção fez o pessoal mudar de ideia. Salvou a loja, o prédio e todos nós de algo imprevisível. Foi ovacionada demoradamente por todos os vizinhos. A turba seguiu em direção ao aeroporto. * Vi a Farrapos deserta pela segunda vez em agosto de 1961, durante a Legalidade. As escolas fecharam, e novamente a família fez um estoque de mantimentos esperando uma guerra civil. Difícil foi manter as crianças em casa, sem atividades. Formamos um exército de primos: com chapéus de jornal e empunhando cabos de vassoura, eles marchavam em torno da mesa da sala de jantar da vó, ao som do hino da Legalidade. Como os soldados, todos se mantinham de prontidão, sentindo-se obrigados a marchar cada vez que o hino ecoava no rádio. Meus tios chegaram a aventar […]

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