Crônica

A verdade sobre a ioga

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A verdade sobre a ioga

Eu vinha muito bem no isolamento do corona, acostumada ao home office e tal. Vinha bem. Mas sabe que nesse último mês comecei a dar uma pirada? A ginástica de velho que eu tava fazendo pela internet começou a não ser suficiente pra me acalmar. O isolamento sem fim, eu achando que vou morrer por ir no super, tensa demais, a cabeça sem parar e o corpo entrevado. Aí eu pensei “preciso de alguma coisa que me ajude a acalmar a cabeça de verdade e relaxe minha coluna” e lembrei que uma amiga é professora de ioga. Nunca me agradou muito essa ideia de ficar três horas e meia parada numa posição que dizem ser, não sei, da lua, do sol. Mas não custa tentar, vai que.

Ela topou me dar aula, disse que ia pensar num plano inicial, até pra ver se eu ia gostar, isso aí, achei ótimo. Primeira aula, claro que por videochamada, ela me deu uma explicação teórica e disse que ia começar bem devagar porque não queria ninguém quebrada, com dor, machucada, e eu: “Ué? Me machucar parada tentando equilibrar corpo e mente?” – mas só pensei. 

O fato é que não era bem o que eu imaginava, de ficar horas com as mãos em oração de frente pro sol, uma perna dobrada, aquela formação do número quatro (aquela de provar que ainda não tá caindo de bêbado, sabe?), aí mandar um namastê em voz alta, vindo do coração, e pronto, minha coluna desentrevaria, não; olha, eu mexi coisas, músculos do meu corpo que juro, nem a anatomia sabe ainda que esses lugares existem na gente, é sério, não tem nos livros de medicina. E levanta, e peito na coxa, e queixo no chão, e volta, agora em pé, arruma as costas, foca no abdômen, pelamor, nem sabia que eu tinha tanto corpo assim. No fim da aula, ela me dizia pra sentir meu pé, perna, braço, até o couro cabeludo, e eu lá, deitada no chão, ofegante, vermelha, suando, ouvindo meu corpo, e ele inteiro me dizia uma única coisa, que era “AI! AI, SUAS PUTAS, tu e essa professora!”. Era bem isso que ele me dizia. Sério, nunca achei que meu couro cabeludo pudesse me dar uma puteada.

Agora, tem um detalhe: não entendo qual que é o prazer que vocês, que manjam dessas coisas do Oriente, qual prazer vocês têm em mentir pra gente como as coisas são de verdade. Primeiro vocês começam com essa história de que peixe cru é bom. Depois, que peixe cru com wasabi é bom. Aí a pessoa vai lá, quase vomita com aquela consistência nojenta do peixe cru, fora ficar pensando nos vermes, na criatura que enfiou as mãos ali pra cortar o peixe, será que lavou debaixo das unhas, na sequência quase morre sem ar com aquele wasabi. Depois, vocês espalham pelo mundo que ioga é coisa de respiração, de equilíbrio corpo-mente, sendo que na minha primeira aula o que ficou não foi uma sensação de equilíbrio corpo e mente, e sim que eu tava na reta final duma maratona com uma queniana, não com qualquer corredora, uma do Quênia, tricampeã da São Silvestre, e eu perdi, claro, mas dei meu máximo, o que não adiantou de nada, eu era estatelada no chão, loser, num edredom, que nem colchonete de ioga eu tinha, não achei que precisasse, e dali não conseguia levantar.

Eu sei que pode parecer que tô reclamando da ioga, mas não. Eu gostei, mesmo. Tô reclamando que vocês que sabem das coisas antes da gente são MENTIROSOS, é disso que tô reclamando, porque quando a professora-amiga perguntou como eu tava e eu dei um close no vermelhão da minha cara, sem conseguir falar, só eu sei o quanto ecoou aquela gargalhada dela na minha orelha. 

Enfim, nessa primeira aula, os nomes em ioguês eu não lembro, mas sei que teve posição da montanha, do cachorro e da cobra. Gostei da ioga. Pela dor boa no corpo, pelo gasto de energia, pela concentração em outras coisas que não o coronavírus. Principalmente, eu gostei da ioga pelo amor automático que ele despertou em mim. Eu só não abracei com o coração uma montanha e uma cobra porque não tinha elas aqui em casa e eu não ia sair, tava chovendo.

Mas eu abracei tanto, tanto o cachorro dos meus pais depois que consegui me recompor, porque pensei “Olha, se essa é a posição do cachorro, se esse serzinho precisa viver assim, é um guerreiro que merece todo meu respeito e a minha compaixão”. Eu coloquei ele na minha cama e ofereci que ele ficasse um pouco na posição de humano, aquele deitado meio sentado nos travesseiros, ele não queria, eu explicava pra ele relaxar, “concentra aqui na posição de humano inútil com preguiça, ouve teu corpo, porque, caralho, eu sei que tu tá acostumado e é evoluído, tu é tão evoluído que virou até uma posição de ioga, mas viver na posição do cachorro cansa, eu não aguentei meia hora”, forçava o afofamento do bicho no travesseiro, de barriga pra cima, até que ele me deu uma pequena mordida (nem doeu) e voltou pra posição de cachorro. Aí eu deixei. Se é verdade que essas coisas do Oriente fazem a gente evoluir (tirando o peixe cru e o wasabi), então bom, o cachorro sabe melhor do que eu como se posicionar no mundo. Difícil acreditar, mas se ele diz e a professora de ioga concorda e ainda obriga os outros a ficar nessa posição, quem sou eu? Fora que tentei desevoluir o cachorro, né, então acho que tô precisando mesmo seguir com a ioga. Que venha a segunda aula.

Ana Marson nasceu em 1978, em Porto Alegre. É mestre em literatura brasileira pela UFRGS, viveu em São Paulo de 2008 a 2016 e atualmente mora em Florianópolis. Trabalha como revisora de textos e designer instrucional. Publicou A cobra da laranjeira – crônicas muito azedas, pela Consultor Editorial.

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