Crônica

Agora é que a cidade se organiza?

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Agora é que a cidade se organiza?

Um dia, de manhã cedo, esperando o bonde pra ir trampar, na parada aqui perto da baia, eu olhei pra trás e vi que tinha uma viatura da polícia estacionada na Vilinha. Dali a pouco, dois brigadianos saíram duma casa, trazendo lá de dentro um mano meu algemado. E não tô usando o termo “mano” à-toa. O cara que tava sendo preso era tri meu bruxo, na antiga. Altos papos com ele, na época que eu queimava um.

Os brigadianos abriram a porta de trás da viatura e colocaram ele lá dentro, deitado no banco, mas com os pés pra fora do carro. Aí, um ficou segurando os pés dele, e o outro ficou batendo a porta. Ficaram fazendo isso um bom tempo. Batendo a porta do carro com toda a força. Várias e várias vezes. O que impedia a porta de fechar eram as canelas do meu bruxo.

Agora, todo o mundo acha um absurdo esse governo, porque, entre outras idiotices e demonstrações de maucaratismo, o presidente já se declarou favorável à tortura. É claro que é uma merda um cara ser imbecil o bastante pra pensar assim em pleno século 21, sobretudo se o cara em questão for a porra do presidente. Mas eu acho importante salientar que na periferia a barbárie é coisa antiga. Abuso de poder, um tapa na cara aqui, um bico no cu ali, um tiro na mão acolá. Espancamento — espancamento sério — já até faz parte do protocolo: vem logo após a voz de prisão. E se for só espancamento, o malandro tá no lucro. Depois, com sorte, se não vier o “morto por reagir à prisão”, vem a cadeia lotada, o rango azedo, a tuberculose. Às vezes, depois duns meses, ou duns anos, descobrem que o cara, na verdade, nem tinha feito nada: a prisão foi um engano. Mas isso é detalhezinho besta. E fica tudo por isso mesmo.

Então, quando eu vejo a classe média progressista toda indignada com o tal do presidente que se declarou favorável à tortura, quando eu vejo toda essa mobilização antigoverno, quando eu vejo essas manifestações na Esquina Democrática, olha, por mais que eu me identifique com os ideais e tudo o mais, não posso deixar de me perguntar onde diabos andava essa gente esses anos todos. A impressão que dá é que apenas sussurrar “tortura” no ouvido da classe média sensata já é motivo maior de mobilização do que a tortura efetivamente praticada nas periferias deste país todo santo dia. Impossível não lembrar o que diz o Marcelino, em “Da Paz”:

“Agora é que a cidade se organiza? Pra salvar a pele de quem? A minha que não é!”


José Carlos da Silva Junior nasceu e vive na Lomba do Pinheiro, periferia de Porto Alegre. Adotou o pseudônimo “José Falero” em homenagem à mãe, de quem herdou a veia artística, mas não o sobrenome. É escritor, autor de Vila Sapo (Venas Abiertas, 2019) e participante das antologias À margem da sanidade (J. Vellucy, 2018) e Ancestralidades: Escritores Negros (Venas Abiertas, 2019). Trabalha como auxiliar de gesseiro para não morrer de fome, e toca cavaquinho para não morrer de tristeza.

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