Crônica

Acaso, oráculos e sonhos

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Acaso, oráculos e sonhos Foto: Divulgação/Mandala Lunar

Esses dias, para celebrar o falecido Paul Auster reli o maravilhoso Noite do oráculo. É impressionante a facilidade com que Auster retrata a força do acaso e das coincidências na vida dos personagens e, por tabela, nas nossas. Noite do oráculo é um romance em que isso acontece num frenesi atordoante e às vezes horripilante. Mas as coincidências que ele registra também podem ser amenas e bem-vindas, quase encantatórias. Foi justamente o feliz acaso do encontro com uma amiga que me lançou num torvelinho de reflexões em torno do tema.

Essa amiga, da época da faculdade, que eu não via em carne e osso fazia um tempo, volta e meia passava por mim nas redes sociais. Lembro de ela ter chamado minha atenção nos bancos universitários pela doçura da fala, sempre acompanhada por um sorriso suave e um olhar afetuoso. Talvez também pelas roupas meio hippies, o jeitão alternativo, que me passava uma vibe de mulher interessante, feminista, completamente à vontade no próprio corpo.

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Perdemos contato, não sei o que a Naíla andou fazendo da vida, mas lá pelas tantas vi que organizou, com um grupo de mulheres, a hoje já bem conhecida Mandala Lunar, uma publicação que é uma espécie de diário de autocuidado e autoconhecimento. Esbarrei na Naíla por acaso na Paralelo 30, ótima livraria, propícia aos encontros fortuitos. Fiquei sabendo que ela se lançou em outro projeto e editou um lindo Sonhário, com o mesmo capricho da publicação anterior. É um livro-caderno de capa dura, com ilustrações belíssimas, papel macio e amarelado, cinquenta páginas de textos introdutórios e o restante todo em branco, para registrarmos nossos sonhos por escrito ou com ilustrações, colagens, gráficos, o que for.

Ganhei um Sonhário da Naíla ao fim do breve encontro e voltei para casa com vontade de folhear e repassar os muitos sublinhados e anotações do meu exemplar de O oráculo da noite. Uma inversão das palavras e temos outro livro, dessa vez do Sidarta Ribeiro, que faz uma breve história da mente humana pelo fio condutor do sonho ou, formulado de outra maneira, de como o sonho ganha lugar de destaque ao longo da história com sua crescente capacidade de, justamente, narrar a existência humana. Outra maravilha, leia se puder.

E pensar, como diz Sidarta, que o fenômeno da introspecção humana teria apenas cerca de 3 mil anos! Nos tornamos “um ser humano que quase já não escuta os deuses, mas conversa o tempo todo consigo mesmo”. E essa conversa também se dá através do sonho e da verbalização do sonho nas palavras registradas num sonhário, por exemplo.

Por que anotar os sonhos? Porque os sonhos revisitam e modificam experiências já vividas (entre outras coisas, como o livro vai nos mostrando), e nos permitem construir uma verdadeira “experiência autobiográfica”, como diz Sidarta. As “memórias não são consolidadas de uma única vez, logo após serem adquiridas. Ao contrário, elas se tornam novamente maleáveis toda vez que são relembradas, recuperadas, reativadas”. Fazemos isso também através do sonho, que aprofundam essas espécies de cicatrizes da nossa vida que são as memórias. 

Por outro acaso, estou traduzindo um romance, uma espécie de O mundo de Sofia da história da arte (e não da história da filosofia), e logo depois de reler trechos dos oráculos austeriano e sidartiano cheguei ao capítulo sobre Goya. Numa conhecida gravura, Goya desenhou um homem adormecido sobre uma mesa, assediado por aves noturnas. A gravura é intitulada em espanhol “El sueño de la razón produce monstruos”. A palavra sueño é ambígua, diz o autor. Pode querer dizer que o sono da razão gera monstros, no sentido de que suspender a inteligência equivale a deixar a porta aberta para coisas ruins. Mas sueño também pode querer dizer que o sonho da razão é que gera monstros e, nesse sentido, que a aspiração do cérebro, seu ideal, é criar os bem-vindos monstros de acordo com suas próprias fantasias. 

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Gosto mais da segunda definição para a palavra sueño, que ecoa o “espaço mental de liberdade interna” de que fala Sidarta, o mesmo buscado pelas práticas orientais de autoconhecimento (zen-budismo, yoga, kung-fu), que pode ser acessado, nos garante o neurocientista, por meio do “sonho lúcido” (ter consciência de estar sonhando): aquele “momento em que o cérebro sonha vigorosamente mas já está pronto para despertar” e, “quase milagrosamente, o faz para dentro de si”.

Entrar para dentro de si me parece algo importante nos dias de hoje, cada vez mais sugados que somos para fora, para o pisca-pisca constante do mundo. Mundo este que, por mais um acaso, me levou para as salas de cinema e para o filme Divertida Mente 2, que de certo modo convida o espectador a fazer esse mergulho interno. Gostei particularmente de uma “nova” emoção: a Nostalgia. (No filme, as emoções básicas de Raiva, Medo, Alegria, Tristeza e Nojo são surpreendidas pela demolição do QG na adolescência e pela chegada de novas companheiras: Ansiedade, Tédio, Vergonha e Inveja, além da participação especial da Nostalgia.)

A personagem Nostalgia é uma senhorinha que toma chá e que, nas duas únicas vezes em que aparece na “sala de controle”, é expulsa pelas emoções da adolescência – que não querem ficar olhando para o passado… A maturidade para encarar as memórias só vem mais tarde, não tem jeito. Ainda bem que sonhamos bastante nessa fase!

É bom ter em mente as armadilhas da “ilusão biográfica” do Bourdieu (aquela vontade de ver tudo em nossa vida com uma “intenção” subjacente), mas gosto de prestar atenção nessas repetições do dia a dia, nesses acasos e oráculos que às vezes brotam e a gente nem percebe, para valorizar o que a vida tem me oferecido, sem fantasias ou superstições.

Pixar revela último trailer de "Divertida Mente 2" com nova emoção - Jornal  Capital Federal

Livros citados:
Paul Auster, Noite do oráculo, tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
Sidarta Ribeiro, O oráculo da noite: a história e a ciência do sonho. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
Anelise De Carli e Silvia Zonatto. Sonhário. Porto Alegre: Mandala Lunar, 2024.
Thomas Schlesser, Les Yeux de Mona. Paris: Albin Michel, 2024.
Pierre Bourdieu, “A ilusão biográfica” (tradutor desconhecido), in AMADO, Janaína e FERREIRA, Marieta de Moraes. Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006, p. 183-191.


Julia da Rosa Simões é historiadora, tradutora literária e autora de A estranha ideia de família (Arquipélago, 2022).

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