Crônica

Não-ida à China

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Não-ida à China

Brasil, pandemia e ensino de português para chineses on-line

O desafio de todo professor de português para estrangeiros é um dia ensinar a língua em uma universidade estrangeira. Quando fui selecionada para ser leitora na Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim, demorei alguns dias para oficializar o meu aceite: pensava na distância da família, no mandarim que não domino, no acesso à internet; enfim, muitas preocupações de quem enfrentaria alguns anos vivendo no oriente. 

No entanto, a minha preocupação se tornou outra. Enquanto estava de férias nos Estados Unidos, minha primeira parada antes de ir à China, entre uma atração e outra, até percebia pessoas usando máscaras nas ruas. Logo em seguida, meu colega do departamento me pergunta: “Kétina, tu sabe o que está acontecendo aqui na China?” Respondi que sabia sobre a existência de um vírus e nada mais. Pois bem, meu colega, de Wuhan, já estava em lockdown no dia 26 de janeiro.    

A partir daquele momento, as minhas preocupações tomaram um rumo diferente. Eu passei a perguntar semanalmente para os meus colegas se eles estavam bem, se eu poderia ajudar em algo, mas a tranquilidade deles me fazia pensar que tudo iria passar rápido, que era apenas mais um vírus que logo seria controlado pelas autoridades competentes. Enquanto isso, em fevereiro, a universidade já oficializava o ensino on-line durante o próximo semestre e informou que poderíamos fazer os programas das disciplinas e testar as plataformas disponíveis. Entre adaptações de aplicativos e programas, do oriente e do ocidente, vendo o que funcionava aqui e lá ao mesmo tempo, contei com o senso de coletividade dos alunos. Problemas técnicos acontecem, certo?

Com meus alunos, descobri que poderia resolver qualquer um rapidamente com a força do grupo. Não funcionava o aplicativo? Professora, temos essa segunda opção. Não consegue ler porque está em mandarim? Pode deixar, professora, vou ligar para a senhora e te ajudar a instalar. É preciso de um número de telefone, professora? Pegue o meu e de mais dois colegas. A internet dos colegas está caindo toda hora! Professora, decidimos assistir às aulas todos com as câmeras desligadas para que nenhum colega fique sem conexão. Assim se deu a testagem dos equipamentos e fui conhecendo os meus alunos e aquela força coletiva trabalhando para que tudo desse certo. A cada atrapalhada minha, uma resposta compreensiva e massiva do grupo dizendo não há problema, professora, acompanhada de figurinhas fofas do WeChat. 

As preocupações técnicas já não existiam, mas as questões políticas não davam sossego nas minhas aulas. Enquanto a pandemia se agigantava nos Estados Unidos, eu já ouvia o discurso nas ruas e nas mídias estadunidenses de boicote a produtos chineses. Nas aulas de Política que eu ministrava para o quarto ano, os alunos falavam a respeito do seu desconforto com as declarações xenofóbicas de Donald Trump. Agora imaginem vocês quando o Eduardo Bolsonaro, filho do presidente (que, por sua vez, esteve na China em outubro de 2019, e meus colegas de Departamento foram seus intérpretes), faz declarações tão xenofóbicas quanto as de Trump? 

As reações dos alunos na internet, em mandarim, foram imediatas. Com a ajuda do tradutor, entendi a indignação dos alunos e decidi dar um espaço na aula seguinte para que discutíssemos as declarações do Deputado Federal filho do presidente da República. Até essa aula acontecer, me preparei com defesas, queria dizer que a fala de Eduardo não representava a visão dos brasileiros, estudei o percurso político da família Bolsonaro, estudei a última visita do presidente à China. Li análises e artigos sobre diplomacia, pois acreditava que tínhamos que entender o comportamento das autoridades brasileiras em relação à China e as consequências que elas poderiam trazer para a relação entre os dois países. Dando espaço para os alunos começarem a falar, vi que todos fizeram os mesmos estudos e fizeram uma análise diplomática, tentando entender o alinhamento do Brasil com os EUA e as jogadas políticas que isso implicava, pois a cúpula do governo Bolsonaro tinha uma base eleitoral para agradar e motivar nas redes sociais. Essa discussão, inclusive, rendeu um trabalho de conclusão de curso de um dos alunos, Zhang Fangming, intitulado “Uma breve análise sobre a mudança da postura de Bolsonaro em relação à China”.

De alguma forma, as notícias brasileiras sempre estavam surpreendendo, dia após dia. Em seguida, o então Ministro da Educação também faz uma infeliz declaração a respeito dos chineses. Foi uma piada infantil, deslocada, sem sentido. Sem sentido também para meus alunos e colegas, que me perguntavam o que ele quis dizer naquele tweet. Eu expliquei, eles entenderam, e eu não sabia o que deveria dizer em seguida. Pedi desculpas. Pedi educadamente desculpas pela fala do Ministro da Educação do meu país. 

Ensinar línguas é mais do que ensinar a falar, ler, escrever, se debruçar sobre estruturas gramaticais. Ensinar línguas é muito sobre ensinar modos de ver o mundo, conhecer o outro e conhecer a si mesmo – parafraseando aqui os meus formadores Margarete Schlatter e Pedro Garcez. No entanto, eu conheci uma face difícil do Brasil, que meus trinta anos de idade nunca esperaram ver, e essa face estava refletida nas palavras escritas e vozes espantadas dos meus alunos e colegas de trabalho. Muitos desses alunos decidiram estudar português porque éramos um país em ascensão, porque conhecem o nosso futebol, as nossas praias, a nossa música, a nossa cultura, e se encantaram com a personalidade do povo brasileiro. 

Na semana passada, meu colega professor me disse: Hoje até meus pais conhecem o Brasil, mas por causa do Bolsonaro e da pandemia. Dou aula para alunos chineses há pelo menos sete anos e nunca senti que o país jogava tanto contra mim, contra aquilo que tentava construir de língua portuguesa e de Brasil com meus alunos. Em minhas aulas, mostro que Brasil não é somente futebol, samba, alegria, mas que tudo isso está inserido num contexto repleto por diversas mazelas sociais. Contudo, nesse semestre, confesso que tive que defender o meu país de seus próprios líderes.   

Minhas preocupações pessoais iniciais tomaram proporções maiores, pois quero entender que projeto de país nós temos para o futuro. Nossas lideranças enfraquecidas estão justamente mostrando essa imagem em sala de aula. Meus alunos não irão mais fazer intercâmbio no Brasil no terceiro ano, como alguns haviam planejado, pois decidiram estudar em Portugal e em Macau. Pandemia? Crise Política? Talvez um pouco disso tudo. De qualquer modo, eu sei que meus alunos não estão perdendo a paixão pela língua portuguesa porque continuam curiosos para saber mais sobre o Brasil.

Ao fim de cada aula, até o final do semestre, pude ir dormir tranquila, com vinte boa noite e vinte obrigadíssimo! pela aula, que me falavam antes de dormir no WeChat, às quatro da manhã de Brasília. Espero que o próximo semestre à distância seja mais calmo, para que eu não precise proteger a imagem do meu país dele mesmo. 

Hoje, são meus colegas e alunos que me perguntam periodicamente se está tudo bem, pois estão preocupados com a pandemia no Brasil. Hoje eles que estão de férias, com a transmissão comunitária do coronavírus controlada em seu país.   


Kétina Allen da Silva Timboni. Professora Leitora de Língua Portuguesa da Beijing Foreign Studies University. Mestra em Estudos da Linguagem – Linguística Aplicada (PPG/LETRAS – UFRGS). Licenciada em Letras – Português e Espanhol (UFRGS).

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