Crônica

Águas de maio

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Águas de maio Foto: Arquivo pessoal

Na noite que passou coletei uma bacia de água da chuva no terraço do edifício. Não queria que minhas plantas secassem, mas usar a água da torneira não era uma opção. De jeito nenhum. Enquanto despejo água nos vasos, ouço a chuva que não para, o gotejar é intenso, sei que novas ruas estão sendo invadidas pelas águas. A estação de tratamento de água à qual pertence meu bairro foi também tomada pela enchente, temos que racionar a que está na caixa do condomínio, não se sabe quando voltaremos a ser reabastecidos. Isto eu escrevi há cerca de um mês atrás.

As águas foram enchendo os rios, ultrapassaram as margens, encheram as ruas, inundaram as casas, grande parte do Estado ficou submerso. A enchente superou todas as já ocorridas, inclusive a de 1941 na capital. Centenas de milhares de pessoas foram desalojadas, muitas sem saber para onde ir.

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Ouvir a chuva sempre me deu prazer. Este prazer foi sumindo pelos estragos que ela está causando, o medo foi ocupando seu lugar. O som da chuva nas janelas era música, agora é anúncio de dor, e passo a desejar que se acalme e se vá logo.

Quando eu era jovem, os temporais eram esporádicos, um descontrole eventual da natureza. Mais tarde, como professora de geografia, eu explicava que temporal e granizo na primavera no nosso Estado tinham repercussão na colheita da uva no verão, porque era época de  surgimento e de crescimento dos seus cachos. O grau de açúcar da uva, dependia da insolação e da quantidade de chuva, quando os cachos estavam amadurecendo. O que eu falaria hoje? Como enfrentam tudo isso os agricultores? Há muito tempo somos avisados de que chegaríamos a isso, a essa normalidade de excessos de chuva. Eu explicava como se originavam os ventos alísio e contra-alísios, o mecanismo de seus movimentos. Um mecanismo que funcionava regularmente nas zonas tropicais e subtropicais, o avanço ou estacionamento de massas de ar de alta ou baixa pressão poderiam alterar o funcionamento do sistema com diferenças bruscas de temperatura, ocorrência de vendavais, de temporais, de granizo. Eram ocasionais em determinadas épocas. Agora os desajustes tornaram-se a normalidade. 

Quantas vezes tomamos banho de chuva em brincadeiras gostosas. E a cena em Cantando na Chuva? E a delícia de Chuvas de Março na voz de Tom e Elis?  E em Rain da Madonna? Em quantas outras letras de músicas e poemas a chuva nos remete a caminhos criativos e a sensações. Quantas narrativas existem sendo a chuva moldura de sentimentos.

No festival de Sanremo em 2023, Mr. Rain chega a finalista com sua música Super-herói, que não fala de chuva, mas o cantor declara só conseguir escrever quando chove. Imagino o clima pródigo de criações que envolve o cantor tendo a chuva como estúdio.

Há muito tempo nos chegaram os avisos da natureza, agora ela cansou de avisar e, a cada previsão de chuva, os perigos se concretizam. Infelizmente, prevalecerão os sobressaltos para alguns, e os sofrimentos para outros serão fontes de criação, enquanto não produzirmos formas de consertar o que estragamos. Outra moldura para nossos escritos.

Maio é um mês de outono, ficará na história de Porto Alegre e da maior parte do nosso Estado como mês trágico. Já não há estações, nem épocas de chuva e de estiagem, mas períodos de enchentes e de secas. Até agora o negacionismo prevaleceu, tomara que ele seja enfrentado sem mais protelações, e que ouçamos as vozes mais sofridas com o último colapso para começarmos um novo modo de viver, não apenas mudarmos algo aqui e ali para ficar tudo como está.

Enquanto isso nos embalamos e nos inspiramos nos versos: É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã / É um belo horizonte, é uma febre terçã / São as águas de março fechando o verão / É a promessa de vida no teu coração.


Maria Rosa Fontebasso é professora aposentada da Escola Estadual e do Ensino Universitário. Possui doutorado em Educação e já publiquei contos em várias antologias. É autora de O jogo da Memória, publicado pela Metamorfose, e escreve no blog Caderno da Maria Rosa

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