Crônica

AVC

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De volta do bairro civilizado onde trabalhava ao bairro selvagem onde vivia, ainda metido no uniforme amarrotado da empresa de portaria, Seu Leopoldo, homem de respeitável cabelo branco, avançou na direção do boteco, experimentando um princípio de tontura. Não andava com o sono em dia, e supunha que só podia ser essa a razão do mal-estar. “Ah, mas agora, agora chego em casa, dou um beijo na Preta, como uns pão, deito, durmo, descanso bem, e daí depois acordo novinho em folha”, pensou, com o otimismo displicente de quem já está habituado àquele tipo de vertigem.

Mais de quatro décadas trabalhando como porteiro noturno tinham feito de Seu Leopoldo uma criatura dada a suspiros profundos. E foi assim, expulsando toneladas de ar pelas narinas peludas, foi assim que o idoso esperou sua vez de ser atendido junto à grade de ferro da entrada do boteco. Diante dele, na maior algazarra, crianças de mochila às costas e sem a mínima pressa faziam questão de perguntar ao dono do estabelecimento o preço de cada coisinha à venda antes de por fim decidirem quais bobagens comprar com seus punhados de moedas. Do outro lado da rua, onde havia uma criançada ainda mais numerosa e ainda mais estridente, os portões da escola de ensino fundamental da região, prestes a serem abertos, brilhavam ao sol da manhã.

Quando enfim chegou a vez de Seu Leopoldo de ser atendido, lhe ocorreu uma pequena preocupação. Tudo o que pretendia comprar era um par de pães, e como só tinha uma nota de cem reais para pagar, talvez o dono do boteco resmungasse e fizesse cara feia, por causa do troco. Contudo, não foi isso o que aconteceu. Quem resmungou e fez cara feia foi ele próprio, porque seu mal-estar agravou-se de repente.

— Opa, opa, o senhor tá sentindo bem? — perguntou o comerciante, ao vê-lo
amparar-se na grade.
— Ai, ai, num tô, não… Eu acho inté que…

Sem completar a frase, Seu Leopoldo sentiu uma dor aguda dentro da cabeça, fraquejou, soltou as barras de ferro, desabou. E ali, esparramado na calçada, ao lado de um cão encardido que ficara perceptivelmente preocupado com sua queda, o idoso, antes de perder por completo os sentidos, ainda teve tempo de ver o rosto de um menino, que acabava de chegar para comprar vinte centavos de jujubas. Ágil como um gato, esse menino abaixou-se junto dele, arrancou-lhe da mão a nota de cem reais e saiu correndo o mais rápido que podia, a mochila quicando em suas costas como um bate-bate.

O dono do boteco não perdeu tempo: sacou do bolso a chave da grade e apressou-se a abri-la. Era uma situação de máxima urgência: não podia deixar aquele fedelho escafeder-se com os cem reais! Se alguém devia ficar com o dinheiro, então que fosse ele, ora bolas! Disparou no encalço do menino.

— Pára já aí, moleque dos infernos! Dá cá esse dinheiro!

No momento seguinte, a multidão de crianças que até então se achavam reunidas lá na entrada do colégio, esperando os portões serem abertos, tratou de atravessar para o lado de cá da rua, às carreiras, aos gritos, como uma manada de animais enfurecidos. Aproveitando que o comerciante tinha saído e deixado a grade do boteco aberta, invadiram o estabelecimento e puseram-se a saquear as prateleiras.

Enquanto isso, o cão encardido lambia os beiços de Seu Leopoldo, na tentativa desesperada de reanimá-lo.


José Carlos da Silva Junior nasceu e vive na Lomba do Pinheiro, periferia de Porto Alegre. Adotou o pseudônimo “José Falero” em homenagem à mãe, de quem herdou a veia artística, mas não o sobrenome. É escritor, autor de Vila Sapo (Venas Abiertas, 2019) e participante das antologias À margem da sanidade (J. Vellucy, 2018) e Ancestralidades: Escritores Negros (Venas Abiertas, 2019). Trabalha como auxiliar de gesseiro para não morrer de fome, e toca cavaquinho para não morrer de tristeza.

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