Crônica

Abraços guardados

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Abraços guardados

Foi em um dia já quase indefinido na minha memória que prestei atenção às sombras dos olhares. Eu devia andar lá pelos seis, sete anos quando abri a porta de casa e me deparei com a mulher maltrapilha. Ela não falou nada e estendeu a mão em concha. Chamei minha mãe, um tanto amedrontada, pois a mendiga podia muito bem ser a mulher do Velho do Saco. Não consegui desviar os olhos do magnetismo que se desprendia daquele olhar mal contornado pelo círculo da mácula envelhecida, meio escondido entre a pele que lhe descia das pálpebras. Eu não conseguia identificar se ela queria sorrir para mim ou se iria logo começar a chorar. Ela me via do jeito que eu queria esconder de todos. Senti isso, pois a tristeza dela cedeu à compreensão de quem eu era e minha mãe não sabia. Na minha pouca idade, compreendi que aquele olhar abria umas cortinas e espiava minha cabeça por dentro. A mãe acorreu rápida, deitou algumas moedas no côncavo enrugado que quase tocava meu nariz e tratou de despachar a dona daquela mão com rapidez.  “Agora vai, Deus te acompanhe”, a mãe disse, mas a velha não foi logo embora. Com a aparência dos seres saídos das historinhas que eu ouvia, falou: “Te cuida, menina, não faz o que tu tá pensando sem tua mãe saber”. Depois agradeceu, disse que Deus nos daria em dobro o que lhe dávamos ali e saiu, com o som descompassado de seu caminhar.  Minha mãe puxou-me com um gesto quase brusco e fechou a porta. Eu fiquei imaginando o quanto seria pouco o dobro do que déramos àquela mulher, mas o pensamento que me atordoou mesmo foi ela ter dito que não fizesse nada sem antes contar à minha mãe. Então, não era mesmo pra trocar figurinha do álbum com o Bebeto nem tentar dar um beijo na boca dele que sempre fugia de mim? Era pra contar isso pra mãe? Como a mendiga podia saber?  Eu fiquei assombrada com aquilo durante muito tempo. E nunca mais vi o Bebeto. 

Hoje sorrio diante dessa lembrança, mas o que ficou gravado na minha mente, além das palavras ditas, foi o olhar da fome e do desespero, a absoluta falta de amparo. O olhar da mulher que me viu daquela forma era o que chamo de sabedoria adquirida com a carência, a sabedoria vinda com o dia a dia na beirada do abismo, no fio da faca, na descida sem trava. Hoje, observo nos rostos de todos as sombras dos medos, inseguranças, revoltas, e, em muitos, as névoas da dor e das carências. O uso das máscaras evidencia esses sentimentos. As bocas escondidas deste tempo serviriam para completar essas expressões faciais, mas os olhos bastam. 

    Vou a poucos lugares, uso máscara, álcool em gel e me protejo porque sou do grupo de risco neste tempo doente. Essa proteção é meu autoflagelo, mas a ela me submeto, porque preciso amparar filhos, netos, amigos e quem me pedir auxílio e preciso cumprir essa etapa. Mas não vou ficar divagando, me propus falar sobre o que vejo neste tempo, e nele está, perene, o olhar da inesquecível mendiga da minha infância. Por onde quer que eu vá vejo as sombras das faces dos que passam por mim e elas me remetem àquele olhar. Filhos, netos, parentes, amigos e os desconhecidos que me atendem no supermercado e na farmácia, ou me alcançam as compras em casa quando é possível, vejo-as em todos. Algumas são iguais às da minha mendiga. Outras são as da revolta, da incompreensão, da desesperança, e as da aceitação com pitadas de latente impotência. Mas a pior que vejo, no entanto, é a sombra negacionista dos que se recusam a usar as máscaras e afrontam os servidores da saúde. Há pessoas que não creem que temos mais de cem mil mortos por um desgraçado vírus, creditando essa contagem a uma mídia que julgam nefasta e mentirosa e a um suposto inimigo comunista e vingativo. Há pessoas que erguem remédios supostamente curativos, os messiânicos. A esses, e a um em especial, eu digo “Viva a ema”, com vontade de chorar. Fico um pouco melhor, faço o que posso não concordando com a barbárie que acomete nosso país e alguns outros, também desgovernados. Isso me conforta, mas não basta. É como se houvesse uma grande força maléfica pairando sobre tudo neste país e é como se, neste tempo, não houvesse nada capaz de extingui-la porque o país adernou feito um navio em que o comandante vira o leme rumo ao abismo, aplaudido por um séquito de celerados que não percebem a tragédia que já temos e outras, iminentes. 

Vejo esta mulher que me olha hoje, antes de deitar, na hora em que lavo o rosto, escovo os dentes e tenho esta visão dela à minha frente no espelho do banheiro.  Ela podia fazer mais por todos, mas parece incapaz. Sei que ela tenta, milhares tentam, mas o obstáculo é imenso. Sinto-me como a desertora de uma missão incompreendida por muitos. Penso na imensidão que é a ignorância e me angustia imaginá-la maior do que a sabedoria.  E quando durmo, depois de muitas e muitas horas de angústia, o sono, jamais reparador, é o dos inconformados.  

Fazer o mínimo é limitador e salva muito poucos. Sinto-me sombra, como tantos neste tempo. Pego minha máscara. A minha, a invisível e que não é de pano ou de nenhum outro material, caiu para mim. E a de vocês? 

Alguém me ajuda? Alguém ajuda aos desvalidos, pra valer? Alguém ajuda a nós todos?

Ficamos nus neste pandêmico tempo, com nossos vagos olhares e incompletos gestos. Poucos são os que fazem a diferença. A estes, minha admiração e meu aplauso.

No horizonte indefinido, os abraços aguardam, um tanto cansados.


Ana Maria Pérez da Silveira é bageense, radicada na região metropolitana de Porto Alegre há vários anos, e apaixonada por literatura desde a adolescência. Graduada em Direito, nunca exerceu a profissão e foi servidora da Justiça do Trabalho. Com a aposentadoria, pode dedicar-se à escrita, tendo publicado um romance, o Arcanjo, (Ed. Insular) e mais tarde, já participando de algumas oficinas de criação literária, um livro de poemas, o Sortilégios (Ed. Metamorfose), além de algumas publicações em coletâneas de contos e poemas.

Este artigo faz parte da Parêntese 41. Leia aqui a apresentação da edição completa.

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