Crônica

Balcão de farmácia

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Balcão de farmácia ‘‘O amor é o que o amor faz. Amar é um ato da vontade. […] Nós não temos que amar. Escolhemos amar.’’ bell hooks Terminei a faculdade e descobri que ainda não era farmacêutica. Eu era apenas uma pessoa formada. Não me ensinaram como criar uma carreira profissional. Ninguém diz como fazer boas escolhas de emprego, como negociar salário, como defender os direitos trabalhistas. Nunca tive uma aula sobre a defunta CLT ou a importância de se reconhecer num coletivo profissional. O que faz uma recém-formada virar uma farmacêutica? Assim como a maioria das pessoas que conheço, me tornei uma profissional trabalhando, errando e quebrando a cara muitas vezes. O balcão de uma farmácia é uma vida, por ele passa todo tipo de humor. Você pode odiar, pode não amar, você pode até ter medo, mas é impossível passar indiferente pelo balcão. E se por acaso se apaixonar pelo nível de contato humano possível de ser experimentado, cuidado! Pode ser um caminho sem volta. Aprendi rápido que a maioria das pessoas que buscam o balcão de medicamentos numa farmácia chega ali com muitas carências. Pode ser que ela tenha passado o dia no médico. Pode ser que tenha saído cedo de casa e nem tomou café direito. Já chegou aborrecida no posto de saúde porque sua chefe ficou implicando com o dia ‘‘de folga’’ em cima da hora que ela teve de pedir. Depois que o estômago roncou três vezes percebeu que a fila ainda não tinha andado e que os horários de atendimento não serão respeitados pois o único clínico ainda não chegou. Pode ser que ela tenha ficado todas as primeiras horas da manhã de pé e que, quando finalmente entrou no consultório do médico, ela já estivesse sentindo tantas dores novas, no corpo e na alma, que seus sintomas e queixas se confundissem até com a COVID, se ela tivesse tido a oportunidade de falar. Pode ser que o médico nem tenha olhado pra ela e que em menos de sete minutos renovou suas receitas dos comprimidos e das insulinas que ela pega pelo programa Farmácia Popular. Pode ser que ela tivesse alguma dúvida sobre as dores de estômago que aparecem quando toma tudo junto de manhã e quisesse saber se pode continuar tomando o da pressão primeiro e do colesterol depois pra evitar o desconforto. Pode ser que ela tenha chegado cansada na farmácia do posto e quase desistido de pegar sua medicação naquele dia, mas como também tinha que pegar a de sua mãe, engoliu outra queixa e ficou nessa fila também. Pode ser que ao chegar sua vez ela tenha percebido que a fila andou mais rápido porque falta mais da metade dos remédios. Pode ser que por causa disso ela tenha sido obrigada a gastar uma condução a mais do que deveria pra poder passar numa farmácia do Centro. Pode ser que ela tenha aproveitado que já estava lá pra comprar um presente pra sua nova netinha. Pode ser que alguma vizinha, que […]

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‘‘O amor é o que o amor faz. Amar é um ato da vontade. […] Nós não temos que amar. Escolhemos amar.’’ bell hooks Terminei a faculdade e descobri que ainda não era farmacêutica. Eu era apenas uma pessoa formada. Não me ensinaram como criar uma carreira profissional. Ninguém diz como fazer boas escolhas de emprego, como negociar salário, como defender os direitos trabalhistas. Nunca tive uma aula sobre a defunta CLT ou a importância de se reconhecer num coletivo profissional. O que faz uma recém-formada virar uma farmacêutica? Assim como a maioria das pessoas que conheço, me tornei uma profissional trabalhando, errando e quebrando a cara muitas vezes. O balcão de uma farmácia é uma vida, por ele passa todo tipo de humor. Você pode odiar, pode não amar, você pode até ter medo, mas é impossível passar indiferente pelo balcão. E se por acaso se apaixonar pelo nível de contato humano possível de ser experimentado, cuidado! Pode ser um caminho sem volta. Aprendi rápido que a maioria das pessoas que buscam o balcão de medicamentos numa farmácia chega ali com muitas carências. Pode ser que ela tenha passado o dia no médico. Pode ser que tenha saído cedo de casa e nem tomou café direito. Já chegou aborrecida no posto de saúde porque sua chefe ficou implicando com o dia ‘‘de folga’’ em cima da hora que ela teve de pedir. Depois que o estômago roncou três vezes percebeu que a fila ainda não tinha andado e que os horários de atendimento não serão respeitados pois o único clínico ainda não chegou. Pode ser que ela tenha ficado todas as primeiras horas da manhã de pé e que, quando finalmente entrou no consultório do médico, ela já estivesse sentindo tantas dores novas, no corpo e na alma, que seus sintomas e queixas se confundissem até com a COVID, se ela tivesse tido a oportunidade de falar. Pode ser que o médico nem tenha olhado pra ela e que em menos de sete minutos renovou suas receitas dos comprimidos e das insulinas que ela pega pelo programa Farmácia Popular. Pode ser que ela tivesse alguma dúvida sobre as dores de estômago que aparecem quando toma tudo junto de manhã e quisesse saber se pode continuar tomando o da pressão primeiro e do colesterol depois pra evitar o desconforto. Pode ser que ela tenha chegado cansada na farmácia do posto e quase desistido de pegar sua medicação naquele dia, mas como também tinha que pegar a de sua mãe, engoliu outra queixa e ficou nessa fila também. Pode ser que ao chegar sua vez ela tenha percebido que a fila andou mais rápido porque falta mais da metade dos remédios. Pode ser que por causa disso ela tenha sido obrigada a gastar uma condução a mais do que deveria pra poder passar numa farmácia do Centro. Pode ser que ela tenha aproveitado que já estava lá pra comprar um presente pra sua nova netinha. Pode ser que alguma vizinha, que […]

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