Crônica

Como tu te vê?

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Como tu te vê?

“I was born this way”.
Lady Gaga

Dias desses uma mulher branca entrou em contato comigo para confirmar uma informação. Ela, em meio a um levantamento racial, queria saber como eu me autodeclarava. Queria, na real, confirmar o que tinha recebido de um colega, visto no meu perfil do Instagram, lido no Facebook e assistido num sarau que participei. Ou seja, ela queria uma certeza tão absoluta que me abalou ao ponto de remoer antigas dúvidas. Antigas é mais maneira de dizer mesmo. Apesar de viver todos os dias num mundo racista e aprender cedinho que o contrário de ‘‘liso’’ é ‘‘duro’’ quando tratamos do assunto cabelo, a permissão para refletir sobre meu lugar nestas gavetas humanas é bem recente.

Eu sou pernambucana de pai e mãe. As duas famílias que se uniram em matrimônio para minha formação genética são brasileiras no sentido amplo, com todo tipo de fusão que já houve neste território. O sangue negro dizem vir de mulheres que se deram suas próprias liberdades nas brenhas de um estado que foi uma das primeiras capitanias a ser desmatada. O sangue indígena dizem entrou na família debaixo de gritos abafados e lágrimas de dor no meio do mato. Nem tudo que acontece para a construção de um país e uma família é feito com amor. Dizem que
de português fugindo da polícia, a italiano fugindo da fome, tem um pouco de tudo quanto é origem europeia no nosso genoma. Dizem muitas coisas, mas as histórias concretas não vão mais longe que uma tataravó teimosa e muitos silêncios.

Cresci na estrada. Uma vida sem raízes territoriais é cômoda para evitar as grandes questões humanas sobre quem somos e de onde viemos. O momento presente como única ocupação, o passado acabava pertencendo aos outros, nunca a mim. Porém, não é possível esquivar-se da necessidade de conhecer sua origem pra sempre. Alguma hora o mundo te joga na cara o que você não é como oportunidade para você ir atrás de quem é de verdade. E se havia alguma dúvida até meus vinte e cinco anos, a primeira coisa que percebi quando cheguei na Suíça foi o quanto eu
não era branca. Nesta época eu já tinha ensaiado assumir meu cabelo três vezes. Desde meus 15 anos o problema não eram os cachos, mas o volume que os acompanhava. As pessoas não estão acostumadas. Eu não estava acostumada. Talvez, de algum modo misterioso, algumas experiências não são só o onde, mas também o quando.

Daquela vez, além de estar longe de casa e de todos os meus pontos de referência, dentro de mim eu me encontrava pronta para dizer Não. Eu não iria negar o volume que vinha junto com meus cachos. Este é meu cabelo. Ele não é cacheado, ele não é ondulado. Eu tenho o cabelo crespo. Aceitem! Se o meu volume te incomoda, olhe pro lado. E assim se fez. No ambiente mais branco em que eu já existi até hoje, aceitei que não era branca. Mas, como já disse antes, não ser uma coisa não é exatamente ser o seu oposto. Afinal, qual o oposto direto de uma identidade racial? Isso existe? Reflita comigo sob outro aspecto. Qual o oposto direto de ser, por exemplo, gaúcho? Quem não é gaúcho é necessariamente carioca? Quem não é gaúcho é com certeza potiguar? Não. Quando eu te digo que eu não sou gaúcha a única informação que você tem é essa mesmo, que eu não sou gaúcha.

Não ser uma coisa não é uma definição, é uma não-definição. Não se aplica à existência de alguém uma negação e pede-se pra esta pessoa ser feliz e satisfeita com isto. Somos amontoados de afirmações, e apesar de precisarmos das negações para chegarmos até as afirmações, ficar no não-alguma-coisa é apenas a metade do caminho. Eu não era branca. Uma verdade tantas vezes jogada na minha cara, enfim foi aceita. Mas, então o que eu era? Fui jogada mais uma vez naquele limbo conhecido. O lugar das pessoas que não-são. Eu mais uma vez não sabia quem era e aquilo me causava um sofrimento novo, porque desta vez eu também não era criança. Não iria chorar no colo da minha mãe, me dizendo que eu era bonita e que a gente ia alisar meu cabelo na segunda-feira e assim ficaria tudo bem. Não. Uma dor nova que eu não sabia como remediar. Mas, na pele de uma imigrante, uma das primeiras coisas que a gente aprende é relevar os incômodos. Relevei e fui levando.

Um dia assistindo Orange is the new black eu percebi que se eu fosse presa nos EUA morreria em menos de 24 horas. A sobrevivência daquelas mulheres em detenção dependia de sua organização em clãs. O clã das brancas, do qual nunca faria parte pelo meu cabelo crespo e traços, o clã das negras, no qual não seria aceita pelo tom claro da minha pele, o clã das latinas, do qual nunca faria parte por falar português no lugar do espanhol que as unia. Me vi brasileira e sozinha no mundo. Eu não era suficientemente nada. E não ter um clã numa realidade imaginária hipotética me entristeceu ao ponto de eu não conseguir ignorar. Durante dias aquela preocupação ocupou meus sonhos noturnos e reflexões diurnas. Mas o tempo passa e a gente, como cidadã do terceiro mundo, aprende a relevar os incômodos. Relevei e fui levando a vida com a conclusão de nunca ir aos EUA, pois não podia correr o risco de ser presa lá.

Até que um dia do ano passado um crush muito querido deitado na minha cama, me olhando como se eu fosse a mulher mais linda do mundo, me pergunta da forma mais leve possível, ‘‘Como tu te vê?’’. Naquela pergunta simples cabiam todas as angústias de uma vida. No meio de minha agonia existencial só consegui engolir seco o resto de oxigênio que sobrou no quarto e soltar um ‘‘Como assim, Como tu te vê?’’ –, e ele insistiu e aquela conversa não terminou bem. Na primeira vez que alguém me enxergava como sou, vendo beleza naquilo que nem eu mesma conseguia verbalizar, a única coisa que senti foi medo. Natural. Chegar às origens é o processo que nos torna adultos. Abandonar mais um aspecto da infância e o limbo de dúvidas, onde estava acostumada a ir levando tudo em banho-maria, enquanto não-era um monte de coisa, era um processo que estava percorrendo há anos, e naquele dia eu só não estava pronta para deixar aquela posição conhecida.

O meu processo de identificação se intensificou e talvez, de algum modo misterioso, algumas experiências não são só o quando, mas também o onde. Olho pra Porto Alegre e sinto que aqui era a cidade perfeita no Brasil pra jogarem mais uma vez esta questão no meu colo. Uma capital onde a segregação entre os descendentes europeus e africanos ainda é visível hoje na pouca miscigenação dos tons de pele da sua população, é difícil ignorar. Assim como é difícil de ignorar a beleza dos homens e mulheres que conheci no trabalho, nos sambas, nos bares, na rua, amigos de amigas. Tirando os imigrantes africanos recentes, não conheço outra cidade brasileira que tenha tantos negros retintos, talvez Salvador, só que lá a história é outra, e se eu for contar o que eu vivi por lá teria que passar outro café.

‘‘Quem tem que dizer isso é tu’’ – diz a mulher branca – enquanto se desculpa se em algum momento eu já havia feito pública a tal declaração racial e ela ignorava. ‘‘Tua autodeclaração é negra mesmo? Não por eu questionar em função do teu tom de pele, (quem sou eu pra questionar isso), mas porque prefiro confirmar contigo’’ – ela repete, me torturando com sua forma doce e polida de tratar. E eu sem saber o que me faz tanto mal em suas palavras. Afinal, ela só está tentando seguir uma minicartilha antirracista que, com toda certeza, é pra construção de um mundo melhor. É só eu confirmar e isso acaba. ‘‘Quem tem que dizer isso é tu’’ – ela diz como se na primeira vez na história da humanidade uma pessoa tivesse nascido transparente com água correndo nas veias, eu, e isso me dá o direito de escolher minha identidade racial.

Ela me pergunta e minha agonia aumenta, uma náusea, um mal-estar que ela nunca deve ter passado na vida. Afinal, ela é branca. O padrão normativo. ‘‘Quem tem que dizer isso é tu’’, ela me diz e imagino-a em sua casa se achando muito politicamente correta por estar me dando a sensação de escolha. Imagino suas sinapses confusas, pensamentos diversos cruzando-se em sua mente. ‘‘Por que alguém escolheria se autodeclarar negra tendo a pele clara?’’ ‘‘Por que escolher este lado do tabuleiro?’’ ‘‘Por que, após tantas miscigenações, assumir justamente aquela
identidade?’’ Não espero que ela entenda. Não espero que ninguém entenda. Eu encontrei minha resposta. Me tornei mais adulta depois disso e isso me basta. O grande lance é que identidade racial não é mais uma gaveta onde colocamos etiquetas nas pessoas. Quem vê assim está olhando a questão da maneira errada.

Eu não escolhi ser negra. Eu nasci assim. Negra de pele clara. A única escolha que fiz foi parar de tentar parecer branca. Agora é público, pra Porto Alegre e pro mundo, podem contar pra minha avó presbiteriana e pros meus antigos colegas de escola, de todas elas. Digam que saí do limbo, minha identidade racial é Negra. Digam que depois de anos de trocas sanguíneas, nem que seja uma, ainda tem negra na família. Digam pros nossos mortos que a semente vingou. Digam que suas lágrimas não foram em vão, nem suas risadas, suas feridas ou suas danças. Digam que suas
histórias não foram enterradas ou suas cantigas esquecidas. Digam pra quem quiser ouvir que uma menina nasceu com a pele clara e os cabelos escuros, e depois de um caminho longo ela se encontrou.


Nathallia Protazio é pernambucana, farmacêutica vacinadora, e depois de ter morado em muitos lugares, incluindo São Paulo e Lausanne, Suíça, hoje vive em Porto Alegre. Lançou “Aqui dentro” pela editora Venas Abiertas. Disponível pelo Instagram da própria autora: @nathalliaprotazio.escritora

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