Crônica

Amantes do rio

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Amantes do rio Foto: Gustavo Mansur/Palacio do Planalto

Depois de um dos piores meses de maio pelos quais já passamos seguimos em junho, ainda contando os mortos e desaparecidos da catástrofe climática que sacudiu o estado. Por mais que estejamos abalados com as inundações de mais de um mês, o cenário seja de pós-guerra, as perdas incalculáveis e os desafios enormes, sinto que passamos para uma nova fase deste desastre. 

As pessoas encaram com mais disposição a inevitável volta para casa, a maioria completamente destruída, tendo que contabilizar os prejuízos e pensar em soluções provisórias para retornar ao antigo lar, mesmo que essa designação não esteja à altura do novo cenário. 

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Caminhões com água, comida, roupas, colchões e remédios continuam chegando para repartir com um estado inteiro, afinal, dos 497 municípios, 441 foram atingidos em maior ou menor escala gerando um rastro de destruição e dor por toda parte. Toneladas de entulho e lama são retiradas das casas, escolas, hospitais, galpões, fábricas e indústrias em todo o Rio Grande do Sul. Toneladas desse lixo são deixadas à beira das calçadas, diariamente, e até das ruas, tamanha destruição provocada pelas águas. Colchões, estrados, mesas, cadeiras, sofás, aparelhos eletrodomésticos, papéis e um cem número de coisas são descartadas inevitavelmente. O serviço público do Departamento Municipal de Limpeza Urbana não dá conta de tanto trabalho. O mau cheiro se espalha pelo ar e as doenças avançam sobre a população infectada pelas águas infestadas de xixi de rato. A leptospirose se alastra deixando alguns óbitos, aumentando a lista dos corpos perdidos. As crianças já voltaram para as aulas com exceção de milhares que ainda não tem para onde voltar, assim como famílias desoladas. 

Na guerra para salvar vidas e as cidades, nos deparamos com leitos de rios ainda cheios e o Guaíba esbaldado sobre parte da cidade. Mas o problema nunca foram os rios, sim o que fizemos com eles, destruindo cabeceiras, matas ciliares, banhados e aterrando grande parte das suas encostas. A destruição sistemática dos biomas naturais trouxe seca e desequilíbrio, gerando condições para intensificar a força deste terrível evento climático. A falta de prevenção e manutenção dos sistemas de contenção em Porto Alegre, fez com que a enchente fosse pior.  Antes tudo tivesse funcionado como deveria. 

Lembro que fui uma criança criada a beira do rio Guaíba, naquela época o chamávamos de rio e não de lago, como atualmente. Aqui em Ipanema, onde voltei a morar com a família, ficava a casa dos meus avós maternos onde eu e meu irmão, Fernando, íamos frequentemente à praia tomar banho de rio e fazer castelo de areia com a minha avó, Emma, ou os meus pais. Uma convivência pacífica e agradável junto à natureza, entre ruas arborizadas e uma vizinhança afável. Nadávamos à vontade em suas águas mornas, no verão, e assistíamos as suas ondas nos tempos de outono e inverno. Quando saímos das Três Figueiras e viemos para Pedra Redonda, com meus pais, eu costumava pescar lambari com vara e anzol. Depois, na casa nova, no Jardim Isabel, a vista dava para o Rio Guaíba, majestoso, com as suas águas mansas numa paisagem encantadora. Eu e minhas amigas andávamos de puch pelas ruas do bairro e, não raro, passeávamos na orla de Ipanema para admirar o rio.

Somos gaúchos acostumados à água, com milhares de pescadores vivendo nas ilhas ao redor da cidade e com uma cultura de navegação como tradição fundadora, assim como os casais de portugueses açorianos, que aqui chegaram, no início de tudo. Somos ainda mais antigos, herdeiros dos indígenas que habitavam diversas regiões do estado e nomearam a maioria dos seus rios, lagoas e afluentes. Amamos as nossas águas e regiões alagadas como a imponente Lagoa dos Patos com a sua notável e expressiva biodiversidade. Temos a região do Cais do Porto nos lembrando sempre que temos água nas veias e que precisamos retornar a rota de navegação de modo prudente e inteligente. 

Embora tenhamos tratado com tanto descaso a nossa fauna, flora e águas, somos um continente humano vocacionando para a água, para os rios e mares, tão familiares. Não é possível que esqueçamos tamanho compromisso com nossas raízes aquáticas em nome do progresso violentador e obsceno. Em nome da nossa própria sobrevivência, precisamos urgentemente retornar aos sábios valores de nossos antepassados indígenas que cuidavam da Natureza, pois sabiam-se parte dela.  

Que os nossos governantes aceitem a ciência e as previsões baseadas em estudos sérios e dados concretos para conviver pacificamente com os recursos naturais, interagindo com o meio ambiente de modo mais harmonioso e sustentável. 

Que a gente volte a passear nas margens do nosso amado rio-lago Guaíba, em breve, observando os veleiros e jet-skis, admirando a paisagem banhada pelo pôr do sol e, em fevereiro, assistindo aos barcos enfeitados levando oferendas e flores a Iemanjá, Nossa Senhora dos Navegantes com respeito e amor. 


Nora Prado é bacharel em interpretação teatral pela UFRGS, atriz, professora, apresentadora e poeta gaúcha. É sócia fundadora da Cia. Megamini. Em 2017, publicou seu primeiro livro de poesias A Espessura da Vida, com ilustrações da artista visual Zoravia Bettiol. Em 2021, publicou seu segundo livro, Alma das Flores, pela editora Bestiário. 

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