Crônica

Aniversário

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Aniversário Pela primeira vez, em 44 anos, passei meu aniversário sozinha. Foi uma sucessão de coisas, trabalho pesado no fim de semana; na segunda-feira, dia do aniversário, comecei um trabalho novo, então fiquei o dia todo com essas câmeras de computador ligadas falando com gente estranha, que por sinal nem sabia que era meu aniversário; longe da família, pois não pude viajar e alguns membros do clã haviam vindo me visitar na semana anterior, enfim. É que eu gosto de fazer aniversário, muito. E também gosto de algumas pessoas e de quando elas estão comigo nesse dia, mas não deu. Aí fiquei pensando que podia ser feriado mundial no meu aniversário, pra eu ficar livre pra estar com quem e onde quisesse. Quer ver que podia ser feriado mundial? Eu nasci no mesmo dia do Mandela, com 60 anos de diferença. Ah, tô dizendo. E o pior foi que pensei nisso no dia do aniversário, em algum dos momentos em que não ouvia o que as pessoas do trabalho diziam. Mas pescava palavras, ninguém desconfiou que eu tava pensando no Mandela e no fato de que quando ele foi preso, em 1962, meus pais nem sequer se conheciam. Ele passou 27 anos na cadeia, deu tempo de meus pais se conhecerem, namorarem, casarem, terem meu irmão, darem um tempo de fralda cagada, meu avô materno morrer, eu nascer, meu avô paterno morrer, até eu chegar na minha primeira menstruação, e aí o Mandela foi solto. Umas vidas depois. Nelson Mandela passou 27 aniversários na cadeia porque queria uma coisa impossível pra humanidade, basicamente que pessoas fossem tratadas com igualdade e respeito. E eu ali, me queixando porque estava sozinha fisicamente no dia do meu aniversário pela primeira vez na vida. Aí é que tá, por isso que ele é o Mandela e eu sou eu. Então deu 6 da tarde, o trabalho acabou e eu disse: “Quer saber? Eu sou uma mulher que aprendeu a se apreciar, gosto da minha companhia, não, meu dia não vai passar em branco pra mim mesma”. Até aí eu ainda não sabia que isso sim, se aplica, mas não no dia do aniversário. Peguei minha bicicleta e fui pro supermercado, decidida: ia comprar bolo e velas, cantar parabéns e apagar as velinhas, foda-se. Quando cheguei no súper, peguei um bolinho que eles fazem lá mesmo, pequeno, e fui pras velas. As opções eram assim, em velas gigantes: o número 4 azul com uma gravatinha, ou o 4 rosa com um lacinho. Pensei o que qualquer ser humano sensato pensaria, logo de cara: Damares filha da puta. Depois achei um pouco descabido uma mulher de 44 anos se festejar com velas enormes e coloridas, que certamente eram daquelas que toda hora acendem de volta, e vamos se combinar que meus pulmões, assim como o resto, já não são lá essas coisas, vamos evitar o assopro em looping das velas, até porque não teria um adulto do lado pra se irritar com isso, enfiar cuspe nos dedos […]

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Pela primeira vez, em 44 anos, passei meu aniversário sozinha. Foi uma sucessão de coisas, trabalho pesado no fim de semana; na segunda-feira, dia do aniversário, comecei um trabalho novo, então fiquei o dia todo com essas câmeras de computador ligadas falando com gente estranha, que por sinal nem sabia que era meu aniversário; longe da família, pois não pude viajar e alguns membros do clã haviam vindo me visitar na semana anterior, enfim. É que eu gosto de fazer aniversário, muito. E também gosto de algumas pessoas e de quando elas estão comigo nesse dia, mas não deu. Aí fiquei pensando que podia ser feriado mundial no meu aniversário, pra eu ficar livre pra estar com quem e onde quisesse. Quer ver que podia ser feriado mundial? Eu nasci no mesmo dia do Mandela, com 60 anos de diferença. Ah, tô dizendo. E o pior foi que pensei nisso no dia do aniversário, em algum dos momentos em que não ouvia o que as pessoas do trabalho diziam. Mas pescava palavras, ninguém desconfiou que eu tava pensando no Mandela e no fato de que quando ele foi preso, em 1962, meus pais nem sequer se conheciam. Ele passou 27 anos na cadeia, deu tempo de meus pais se conhecerem, namorarem, casarem, terem meu irmão, darem um tempo de fralda cagada, meu avô materno morrer, eu nascer, meu avô paterno morrer, até eu chegar na minha primeira menstruação, e aí o Mandela foi solto. Umas vidas depois. Nelson Mandela passou 27 aniversários na cadeia porque queria uma coisa impossível pra humanidade, basicamente que pessoas fossem tratadas com igualdade e respeito. E eu ali, me queixando porque estava sozinha fisicamente no dia do meu aniversário pela primeira vez na vida. Aí é que tá, por isso que ele é o Mandela e eu sou eu. Então deu 6 da tarde, o trabalho acabou e eu disse: “Quer saber? Eu sou uma mulher que aprendeu a se apreciar, gosto da minha companhia, não, meu dia não vai passar em branco pra mim mesma”. Até aí eu ainda não sabia que isso sim, se aplica, mas não no dia do aniversário. Peguei minha bicicleta e fui pro supermercado, decidida: ia comprar bolo e velas, cantar parabéns e apagar as velinhas, foda-se. Quando cheguei no súper, peguei um bolinho que eles fazem lá mesmo, pequeno, e fui pras velas. As opções eram assim, em velas gigantes: o número 4 azul com uma gravatinha, ou o 4 rosa com um lacinho. Pensei o que qualquer ser humano sensato pensaria, logo de cara: Damares filha da puta. Depois achei um pouco descabido uma mulher de 44 anos se festejar com velas enormes e coloridas, que certamente eram daquelas que toda hora acendem de volta, e vamos se combinar que meus pulmões, assim como o resto, já não são lá essas coisas, vamos evitar o assopro em looping das velas, até porque não teria um adulto do lado pra se irritar com isso, enfiar cuspe nos dedos […]

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