Crônica, Parêntese

Chico e Luis Fernando na confraria do empate

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Chico e Luis Fernando na confraria do empate

O maior brasileiro vivo. Eis a questão posta na mesa antes da pandemia, numa confraria de gente do Alegrete, e retomada agora em intervenções virtuais. Parecia fácil, porque Lula estava de fora, para que o debate não fosse ocupado pela política, mas chegamos a um impasse quando descobrimos que Luis Fernando Verissimo e Chico Buarque haviam empatado. A brincadeira começou no voto secreto, escrito no guardanapo, e deu empate de sete a sete. Fomos para o desempate com argumentos.

Chico escreve em prosa e em versos. Luis Fernando também, quando faz poesia numa hora dessas. Chico canta, e Luis Fernando toca sax, e aí é considerado empate. Alguém disse; ah, mas o Chico joga futebol, e o Luis Fernando não joga nada. Joga, sim. Luis Fernando jogou tênis de mesa no Petrópolis Clube, nos anos 70. Não havia uma prova, mas o argumento foi aceito. E assim foi. 

Luis Fernando desenha, e Chico nunca fez uma garatuja. Mas aí alguém lembrou que Chico dança tango (o que ninguém sabia na mesa). E deu empate de novo, mesmo que uma coisa não tenha nada com a outra. Luis Fernando é cronista e Chico não é. Ficaram pensando em como o jogo poderia ser empatado nesse ponto, porque Chico de fato não é um cronista clássico, e uma confrade no canto da mesa, nova na confraria, especialista em sonetos, disse que Chico tem olhos verdes. Todos se entreolharam. 

Mulheres sempre surpreendem, e a confraria é assumidamente machista. Porque a virtude parecia fora do contexto do debate, mas tudo bem, os olhos verdes foram aceitos. E deu empate de novo. 

E assim fomos juntando artes e virtudes de um e de outro, e dava sempre empate. Decidimos tirar no par ou ímpar, mesmo que muitos na mesa não se lembrassem mais como se joga par ou ímpar. Mas um cara que estava quieto lembrou: Chico escreveu para o teatro. Epa, disse outro, Luis Fernando também. E o par ou ímpar foi interrompido, porque diziam que Luis Fernando teve textos apenas adaptados para o teatro e que isso não valia. Mas acabou valendo. 

Para desempatar, lembraram que Luis Fernando era amigo do Woody Allen, com quem tocou sax em Nova York. Mas aí Chico apareceu como amigo do Paul Auster, com quem caminha em Paris. Só que alguém disse que Auster mora em Nova York, e não em Paris. De qualquer forma, o empate foi mantido, até que se descubra se Auster costuma andar por Paris. 

Essa brincadeira começou há seis anos. Na última conversa virtual, cada um na sua casa, diante de um prato de comida de clausura e de uma taça de vinho (para manter o ar de confraria), estava empatado de novo. Porque constatamos que vale qualquer argumento para levar o duelo adiante. Agora, descobrimos que usamos o mesmo truque de Trump para não aceitar a derrota. Trump não aceita que Biden tenha vencido, mas não consegue provar que ele é o vencedor. E assim fica tudo com a cara de empate, com o argumento que estiver por perto. 

Até nas confrarias o jogo não é muito limpo.

Jornalista em Porto Alegre, Moisés Mendes é autor do blogdomoisesmendes.com.br. Escreve também para os jornais Extra Classe, DCM e Brasil 247. É autor do livro de crônicas Todos querem ser Mujica (Editora Diadorim). Foi colunista e editor especial de Zero Hora. E ainda integra os Jornalistas pela Democracia.

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