Crônica

Até a próxima

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Até a próxima Foto: Gustavo Mansur/Palácio Piratini

Na primeira vez foi a iniciativa dos filhos, com ares de ultimato. Não me deixariam engaiolado, o que certamente aconteceria, sem luz, sem água, comida e internet. A síndica me ajudou a compor a mochila de emergência. Um filho agiu confiado no poder de seu muque. O outro, com a mulher, arrebanhou um time de socorristas voluntários e um bote. Ofereceram-se ao caudal sujo que ocupou a rua Augusto Melecchi, no bairro Menino Deus, no segundo dia da primeira enchente. 

Estava se formando o coquetel bacteriológico do vômito do rio-lago, resultado inevitável das pestilências obrigado a engolir da manhã à noite. Na horizontal, abraçado aos socorristas, fui depositado no bote sem ter molhado um centímetro da roupa, tinha à minha espera, na praça Estado de Israel, uma médica mineira voluntária, atenta ao protocolo clínico básico. 

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Estava na primeira etapa da maratona de ansiedade, na verdade medo, desatada por duas enchentes descomunais seguidas. Algo inesperado, para quem tinha um ano na grande enchente de 1941. A esta altura do campeonato, não esperava ver o repeteco. Currículo desprezível diante do infortúnio de dezenas de milhares que perderam tudo e de centenas de mortos. 

Na segunda vez, 23 de maio, mesmo cenário, quase em pânico, fui socorrido por uma equipe da Polícia Judiciária do TR-4, reforçada por um voluntariado de Brasília. Até cadeira de rodas no desembarque….

Vendo os esguichos efervescentes da boca dos bueiros não tenho mais a certeza de que não pedirei socorro mais uma vez. 


Carlos Alberto Kolecza é jornalista.

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