Crônica

C98 e D43

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C98 e D43

Aqui na Lomba do Pinheiro existe uma lenda, conhecida como C98, ou Circular Pinheiro. Esse ônibus — que dá 1001 voltas no bairro pra depois ir morrer de cansado lá no alto do campus Vale —, nossa mãe!, o bicho passa quando bem entende. A coisa é tanta, que as pessoas nunca sabem dizer com certeza se a linha ainda tá funcionando.

— Vem cá, e o C98, que nunca mais vi, hein? Será que ainda existe aquilo?

— Ué!, e já existiu mesmo alguma vez? Ouvi falar desse troço aqui e ali, mas ver, ver, que é bom, nunca nem vi.

Pois o troço existe mesmo. E ano passado, quando comecei a estudar no Colégio de Aplicação, me dei conta de que o C98 era a linha que melhor me servia na ida do Pinheiro pro campus. Mas, ao longo do ano inteirinho, eu só consegui entrar no bendito duas vezes. Duas míseras vezes!

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Aqui na Lomba do Pinheiro existe uma lenda, conhecida como C98, ou Circular Pinheiro. Esse ônibus — que dá 1001 voltas no bairro pra depois ir morrer de cansado lá no alto do campus Vale —, nossa mãe!, o bicho passa quando bem entende. A coisa é tanta, que as pessoas nunca sabem dizer com certeza se a linha ainda tá funcionando.

— Vem cá, e o C98, que nunca mais vi, hein? Será que ainda existe aquilo?

— Ué!, e já existiu mesmo alguma vez? Ouvi falar desse troço aqui e ali, mas ver, ver, que é bom, nunca nem vi.

Pois o troço existe mesmo. E ano passado, quando comecei a estudar no Colégio de Aplicação, me dei conta de que o C98 era a linha que melhor me servia na ida do Pinheiro pro campus. Mas, ao longo do ano inteirinho, eu só consegui entrar no bendito duas vezes. Duas míseras vezes!

E parece que o descaso da empresa com a linha não é segredo nenhum. Na primeira vez que consegui pegar o C98, fui logo perguntando os horários pro cobrador. Daí, ele me disse o seguinte:

— Vixe! O horário deste aqui? Não me faz pergunta difícil!

Eu ri. Mas, na sequência, insisti, dizendo que eu precisava mesmo saber os horários. Ele estalou os beiços.

— Mas não tem horário, mano. Passa quando passa.

Esse é o ônibus que cumpre a nobre função de levar a comunidade da Lomba do Pinheiro ao campus da Universidade Federal do Rio Grande do Sul: passa quando passa.

E passa vazio. Nas duas vezes que eu peguei, só tinha três pessoas dentro do ônibus: eu, o cobrador e o motorista. Mais ninguém.

Claro que nem todos os ônibus que saem do Pinheiro são assim. Outras linhas têm horários bem definidos, cumpridos religiosamente, e já chegam na Bento Gonçalves cuspindo gente pelas janelas. Conheço bem essas linhas. Ô, se conheço! São as linhas que levam o pessoal da Lomba pra limpar chão e virar concreto em todos os cantos da cidade.

Outro ônibus que eu comecei a pegar com frequência ano passado foi o D43. Esse me servia quando tava pelo Centro e precisava ir pro campus. Mas o D43 é outro nível! Ar-condicionado, poltronas confortáveis, passa um a cada minuto — e mesmo assim nunca tá vazio!

Ora, mas é claro que nunca tá vazio! Como poderia estar? Porra, o ônibus tá indo pro campus Vale, e vai passando nas regiões centrais da cidade, que é justamente onde moram as pessoas interessadas em ir pro campus Vale: pessoas que pensam que passar fome é ir dormir sem jantar, e que não saberiam dizer por qual lado se pega uma vassoura.

O papo dessa galerinha é bizarro. Uma vez, numa viagem, sentou do meu lado uma menina, e um cara ficou em pé do lado dela. Os dois tinham acabado de subir, e vieram desenrolar uma conversa na minha volta.

— Lá, a única professora novinha sou eu. O resto dos professores é mais velho.

— Ah, isso é legal. Pode ter certeza que tu serve de inspiração pra garotada lá. Eles devem olhar pra ti e pensar: “se ela, tão novinha, consegue ser alguém, então eu também posso ser alguém algum dia”.

— Sim, sim. E eles são muito respeitosos, sabia?

— É?

— É. Claro, no início, eu fiquei com um pouco de medo… Dar aula na periferia, e tal… Aquela coisa. A gente fica meio com medo. Mas depois eu fui vendo que era bobagem minha. Claro, eu sei que eles são todos envolvidos com as coisas lá. Droga, essas coisas. Eles não me contam, mas eu sei. Se não vendem, pelo menos usam. Mas ninguém nunca me faltou com o respeito.

— Claro que não. Professores são os mais seguros nessas áreas. Porque é a gente que leva o conhecimento lá, pra eles.

Eu preferia mil vezes pegar o C98 e ouvir o cobrador falando com o motorista sobre futebol. Pelo menos eles sabiam do que tavam falando.


José Carlos da Silva Junior nasceu e vive na Lomba do Pinheiro, periferia de Porto Alegre. Adotou o pseudônimo “José Falero” em homenagem à mãe, de quem herdou a veia artística, mas não o sobrenome. É escritor, autor de Vila Sapo (Venas Abiertas, 2019) e participante das antologias À margem da sanidade (J. Vellucy, 2018) e Ancestralidades: Escritores Negros (Venas Abiertas, 2019). Trabalha como auxiliar de gesseiro para não morrer de fome, e toca cavaquinho para não morrer de tristeza.

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